Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

China dificulta renovação de vistos para correspondentes estrangeiros

O governo chinês parece ter interrompido o processo de renovação de vistos de pelo menos duas dúzias de jornalistas que trabalham para o New York Times e a Bloomberg News – os dois veículos já publicaram reportagens sobre a fortuna acumulada pelas famílias de líderes do país, incluíndo matérias sobre o presidente Xi Jinping e o ex-premiê Wen Jiabao. Se não tiverem os vistos de trabalho renovados até o fim deste mês, os profissionais devem ser obrigados a deixar a China.

O país é conhecido pela censura de imprensa e de opinião, mas normalmente as táticas utilizadas para dificultar a vida de jornalistas são menos agressivas. Os sites do Times e da Bloomberg estão bloqueados desde o ano passado e repórteres costumam receber recados de oficiais do governo pedindo que sejam “mais objetivos”. Em novembro, Times e Bloomberg se envolveram em uma controvérsia: o jornalão reportou que a agência de notícias financeiras havia desistido de publicar uma matéria sobre a ligação de líderes chineses com grandes empresas.

Segundo o artigo do Times, funcionários da Bloomberg relataram que o editor-chefe, Matthew Winkler, teria comparado a situação da imprensa estrangeira na China à da Alemanha nazista, defendendo que os jornalistas tinham que aceitar a autocensura para não ser expulsos do país. A comparação – que Winkler nega ter feito – enfureceu os chineses. O editor também nega que a reportagem tenha sido cancelada; foi apenas adiada, segundo ele. Algumas semanas depois da matéria do Times, os escritórios da Bloomberg em Pequim e Xangai receberam visitas surpresa de funcionários do governo, supostamente para uma “inspeção de segurança”. O próprio Times publicou, recentemente, uma matéria de primeira página sobre os negócios da filha de Wen Jiabao – também foi sobre a família de Jiabao a reportagem investigativa do ano passado que acabou provocando o bloqueio do site do jornal.

Processo anual

Todos os anos, os correspondentes estrangeiros que atuam na China têm que renovar seus vistos de trabalho. O processo, que durava cerca de oito dias úteis, consistia em obter as credenciais de imprensa renovadas pelo Ministério das Relações Exteriores e entregar o passaporte para o Gabinete de Segurança Pública para receber o novo visto. Este ano, o processo ficou mais longo: o Gabinete de Segurança Pública passou a exigir 15 dias úteis para conceder o visto, o que elevou o tempo total para 18 dias úteis. Outra mudança, que ainda não virou completamente obrigatória este ano, mas valerá para o próximo, é a exigência de que o processo de renovação tenha início 30 dias antes da expiração do visto. Ou seja, os jornalistas estrangeiros poderão ficar semanas sem seus passaportes – além de não poder viajar pela China a trabalho, correrão o risco de não conseguir voltar para os seus países de origem para as festas de fim de ano.

Alguns dos jornalistas do Times ameaçados de expulsão já haviam entregado seus passaportes e recebido recibos do pedido, mas, depois da publicação da matéria sobre a filha de Wen Jiabao, foram informados de que deveriam pegar de volta o documento – sem o visto renovado – e entrar em contato com o Ministério das Relações Exteriores.

Casos recorrentes

Outros jornalistas do diário sofrem com a situação: Philip Pan, chefe da sucursal do Times na China, espera por um visto há 18 meses; o correspondente Chris Buckley aguarda em Hong Kong pelo seu há pelo menos um ano. Nos últimos anos, correspondentes estrangeiros de outros veículos também enfrentaram dificuldades para conseguir vistos, alguns recebendo aprovação apenas no dia anterior à expiração do visto antigo.

No ano passado, a jornalista americana Melissa Chan, da rede de TV al-Jazeera, foi expulsa do país. Pouco tempo atrás, o também americano Paul Mooney, que tentava voltar para a China pela agência de notícias Reuters, teve o visto negado. Mooney tem um longo histórico de reportagens sobre os direitos humanos no país.

No início de dezembro, em visita à China, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, encontrou-se com correspondentes que trabalham em Pequim e criticou publicamente o tratamento concedido a eles pelo governo chinês.

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