Terça-feira, 27 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1411

Novas tecnologias, velhas preocupações

O centro de pesquisas americano Pew Research Center divulgou, na semana passada, a 11ª edição do relatório anual The State of the News Media, voltado à análise do panorama do jornalismo nos EUA. A edição deste ano trouxe avaliações sobre a receita gerada no ramo jornalístico, sobre o crescimento da comunicação digital, o papel de aquisições e compartilhamento de conteúdo jornalístico local e o desenvolvimento da produção e publicação de vídeos digitais. A pesquisa tem, ainda, dados sobre audiência, economia e tendências de investimentos e aquisições em setores-chave da indústria midiática.

TV a cabo em baixa, TV aberta em alta

O Pew estima que o setor jornalístico gere cerca de 63 a 65 bilhões de dólares anualmente. Apesar de a publicidade continuar sendo a espinha dorsal do negócio, representando dois terços da receita total, o nicho que mais cresceu no último ano foi aquele cuja receita é gerada pelo público – inclui-se aí assinaturas (digitais ou impressas), serviços premium (como o oferececido pelo site Politico Pro, que dá acesso a conteúdo personalizado e exclusivo), assinaturas de TV (a cabo e via satélite), além de contribuições voluntárias para agências de notícias sem fins lucrativos. Não foi especificado, no entanto, se este crescimento se deu em função de novos assinantes ou ao aumento dos custos já cobrados de assinantes antigos.

É provável que seja o segundo caso, considerando que o setor de TV a cabo apresentou perdas em termos de audiência. Em 2013, os três grandes canais de notícias da TV a cabo americana – CNN, Fox e MSNBC – perderam, em conjunto, cerca de 11% de sua audiência durante o horário nobre, chegando ao menor índice desde 2007.

Já os telejornais locais saíram ganhando. Após anos em declínio, sua audiência aumentou nos horários importantes do dia. Os jornais matutinos tiveram o maior crescimento de público: 6,3%. Já os noturnos tiveram crescimento de 3,3%.

Impressos

As assinaturas de jornais diários compõem quase 70% da receita gerada pelo público. Em 2013, o faturamento foi de 10,4 bilhões de dólares.

A receita ligada à circulação de jornais diários cresceu 5% em relação ao ano anterior, impulsionada, em grande parte, pelos novos planos de acesso pago e também pela mudança nas regras da AAM (Alliance for Audited Media), organização sem fins lucrativos que faz a ponte entre empresas de mídia e agências de publicidade. Antes, para se afiliar à AAM, era necessário que 70% da tiragem de um jornal impresso nos EUA ou Canadá fosse paga. A regra foi extinta no ano passado, depois que a AAM reconheceu a importância dos meios digitais no jornalismo. Com isso, mais empresas entraram nas estatísticas da organização.

A venda de revistas em banca caiu 2%.

Contratações e demissões

A redações digitais estão se expandindo rapidamente; os modelos de negócios sustentáveis, no entanto, ??ainda são relativamente imperceptíveis se avaliados no contexto geral.

Para obter uma visão mais ampla das empresas de notícias exclusivamente digitais, o Pew entrevistou 468 companhias, 30 delas classificadas como “grandes empresas”, como Huffington Post, Gawker, BuzzFeed e ProPublica. Juntas, estas 468 empresas geraram quase cinco mil novos postos de trabalho em 2013 (este número incluiu 1.100 efetivos do site de notícias Vice, sendo que nem todos foram contratados para o Departamento Editorial).

Porém, tais contratações não compensam as demissões, principalmente no meio impresso. De acordo com a Associação Americana de Editores de Jornais (ASNE), 16.200 profissionais que trabalhavam em redações em período integral foram dispensados entre 2003 e 2012. E, segundo a agência de análise de dados, marketing e mídia Ad Age, o número de postos de trabalho em revistas diminuiu 26% na última década. (O Pew também aponta que as perdas relacionadas à rede online de jornalismo local Patch alteraram negativamente a proporção dos dados de empregabilidade das empresas jornalísticas exclusivamente digitais).

Muitas startups focadas em conteúdo exclusivamente online contrataram jornalistas experientes provenientes de grandes publicações impressas, como o New York Times e o Washington Post, e estão expandindo seus escritórios pelo mundo (embora não tantos quanto foram fechados pelos jornais impressos).

Consumo digital

A maioria dos americanos prefere ler notícias através de plataformas digitais: 82% relataram fazer uso de desktop ou laptop, enquanto 54% optam por celulares e tablets. Metade dos usuários de mídias sociais compartilha ou repassa as notícias lidas; e 46% interagem através de comentários.

Redes Sociais

A distribuição de notícias através de redes sociais continua a apresentar um quadro misto.

Os usuários do Facebook estão mais propensos a esbarrar nas notícias durante a navegação, em vez de procurá-las diretamente. Além disso, a plataforma alcança 64% da população adulta dos EUA. No entanto, apenas 30% preferem se informar via Facebook. O aproveitamento se revela menor ainda se for considerado que o usuário gasta, em média, apenas um minuto e meio por mês em um site de notícias visitado a partir do Facebook (cerca de um terço do tempo que o visitante gasta visitando o site diretamente).

Os números caem drasticamente em relação a outras mídias sociais: 51% dos adultos utilizam o site de vídeos YouTube, mas apenas 10% com o intuito de se informar. E 16% dos pesquisados usam o Twitter, porém apenas 8% fazem do microblog uma fonte de notícias.

Vídeos online

O público também tem passado mais tempo assistindo a vídeos na internet: 63% dos adultos americanos consomem vídeos online e, destes, 36% assistem a noticiários em vídeo. Os espectadores mais jovens são os maiores consumidores deste formato. Nove entre dez indivíduos entre 18 e 29 anos assistem a vídeos pela internet, e 48% destes declararam assistir a notícias (uma representação de 30% e 49%, respectivamente, da faixa demográfica, número muito superior em relação às outras faixas pesquisadas).

Digitais vs Impressos

Em abril, maio e junho de 2013, o Huffington Post teve em média 45 milhões de visitantes únicos mensais, ficando atrás apenas do Yahoo News como o site de notícias mais visitado do país. O BuzzFeed teve média de 17 milhões de visitantes únicos mensais, quase páreo aos 19 milhões de visitantes únicos mensais do Washington Post.

No entanto, o relatório também joga um balde de água fria na empolgação em torno da mídia digital: o capital que tem fluído nestes novos negócios – seja através de capital de risco, filantropia ou investimento pessoal – representa apenas 1% do financiamento global em jornalismo. O Pew estima que empresas de notícias integralmente digitais (ou seja, não conectadas a veículos tradicionais de origem impressa) movimentem entre 500 e 700 milhões de dólares anualmente – todavia, isto representa mais ou menos 1% de toda a publicidade relacionada ao setor jornalístico.

Dessa forma, ao mesmo tempo em que o consumo de notícias em novas plataformas está crescendo, ele ainda ocupa um espaço muito pequeno na indústria jornalística global.

Segundo Amy Mitchell, diretora de pesquisa em jornalismo do Pew, ainda há muita incerteza em relação ao modelo de negócios voltado para a notícia. As agências de notícias sem fins lucrativos ainda necessitam encontrar fontes externas de financiamento; a maioria das agências continua fortemente dependente de publicidade; e sites de notícias digitais ainda estão desenvolvendo novas fontes de receita.