Thursday, 11 de August de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1200

Jornalista ameaçado de prisão em caso envolvendo presidente

O jornalista sul-coreano Choo Chin-woo pode vir a ser preso sob acusação de violar leis eleitorais por divulgar, antes das eleições presidencias realizadas em dezembro do ano passado, uma suspeita não confirmada de que o irmão da então candidata e atual presidente, Park Geun-hye, estava envolvido no assassinato de um parente. Promotores alegam que o repórter escreveu artigos e divulgou um podcast que “difamaram” e “espalharam informações falsas” com o “objetivo de impedir a eleição” de Park Geun-hye. Ela venceu as eleições por uma margem pequena e assumiu o cargo em fevereiro.

O governo anterior também já havia aberto queixas criminais contra produtores de TV e blogueiros sob acusação de difamar personalidades políticas e disseminar informações falsas – uma prática que grupos internacionais de direitos humanos denunciaram por provocar um efeito de autocensura entre críticos do governo. “Meu crime foi levantar questões que não agradaram àqueles no poder”, disse Choo Chin-woo, que trabalha para o semanarário SisaIN. “Eles me odeiam como a uma barata e querem acabar comigo”.

O jornalista de 39 anos ganhou fama nacional como apresentador de um podcast político satírico, o “Naneun Ggomsuda” (algo como “Eu sou muito mesquinho”). O nome refere-se a um apelido irônico do ex-presidente, Lee Myun-bak. O programa, que teve início em 2011, levantava questões de mal feitos contra líderes políticos, econômicos e religiosos do país. “Naneun Ggomsuda” tornou-se um dos podcasts políticos mais baixados na loja virtual da Apple, e era seguido avidamente por sul-coreanos que perderam a confiança na mídia de massa. O programa foi suspenso depois das eleições de dezembro e promotores acusaram outro apresentador, Kim Ou-joon, de sair do país para evitar uma investigação sob acusações semelhantes às de Choo.

Em seus artigos anteriores às eleições, Choo analisou um caso pouco conhecido de 2011 no qual o filho de um primo de Park Geun-hye foi encontrado morto em um parque em Seul, capital do país. Outro primo dela foi encontrado enforcado em uma árvore. A polícia concluiu que esse último matou o primeiro e se suicidou.

Em suas matérias, Choo citava uma disputa legal entre o irmão da presidente, Park Ji-man, e seu cunhado em torno de acusações de que ele teria planejado matá-lo. Choo questiona as investigações policiais e cita a suspeita levantada pelo cunhado e seu advogado de que o assassinato poderia ter algo a ver com um plano de impedir a vítima de testemunhar. Eles também levantaram a possibilidade de que o homem que a polícia diz ter se enforcado tenha sido assassinado.

Em defesa da liberdade de expressão

Park Geun-hye processou Choo em dezembro, sob acusação de espalhar rumores falsos para influenciar as eleições presidenciais. Isso levou à investigação dos promotores. Grupos de defesa da liberdade de expressão – como a Repórteres Sem Fronteiras – expressaram preocupação sobre a falta de tolerância para dissidentes na Coreia do Sul, onde difamação é uma ofensa criminal.

Para Park Kyung-sin, professor de direito da Universidade da Coreia, abrir uma queixa criminal contra pessoas acusadas de difamar figuras públicas com falsos rumores e então tentar prendê-las antes de qualquer julgamento é algo que contraria os “padrões de direitos humanos internacionais”. Tais condenações prejudicam o papel das notícias como um monitor público, especialmente porque os réus acusados de difamação devem provar que suas alegações são verdadeiras.

Muitos conservadores da Coreia do Sul acusam os apresentadores do “Naneun Ggomsuda” de usar a sátira para transmitir declarações irresponsáveis e promover o clientelismo político. Algumas vezes, o programa deu furos, sendo um dos primeiros veículos a discutir suspeitas de que a agência de inteligência do país estava envolvida em uma campanha online secreta para tentar desacreditar os candidatos das eleições de dezembro. No mês passado, a polícia anunciou que pelo menos dois agentes de inteligência do governo estavam envolvidos em tal operação. Promotores expandiram, desde então, a investigação.