Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Emissora aposta em programas alienados

Já que não há liberdade de expressão, é melhor não insistir em exercê-la. Esta é mais ou menos a postura da emissora privada CTC diante do rigoroso controle exercido pelo regime do presidente Vladimir Putin sobre os meios de comunicação na Rússia. Fundada pelo americano Peter Gerwe, ela ocupa o quarto lugar na audiência nacional – melhor colocação entre as emissoras independentes do governo.

Para não ter problemas com as autoridades, que já demonstraram claramente que não toleram críticas, a rede resolveu simplesmente abolir o jornalismo de sua programação. Seriados, novelas e programas de celebridades preenchem sua grade, para deleite do público mais jovem, cansado do conteúdo educativo e informativo das emissoras estatais. A CTC entrou no ar há cinco anos com Alf e Melrose, e hoje tem produções próprias que chega a vender para o exterior.

Como mostra Guy Chazan, do Wall Street Journal [21/10/04], Gerwe chegou à Rússia nos anos 80 e ganhou muito dinheiro vendendo produções hollywoodianas de segunda categoria para a distribuidora de filmes oficial soviética. Com o fim da URSS, abriu uma rádio e finalmente conseguiu abrir a CTC. Hoje ele tem grupos estrangeiros e nacionais como sócios, e fatura alto com a expansão do mercado publicitário de TV russo, que se calcula ter dado um salto de US$ 100 milhões para o atual US$ 1,6 bilhão, em apenas seis anos. Enquanto as outras redes russas de televisão são donas de todas as suas estações, a CTC é estruturada no estilo americano, com cerca de 300 retransmissoras de terceiros.

Quem comanda a programação da emissora é Alexander Rodnyansky, renomado produtor cinematográfico que parece estar totalmente de acordo com o conteúdo ‘alienado’. ‘As pessoas estão cansadas após 15 anos de constantes batalhas políticas’, comenta. ‘Estamos vendo o começo de uma sociedade burguesa, de uma classe média que se preocupa mais com sua carreira e família, e com como gastar seu dinheiro’.

Para ele, a CTC representa uma alternativa para o público que não quer ver notícias. Quando aconteceu a invasão de terroristas no colégio de Beslan e seu desfecho trágico fez a Rússia ficar de luto, a emissora não tocou no assunto. Tudo que fez foi suspender temporariamente os programas humorísticos. Gerwe admite que um dia talvez queira investir em jornalismo, mas diz que só quer fazê-lo quando puder ser imparcial. ‘No clima atual, isso é impossível’.