Quinta-feira, 21 de maio de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1388

Bullying, imigração e silêncio midiático nas escolas portuguesas: o que a imprensa não vê — ou escolhe não ver

(Foto: Katerina Holmes/Pexels)

Há violências que não alcançam o estatuto de problema público. Não porque sejam raras, mas porque permanecem fora dos circuitos de visibilidade que definem o que merece atenção jornalística. Em Portugal, episódios de bullying, agressão e discriminação contra crianças brasileiras têm emergido de modo recorrente, mas quase sempre de forma fragmentada, tardia e reativa. Não se trata de ausência de casos, mas de ausência de continuidade.

Em novembro de 2025, um menino brasileiro de 9 anos teve dois dedos parcialmente amputados numa escola em Cinfães. A mãe, Nívia Estevam, contestou a versão inicial de “acidente” e afirmou publicamente que o filho já vinha sofrendo bullying, levando a denúncia às redes sociais. Já em 2022, uma menina brasileira de 11 anos foi agredida por colegas numa escola do Entroncamento, num caso que só ganhou visibilidade após a circulação de imagens. Em ambos os episódios, há um elemento comum: a violência já existia antes de se tornar notícia.

Esse detalhe é fundamental. Ele revela que o problema não é episódico, mas processual. O que chega ao conhecimento público é apenas o momento de ruptura — o ponto em que a violência deixa de ser suportável e passa a ser exposta. Antes disso, há silêncio. E esse silêncio não é vazio: ele é estruturado.

O ponto central é que, nesses casos, a visibilidade não partiu de uma vigilância jornalística contínua, mas da exposição promovida pelas próprias famílias. O problema não entra na agenda porque a imprensa o procura; ele entra, quando entra, porque alguém o empurra para fora do silêncio. Isso desloca profundamente o papel do jornalismo: de instância investigativa para instância reativa.

Como argumenta Couldry (2010), a mídia organiza quem tem direito à voz no espaço público. Quando mães precisam recorrer às redes sociais para denunciar violências sofridas por seus filhos, evidencia-se uma desigualdade de escuta. Nem todas as experiências conseguem transformar-se em questão pública, e essa transformação depende, cada vez mais, da capacidade de produzir circulação.

Mas essa circulação não é neutra. Ela depende de fatores como impacto visual, potencial de indignação e possibilidade de viralização. Isso significa que a visibilidade não está diretamente relacionada à gravidade da violência, mas à sua capacidade de ser percebida como conteúdo. Há violências que não se tornam imagens, e, por isso, permanecem invisíveis.

Essa desigualdade se agrava quando se observa o perfil das vítimas. Crianças brasileiras carregam marcas de nacionalidade, sotaque e, muitas vezes, racialização. Ahmed (2007) mostra como certos corpos são percebidos como “fora do lugar”, produzindo exclusão mesmo quando formalmente integrados. No ambiente escolar, isso se traduz em práticas que vão desde o isolamento até agressões diretas, passando por insultos e estigmatização cotidiana.

Nesse contexto, o bullying não pode ser reduzido a conflito entre pares. Ele funciona como expressão de um preconceito mais amplo, que atravessa a condição imigrante brasileira em Portugal. Trata-se de uma forma de violência que não se limita ao espaço escolar, mas dialoga com representações sociais mais amplas sobre quem pertence, quem incomoda e quem pode ser alvo.

Dados recentes reforçam esse quadro: mais de metade dos alunos com origem imigrante em Portugal afirmam já ter sofrido discriminação no contexto escolar, sendo esse percentual ainda mais elevado entre estudantes de primeira geração. Estudo conduzido no âmbito do Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais da Universidade NOVA de Lisboa (CICS.NOVA) aponta que 55,7% dos alunos com origem imigrante relatam experiências de discriminação, número que ultrapassa 70% entre os nascidos fora do país. Ainda assim, esses episódios raramente são tratados como problema contínuo na imprensa, permanecendo circunscritos a coberturas pontuais e descontínuas.

Segundo Tuchman (1978), a notícia é uma construção social da realidade. Isso implica reconhecer que aquilo que não aparece também está sendo produzido — como irrelevante, secundário ou descartável. Quando a violência contra crianças brasileiras não se sustenta como pauta, o que está em jogo não é apenas uma falha de cobertura, mas um processo ativo de hierarquização.

Essa hierarquização se torna ainda mais evidente quando pensamos com Butler (2004). Nem todas as vidas são igualmente reconhecidas como dignas de proteção e comoção. Algumas são imediatamente percebidas como vulneráveis; outras precisam, antes, provar sua vulnerabilidade. No caso das crianças brasileiras, o sofrimento frequentemente precisa ser amplificado — por vídeos, relatos emocionais ou denúncias públicas — para adquirir legitimidade.

Há, portanto, um descompasso entre a existência da violência e seu reconhecimento. E esse descompasso não é casual. Ele se insere em um contexto mais amplo de precarização simbólica das populações migrantes. Como aponta Sassen (2014), esses grupos ocupam posições ambíguas: estão presentes, mas não plenamente integrados; são visíveis, mas não plenamente reconhecidos.

Essa ambivalência atravessa também a imprensa. As histórias aparecem, mas não permanecem. Os casos chocam, mas não se consolidam como problema. A indignação surge, mas não se transforma em investigação contínua. O resultado é uma espécie de visibilidade intermitente, que impede a construção de um debate consistente.

Nesse cenário, o recurso às redes sociais por parte das famílias não deve ser visto apenas como estratégia, mas como necessidade. É uma tentativa de romper um bloqueio estrutural de visibilidade. No entanto, essa estratégia também impõe um custo: o sofrimento precisa ser exposto, dramatizado e compartilhado para ser reconhecido.

Isso levanta uma questão fundamental sobre o papel do jornalismo. Se a imprensa depende da viralização para agir, ela deixa de antecipar problemas e passa a reagir a crises. E, ao fazer isso, corre o risco de reduzir questões estruturais a episódios isolados.

A pergunta que fica não é apenas o que a imprensa não vê, mas o que ela só aceita ver quando já não é mais possível ignorar. Nesse intervalo entre a violência cotidiana e sua explosão pública, o silêncio opera.

E silêncio, nesse contexto, não é ausência. É uma forma de presença que organiza o que pode ser dito, o que pode ser ignorado e quem pode ser esquecido.

Talvez seja esse o ponto mais difícil de admitir: a violência contra crianças brasileiras em escolas portuguesas não está fora da realidade mediática. Ela está dentro — mas nas margens.

E é justamente nas margens que a violência se torna mais fácil de suportar, mais difícil de nomear e, sobretudo, mais provável de continuar.

Referências

Ahmed, S. (2007). A phenomenology of whiteness. Feminist Theory, 8(2), 149–168.

Almeida, S. (Coord.). (2026). Discriminação e experiências escolares de alunos com origem imigrante em Portugal. CICS.NOVA – Universidade NOVA de Lisboa.

Butler, J. (2004). Precarious life: The powers of mourning and violence. Verso.

Couldry, N. (2010). Why voice matters: Culture and politics after neoliberalism. SAGE.

Sassen, S. (2014). Expulsions: Brutality and complexity in the global economy. Harvard University Press.

Tuchman, G. (1978). Making news: A study in the construction of reality. Free Press.

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Cleyton Douglas de Apolonio Vital é investigador em Ciências da Comunicação, lotado no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa. Desenvolve pesquisas sobre as relações entre mídia, violência e juventude, com foco nas representações produzidas pelo jornalismo policial e seus efeitos na construção social do crime, do medo e do desvio.