
(Foto: Matheus Bertelli/Pexels)
O caso
Eloá Cristina Pimentel, de apenas 15 anos de idade, foi morta pelo ex-namorado Lindemberg Fernandes com um tiro na cabeça e outro na região da virilha, após ficar 5 dias em cárcere privado juntamente com o sequestrador. A vítima namorava o criminoso desde os seus 12 anos de idade, enquanto Lindemberg tinha 18 anos. Eloá, quando decidida a terminar o relacionamento, começou a ser perseguida pelo ex-namorado até que no dia 13 de outubro de 2008 ela e sua melhor amiga, Nayara Silva, foram sequestradas e ficaram presas na casa de Pimentel. É a partir desse dia que a mídia entra em ação e começa uma das coberturas mais sensacionalistas do país. (FONTES, 2021).
O caso contém muitos erros, como a forma como a polícia conduziu a negociação com Lindemberg. Porém, o erro que ganhou mais destaque foi o da mídia: coberturas televisivas de diversas emissoras com caráter sensacionalista e a divulgação do crime todos os dias incansavelmente, para prender a atenção dos telespectadores. Além de jornalistas – como Sonia Abrão – terem ligado para o sequestrador, os meios de comunicação romantizaram o crime e enalteceram a personalidade do criminoso, como se ele estivesse certo. (LEIROS 2023).
Além da mídia utilizar expressões como “crime de amor” e “crime passional” (LEIROS, 2023), a imprensa tratou Lindemberg como apenas um rapaz apaixonado e que queria seu amor de volta. Ou seja, na cobertura midiática, a verdadeira vítima foi culpada, pois era ela só “reatar” o namoro que o sequestro terminaria, ou melhor, nem teria começado. (EURÍDICE, 2021). Como exemplo dessa romantização do criminoso, tem-se o telefonema que a jornalista da RedeTV Sonia Abrão a Lindemberg, onde a apresentadora, diz que “ele é um bom moço e que ninguém sabe o que está passando pela cabeça dele”. A apresentadora ainda afirma que “o casal tem diversos fãs e que todos amam eles (Lindemberg e Eloá)”. Por fim, Sonia ainda fala com Eloá e pede “para a vítima voltar com Lindemberg, e afirma que os telespectadores querem que eles fiquem juntos”.

(Imagem da apresentadora Sonia Abrão. Fonte: Metrópoles (2023).
Em 2021, depois de 13 anos do crime, a apresentadora voltou a falar do caso e afirmou que não se arrepende de nada. Disse que se pudesse, faria tudo de novo, e que, na visão dela, a cobertura jornalística foi perfeita. Ressalta também que na época a televisão ganhou muito destaque, a audiência subiu muito e, afinal, é isso que importa para as emissoras.
Nossa equipe estava atrás do telefone da casa da Eloá. Ligamos e ele atendeu. Aceitou falar e o repórter Luiz Guerra gravou a matéria. O Lindemberg assistiu ao programa e, quando nossa repórter ligou novamente, disse que queria falar ao vivo porque estava preocupado, não queria que o Brasil pensasse que ele era bandido. Estava apresentando o programa quando o diretor me avisou que o Lindemberg estava na linha. Com minha experiência jornalística, conversei com ele. E falei com a Eloá também. No meio da conversa, ele cortou e desligou. Todo mundo me assistiu, a polícia, a imprensa, o público”, relembrou a jornalista em uma entrevista ao UOL. (Abrão, 2021, UOL).
É importante ressaltar também que o sequestro de Eloá se tornou um grande caso de entretenimento, visto que canais de televisão focados nesse gênero cobriram o caso sem critérios, como se fosse uma história de amor que no momento estava dando errado. Com essa cobertura sensacionalista, a polícia saiu muito prejudicada, pois as negociações com o sequestrador complicavam-se cada vez mais. Mas também a polícia cometeu erros, como deixar a mídia cobrir o caso do pior jeito possível sem nenhuma interferência da Justiça. Vale destacar que Lindemberg acompanhava tudo pela televisão da casa de Eloá e consequentemente estava sempre um passo à frente da polícia e sentia-se mais admirado e mais forte, visto que estava sendo visto por milhares de brasileiros. (LEIROS, 2023).
Não foi só a apresentadora Sonia Abrão que entrevistou Lindemberg. Zelda Mello, da Rede Globo, Ana Hickmann, da RedeTV, e o repórter da Folha Online também tiveram acesso a linha telefônica do sequestrador, colocando em evidência que a mídia queria mais e mais audiência (SOUZA, 2015). No caso de Hickmann, a apresentadora ainda pediu um “tchauzinho” para Lindemberg. Em uma entrevista ao portal Terra, o ex-integrante do BOPE e sociólogo Rodrigo Pimentel criticou a cobertura midiática brasileira e destacou que as emissoras Rede Record, Rede Globo e RedeTV! foram irresponsáveis e criminosas e relatou que o Ministério Público de São Paulo deveria, inclusive, chamar à responsabilidade essas emissoras de TV. (SOUZA, 2015).

