Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Jornalistas usados como ‘arma de guerra’ por separatistas pró-Rússia

A região em torno da cidade de Slaviansk – reduto dos principais confrontos em curso na Ucrânia – tem se revelado um local cada vez mais perigoso para jornalistas. Nos últimos dias, vários profissionas da imprensa foram capturados na área. A maioria dos ataques vêm de separatistas pró-Rússia e em muitos casos os jornalistas estão sendo usados como “arma de guerra”, “moeda de troca” ou mesmo como porta-vozes do movimento.

A jornalista ucraniana Irma Krat foi sequestrada na segunda-feira [21/4] em retaliação à morte de três separatistas em um tiroteio ocorrido em Slaviansk no dia anterior. Irma chegou a dar declarações públicas em vídeo a respeito das condições de seu cativeiro. Um de seus sequestradores chegou a afirmar que era escolha da jornalista permanecer refém.

Declaração semelhante foi dada a respeito do jornalista americano Simon Ostrovsky, repórter do Vice News, canal de notícias internacional com sede nos EUA. Ostrovsky foi sequestrado também na segunda-feira por um grupo liderado pelo autoproclamado “prefeito do povo” Vyacheslav Ponomaryov, e libertado naquinta-feira [24/4].

Durante uma conferência à imprensa em Slaviansk, no início da semana, Ponomaryov confirmou que Ostrovsky estava em poder do grupo, no entanto alegou que “não houve sequestro”. Segundo seu relato, o jornalista se encontrava na sede da SBU [a agência nacional de segurança ucraniana], “trabalhando e preparando reportagens”.

Ostrovsky, no entanto, apresenta outra versão. Após sua libertação, ele escreveu um relato para o Vice News, narrando a situação de seu cativeiro. Disse que foi espancado, amarrado com fita adesiva e que passou horas deitado em um chão úmido e com o rosto coberto por um capuz. Alegou também ter sido intimidado, agredido e acusado de trabalhar para a CIA, para o FBI e para o partido ultranacionalista da Ucrânia. Ostrovsky relatou ainda a presença de outro jornalista no local: Serhiy Lefter, profissional freelancer sequestrado na praça principal de Sloviansk em plena luz do dia.

Moeda de troca

Ainda que o Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ) tenha interferido e solicitado a libertação imediata de Ostrovsky, ele não sabe exatamente por que foi liberado sem maiores incidentes. “Descobri que Ponomaryov disse aos jornalistas que estávamos sendo mantidos como ‘moeda de troca’ nas negociações com as autoridades interinas em Kiev”, contou em seu depoimento. “Ainda não sei o que deram em troca de minha liberdade, mas espero que não tenha sido muito, pois ninguém deveria ter permissão para fazer reféns, independentemente de suas exigências políticas”.

Nina Ognianova, coordenadora do CPJ na Europa e Ásia Central, disse que os separatistas deviam “parar de deter, assediar e obstruir o trabalho dos jornalistas que reportam sobre a crise em curso no leste da Ucrânia”. Ela argumentou também que caso de Ponomaryov e seus aliados estarem em busca de legitimidade para seus atos políticos, o sequestro de jornalistas se mostra contraproducente.

Os sequestros de Irma e Ostrovsky não são casos isolados – e o grau de violência varia. Os jornalistas italianos Paul Gogo e Kossimo Attanasio e o jornalista bielorrusso Dmitry Galko chegaram a ser detidos, mas foram liberados posteriormente (tiveram, no entanto, seus equipamentos, documentos pessoais e dinheiro confiscados pelos rebeldes separatistas).

Já Sergei Lefter, editor da Open Dialogue Foundation, está desaparecido desde 15/4. Há também uma investigação em curso para averiguar o desaparecimento do jornalista ucraniano Yevhen Hapych, cujo último contato se deu na manhã de 22/4.