Sábado, 17 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1410

Editorial polêmico é apagado e volta ao ar após críticas

O site da al-Jazira em inglês publicou, recentemente, um longo editorial (acesse em pdf) escrito pelo professor da Universidade de Columbia Joseph Massad, especialista no Oriente Médio, com o título “O último dos semitas”. Polêmico, Massad destacava no texto o objetivo compartilhado entre os primeiros movimentos sionistas e os intolerantes antijudeus da Europa (que era a retirada dos judeus do continente); detalhava a amplitude da cooperação entre nazistas alemães e sionistas para facilitar a partida de judeus da Europa; e salientava os desacordos entre os judeus por conta da prudência e da imparcialidade do sionismo (um grande número de judeus europeus insistiam que não queriam nem deveriam deixar suas casas para uma terra distante que não era a deles).

Como era esperado, o editorial rendeu inúmeros comentários, em sua maioria contrários aos argumentos de Massad. Qualquer um que se aventure a escrever sobre Israel e Palestina sabe que nada gera mais ataques do que opinar sobre algum dos lados do tema. Críticos do editorial não fizeram nada errado, pois é perfeitamente apropriado criticar duramente argumentos controversos publicados em um grande veículo de comunicação. Provocar um debate é o que o jornalismo opinativo geralmente faz e deve fazer.

O inesperado foi a atitude da al-Jazira de ordenar que fosse apagado, seis dias depois, o editorial de Massad, sem emitir qualquer explicação. O professor confirmou que seu editor na al-Jazira, que havia pedido que ele escrevesse também um editorial para o dia de “nakba” (“catástrofe”, em árabe, que designa o exílio forçado de palestinos em 1948), não sabia do acontecido e fez diversos telefonemas para confirmar que o texto havia sido apagado.

Somente após críticas à falta de explicações, a al-Jazira postou uma nota do editor de Imad Musa, chefe das operações online da al-Jazira em inglês. “A al-Jazira sempre pediu transparência de outros centros de poder no mundo e pedimos isso para nós também. Deveríamos ter lidado melhor com isso e aprendemos lições que nos permitirão manter os altos padrões da integridade jornalística”, escreveu. “Nosso princípio sempre foi ‘a opinião e a outra opinião’. Nossas páginas sempre foram e serão sempre abertas aos intelectuais mais provocadores de todo o mundo”. A nota, no entanto, não explica a razão de o artigo ter sido removido. Depois disso, o editorial apagado de Massad foi colocado novamente no ar.

Credibilidade afetada

Na opinião de Glenn Greenwald, colunista do jornal britânico The Guardian, que tentou obter explicações do ocorrido com a al-Jazira, nenhum veículo pode fazer isso e esperar ter credibilidade. “Recusar-se a comentar ações secretas dessa importância é o que fazem políticos corruptos, não jornalistas”, afirmou.

Ocasionalmente, veículos retratam-se de matérias ou até mesmo de editoriais, mas oferecem uma explicação ao público. Embora Greenwald discorde dos argumentos de Massad, ele não concorda com a decisão de apagar o texto. Na era da internet, tudo o que é publicado é – ou deveria ser – permanente. Além disso, apagar um conteúdo é algo contrário ao ethos jornalístico. O mais apropriado seria não ter publicado o artigo; uma vez que isso foi feito, o editorial não deve ser removido somente porque gerou polêmica ou ofendeu alguém.

Para Greenwald, ofender pessoas é uma parte necessária do jornalismo e o fato de algo causar ofensa não o invalida. Ter veículos com medo de publicar opiniões que possam ofender pessoas não é algo desejável. Massad é um intelectual provocador e polêmico. Tanto ele quanto os editores da al-Jazira que publicaram o artigo opinativo sabiam, sem dúvida, que muitos achariam o texto ofensivo e enfurecedor. Não há nada de errado nisso: isso é o que bom jornalismo faz.

Apagar o artigo opinativo não faz com que o debate desapareça. Massad não inventou os argumentos que apresentou. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, fez afirmações semelhantes recentemente. O professor de história Daniel Myers escreveu sua dissertação sobre o tema em uma universidade russa. Quem discorda dos argumentos deveria debatê-los, não suprimi-los.

O colunista do Guardian procurou funcionários da al-Jazira para comentar o assunto, e vários deles – que não quiseram se identificar – afirmaram que ficaram muito mais cautelosos desde que a rede comprou a Current TV, em dezembro do ano passado, e está se preparando para entrar no mercado televisivo americano sob o nome de “al-Jazira America”. O primeiro ímpeto de apagar o editorial teria vindo de Ehab al-Shihabi, que recentemente foi indicado para chefiar o braço americano. As fontes afirmaram que al-Shihabi tem medo de que, ao desagradar facções “pró-Israel” nos EUA, possa reforçar a percepção da al-Jazira como antiamericana e anti-Israel e, consequentemente, prejudicar a relação com anunciantes e operadoras de TV a cabo. Al-Shihabi teria ido ao diretor-geral da rede, Ahmed bin Jassim al-Thani, em Doha, e pedido a retirada do artigo.

Mudança no foco

Há uma década, a al-Jazira em árabe foi condenada pelo governo americano por exibir vídeos de Osama bin Laden e outros materiais considerados propaganda terrorista. Outros criticaram os canais em árabe e em inglês por serem “porta-vozes” do Catar, embora representantes da rede afirmarem que isso não é verdadeiro. O canal tentou e fracassou por anos conseguir que operadoras de canais a cabo exibissem a al-Jazira em inglês – concorrente da BBC e da CNN Internacional – nos EUA. A compra da Current TV deu à emissora um novo modo de entrar no país e muitos esperam que a al-Jazira America dê aos americanos mais acesso a uma perspectiva mundial.

As tensões vistas nesse episódio refletem um conflito interno mais amplo sobre como a al-Jazira planeja se posicionar, na medida em que entra no mercado americano. Muitos acreditam que ela só terá sucesso se oferecer algo que nenhuma outra TV dos EUA oferece: jornalismo plural, sem restrições e livre das ortodoxias dos dois partidos políticos dominantes.

No entanto, executivos da al-Jazira adotaram a visão de que devem replicar o modelo falido da CNN de aversão a riscos, sem pontos de vista, sem emoção. O primeiro âncora anunciado do horário nobre é Ali Velshi, ex-CNN e nada polêmico. Além disso, estão sendo sondados ex-executivos da CNN e da NBC para administrar a rede. Apagar o editorial de Massad está em sintonia com essa mentalidade neutra.

A al-Jazira America tem planos de cobrir mais questões domésticas do que internacionais. Essa mudança de foco explica o atraso no lançamento da rede, de julho para agosto. Alguns funcionários acreditam que pode haver um novo atraso. A emissora deve contratar mais empregados americanos do que inicialmente esperado. Al-Shihabi não detalhou razões específicas da mudança, mas disse que a al-Jazira America será “um canal de notícias americano com notícias de interesse e importância para a audiência americana”.

A questão é se a emissora apresentará um jornalismo de qualidade na medida em que busca estabelecer uma presença séria nos EUA. O regime do Catar – cujo emir é proprietário da al-Jazira – é um forte aliado do país, mas passou a sofrer críticas do governo americano pelo apoio ao Hamas e à Irmandade Muçulmana.