(Imagem televisionada sobre o caso Eloá. Reprodução do UOL (2023) )
Além de fazer uma cobertura totalmente sensacionalista, a mídia brasileira deu exemplo daquilo que não se deve fazer em casos graves como esse. Contribuindo para o desfecho trágico de Eloá, jornalistas fizeram ligações diretas com Lindemberg, outros se apresentaram como representante familiar do sequestrador e como negociadores, e o mais absurdo, expuseram as estratégias da polícia como furo de reportagem. (EURÍDICE, 2021).
Os meios de comunicação ajudaram no que diz respeito aos estereótipos de crimes como feminicídio, visto que os jornalistas na época afirmavam que a menina Eloá precisava voltar com Lindemberg se quisesse ter sua liberdade de volta. Dessa forma, agiram diretamente conforme nossa sociedade machista, na qual a mulher é vista como a vilã da história e o rapaz é entendido como ingênuo. (EURÍDICE, 2021). O criminoso até chegou a falar no momento do cárcere privado que “se não ficar comigo, não vai ficar com ninguém” em relação a vítima, mesmo assim não foi o suficiente para o enxergarem como o culpado de tudo. (FONTES, 2021).
Desde o início do crime a imprensa fazia plantão do lado de fora dia e noite. Com a transmissão 24 horas por dia, a população brasileira, ao ligar a televisão, já se deparava com a situação, independentemente do canal que escolhesse ver. Com isso, até mesmo os estabelecimentos da cidade acolhiam as pessoas/clientes para todos acompanharem juntos o desfecho do caso, como se fosse o final de um capítulo de uma novela importante. (FONTES, 2021).
Não só a mídia se aproveitou da audiência que o sequestro estava dando, como os policiais também. Assim, no último dia de sequestro, eles aproveitaram para invadir o apartamento de Eloá no exato momento em que a televisão estava com a maior audiência, expondo os riscos da operação e fazendo com que Lindemberg já soubesse o que fazer na hora da invasão. É como se a vida da vítima em momento algum importasse tanto para a justiça quanto para a imprensa local. (EURÍDICE, 2021).
Teoria social empírica
Pode-se relacionar esse caso com a teoria da agenda. Essa teoria vem de uma hipótese no ano de 1970 e que ao longo do tempo foi ganhando força e destaque na academia. Estudada por dois professores da Universidade da Carolina do Norte – McCombs e Shaw –, atualmente é uma das teorias da comunicação mais estudadas no meio acadêmico. (DE CASTRO, 2014).
Essa teoria visa estudar como os meios de comunicação conseguem influenciar a opinião pública e formar uma agenda para a sociedade, onde os cidadãos comentam entre si sobre o assunto propagado dia após dia. Nascida de uma hipótese, foi confirmado que os meios midiáticos agendariam os assuntos os quais a população acharia mais interessante e importante. Assim, os cidadãos definem o que é importante ou não depois das informações recebidas pelos meios de comunicação, principalmente a televisão. (DE CASTRO, 2014).
Com isso, expondo todos os dias o caso da menina Eloá de forma sensacionalista, a mídia forma uma agenda midiática e consequentemente uma agenda pública, visto que ao propagarem o mesmo tema todos os dias as pessoas vão comentar sobre aquilo com outras, fazendo com que o objetivo da mídia seja concluído e automaticamente tendo-se uma audiência maior a cada conteúdo televisionado. Vale destacar também que a agenda pública é limitada, visto que a sociedade presta atenção a assuntos restritos por vez. (DE CASTRO, 2014).
Enquanto muitos temas competem pela atenção do público, somente alguns são bem-sucedidos em conquistá-lo, e os veículos noticiosos exercem influência significativa sobre nossas percepções sobre quais os assuntos mais importantes. (MCCOMBS, 2004, p. 19).
É de extrema importância ressaltar a relação do caso Eloá e da teoria da agenda, uma vez que os meios midiáticos passaram a semana inteira do sequestro falando com Lindemberg – o criminoso – via telefone e divulgavam imagens do prédio da vítima na televisão, para que assim a população assistisse e comentasse sobre aquilo todos os dias, virando o foco principal das pessoas. Assim, transmitindo de forma sensacionalista e incoerente com um jornalismo sério e correto, tudo aquilo que os meios propagavam a população tomava como verdade, fato que fica evidente ao vitimizarem Lindemberg e o público comprar a ideia de coitado.

