Quarta-feira, 13 de maio de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1387

Jornalismo espetacular

(Foto: Daniel Mathew/Unsplash)

À medida que a televisão e o cinema vão se embrutecendo, fala-se mais e mais em estetização da violência. Filmes, novelas, peças publicitárias e programas de auditório são acusados deste que seria um terrível pecado ético da indústria do entretenimento: transformar sequestros, assaltos, assassinatos e demais crimes de sangue em objeto estético, ou melhor, em tema do divertimento público. Fala-se também em espetacularização da miséria, que seria um pecado análogo: apropriar-se do sofrimento dos mais pobres para convertê-lo em “fotos de arte”, em “filmes-denúncia”, em imagens comoventes.

Fala-se muito disso e, em geral, fala-se num tom de condenação, como se a estetização da violência e a espetacularização da miséria (pode-se trocar os termos e dizer, também, estetização da miséria e espetacularização da violência) fossem apenas isso: desvios de conduta dos responsáveis pela mídia. Acontece que são mais do que isso. Elas constituem o modus operandi dominante da mídia. É por meio da estetização e da espetacularização, da violência e da miséria, que o show business funciona e fatura. A espetacularização da miséria evidencia menos a angústia dos excluídos do que a carência estética dos que assinam os programas.

Considerando que o sensacionalismo é representado pelo uso exagerado do drama nas suas narrativas, há de se ponderar que a humanização também faz uso do drama. Por isso, falar que só a dramaticidade caracteriza o sensacionalismo não é suficiente. Nesse sentido, ironicamente Machado de Assis (1839-1908), como jornalista e crítico da imprensa, sublinha a seguinte questão: “Não tenho dúvidas em confessar que o espetáculo de uma perna alanhada, quebrada, ensanguentada, é muito mais interessante que o da simples calça que a veste. As calças, esses simples e banais canudos de panos, não dão comoção. As próprias calças femininas, quando comovem não é por serem calças…” (𝗚𝗮𝘇𝗲𝘁𝗮 𝗱𝗲 𝗡𝗼𝘁𝗶́𝗰𝗶𝗮𝘀, RJ, 16/09/1894). Aqui, a espetacularização é a transformação de determinada manifestação humana em espetáculo, nem sempre correto e com boa intenção, mas, em geral, de modo excessivo e perdulário.

Ainda por viés crítico, de maneira geral, as coberturas sensacionalistas estariam caracterizadas pela intensa exploração desmedida de casos violentos, sexo, bizarrices, escândalos privados, eventos extraordinários, histórias de interesse e impacto humano. O sensacionalismo ainda guarda em si a ideia de mercado, onde ele seria uma poderosa ferramenta da empresa para atrair amplas audiências e garantir significativos lucros às organizações. Em razão dessa condição econômica, o sensacionalismo transformaria a notícia num atrativo produto concorrencial na prateleira e que objetiva ser consumido e finalizado ali, in natura, sem maiores desdobramentos e preocupações. Este aspecto de notícia como mercadoria, independente do tratamento sensacionalista, pode indicar uma forte oposição a pressupostos éticos socialmente pactuados no jornalismo.

No âmbito das narrativas em geral, mas especialmente as jornalísticas, a invocação das sensações faz parte das estratégias de identificação com o sujeito leitor, telespectador, ouvinte. Nesse sentido, a sublevação das emoções humanas é o que garante, por exemplo, que as narrativas realmente falem ao sujeito. Não se trata, portanto, de uma história burocrática, fria e distante: as sensações humanas são despertadas à medida que o que fala a uma pessoa encontra seu referente em outra. Em que pese não ser possível que o ser humano e profissional jornalista esteja sempre preparado para os percalços da vida cotidiana, é importante ter um elemento balizador da práxis de forma clara: o respeito ao ser humano e à sua história.

Segundo Bill Kovach e Tom Rosenstiel, “a principal finalidade do jornalismo é fornecer aos cidadãos as informações de que necessitam para serem livres e se autogovernar” (𝗢𝘀 𝗲𝗹𝗲𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼𝘀 𝗱𝗼 𝗷𝗼𝗿𝗻𝗮𝗹𝗶𝘀𝗺𝗼: 𝗼 𝗾𝘂𝗲 𝗼𝘀 𝗷𝗼𝗿𝗻𝗮𝗹𝗶𝘀𝘁𝗮𝘀 𝗱𝗲𝘃𝗲𝗺 𝘀𝗮𝗯𝗲𝗿 𝗲 𝗼 𝗽𝘂́𝗯𝗹𝗶𝗰𝗼 𝗲𝘅𝗶𝗴𝗶𝗿, 2003). O espírito desta consideração decorre do preceito da busca da verdade em contraposição à propaganda de instituições ou de personalidades. Para Fraser Bond (1891-1965), os deveres do jornalismo estão calcados nas noções de independência, imparcialidade, exatidão, honestidade, decência e responsabilidade. Estes, igualmente, são legados caros do pensamento moderno que colaboraram para a legitimação da atuação da imprensa (𝗜𝗻𝘁𝗿𝗼𝗱𝘂𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗮𝗼 𝗝𝗼𝗿𝗻𝗮𝗹𝗶𝘀𝗺𝗼, 1959).

O jornalismo é quase sempre visto como um representante fiel da realidade. Embora muitos estudos sobre ele apontem a impossibilidade de se retratar fielmente a realidade em uma folha de jornal – e outros pontos de vista sobre o assunto estejam cada vez mais presentes em pesquisas, artigos e cursos sobre jornalismo – muitos jornalistas, redações, eventos e manuais da área ainda acreditam e pregam que o jornalismo precisa assumir esse papel; precisa assumir esse quase “dom” de dar a ver a realidade. Minha proposta é que as discussões sobre o assunto seriam mais potentes se não se pautassem nas dualidades e nas oposições entre verdadeiro-falso e realidade-ficção, mas tentassem dar a ver qual é a potencialidade da ficção para o jornalismo.

Pensar o jornalismo sob o viés da ficção parece ser uma possibilidade interessante, mas para isso não podemos nos basear em um sentido senso comum atribuído a este conceito, na ideia de que a ficção é um processo de invenção, criação de mentiras, em contraposição ao modelo de verdade que rege o jornalismo. A potência da ficção passaria por abrir espaços possíveis para a construção e proliferação de novos mundos, novas formas de subjetividade e permitir romper com as totalizações da realidade pelas formas de representação.

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Marcos Fabrício Lopes da Silva é Membro da Academia Cruzeirense de Letras – ACL (Cruzeiro-DF). Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE/UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Jornalista, diplomado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), e autor do livro 𝗠𝗮𝗰𝗵𝗮𝗱𝗼 𝗱𝗲 𝗔𝘀𝘀𝗶𝘀, 𝗰𝗿𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗼 𝗱𝗮 𝗶𝗺𝗽𝗿𝗲𝗻𝘀𝗮 (Outubro Edições, 2023). Participante do Coletivo AVÁ e apresentador do Sarau Marcante.