(Imagem televisionada de Eloá durante o sequestro. Fonte: Retirada da página Cine Set (2023))
Imagem televisionada de Eloá durante o sequestro. Fonte: Retirada da página Cine Set (2023).
Considerações finais
É evidente o quanto a mídia pode nos influenciar em relação a assuntos sérios que são propagados no dia a dia com o intuito de formar uma agenda e opinião pública, visando uma audiência maior em programas televisivos e relacionando-se assim com a teoria do cultivo, visto que as pessoas ao consumirem certo tipo de assunto todos os dias tendem a cultivar e comentar apenas sobre ele. Assim, fica visível o quanto a imprensa brasileira incentivou negativamente no caso da menina Eloá, vítima de sequestro e feminicídio por parte de seu ex-namorado Lindemberg.
Os meios de comunicação, ao abordarem o caso de sequestro como se fosse mais um entretenimento, deram margem para a sociedade achar que era só mais um caso em que o criminoso estava apaixonado e tudo o que ele queria era voltar para sua amada. Para isso, era só Eloá reconciliar o namoro que tudo terminaria bem, dizia a imprensa sensacionalista. Os programas televisivos abordavam o caso como se fosse um filme de suspense onde todos estavam interessados e precisavam saber do final.
Com isso, a imprensa contribuiu negativamente para o caso e contribuiu para a violência midiática e o estereótipo de crime de feminicídio, em que muitas vezes o criminoso é tratado como vítima da situação. Infelizmente, até os dias de hoje a mídia brasileira trata certos casos de maneira errada e acaba influenciando na maneira como o telespectador brasileiro trata e aborda esses casos no seu dia a dia.
Referências
DE CASTRO, D. Agenda setting: hipótese ou teoria? Análise da trajetória do modelo de Agendamento ancorada nos conceitos de Imre Lakatos. UFRGS, 2014. Disponível em file:///C:/Users/milen/Downloads/carlosafs,+12_Agenda Setting.pdf. Acesso em 21 de novembro de 2023.
EURÍDICE, P. ´Quem matou Eloá?´ E o necessário debate sobre papel da mídia na violência de gênero. Cineset, 2021. Disponível em https://www.cineset.com.br/quem-matou-eloa-e-o-necessario-debate-sobre papel-da-midia-na-violencia-de-genero/. Acesso em 13 de novembro de 2023.
FONTES, V. Caso Eloá Pimentel: O compromisso da mídia com a audiência, o estrelismo da polícia militar e um desfecho fatal. Lab Dicas Jornalismo, 2021. Disponível em https://labdicasjornalismo.com/noticia/9545/caso-eloa-pimentel
o-compromisso-da-midia-com-a-audiencia-o-estrelismo-da-policia-militar-e-um desfecho-fatal. Acesso em 13 de novembro de 2023.
GARCIA, P. Há 13 anos, Sonia Abrão causou polêmica ao entrevistar sequestrador de Eloá. IG Gente, 2021. Disponível em https://gente.ig.com.br/tvenovela/2021-10-14/sonia-abrao-sequestrador eloa.html. Acesso em 13 de novembro de 2023.
LEIROS, M. Jornalismo ou entretenimento? Após 15 anos, ´Caso Eloá´ retoma debate sobre responsabilidade da mídia. Agência Amazônia, 2023. Disponível em https://aamazonia.com.br/jornalismo-ou-entretenimento-apos-15-anos-caso eloa-retoma-debate-sobreresponsabilidade-da-midia/. Acesso em 13 de novembro de 2023.
OLIVEIRA, T. Mídia e culpabilização da vítima nos casos de feminicídio: Um estudo do caso Eloá Pimentel. UFBA, 2018. Disponível em https://repositorio.ufba.br/bitstream/ri/26075/1/Thain%C3%A1%20Ribeiro%20de%20Oliveira%20%20M%C3%ADdia%20e%20culpabiliza%C3%A7%C3%A3o%20da%20v%C3%ADtima%20nos%20casos%20de%20feminic%C3%ADdio%20um%20estudo%20do%20caso%20Elo%C3%A1%20Pimentel.pdf. Acesso em 13 de novembro de 2023.
SOUZA, M. A influência dos órgãos da mídia nos crimes de grande repercussão social em face da presunção da inocência do acusado. Site da FEMA, 2015. Disponível em https://cepein.femanet.com.br/BDigital/arqTccs/1111401333.pdf. Acesso em 13 de novembro de 2023.
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Milena Nascimento Miguez Dantas é estudante de Jornalismo na UFRJ.
