Wednesday, 06 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1195

A Sirene: vislumbres de um outro jornalismo possível

(Foto: Larissa Helena)

Sempre que pego a estrada de Mariana, onde moro, rumo a Brasília, minha cidade natal, ouço a mesma pergunta: “As coisas já se resolveram lá, né?”. Às vezes as pessoas vêem a placa do carro; outras sabem onde vivo há quase oito anos com meu marido e filha. Todas se referem ao rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco, controlada por Vale e BHP, em 2015. A catástrofe arrasou comunidades em Mariana e Barra Longa e espalhou mais de 60 milhões de metros cúbicos de rejeitos minerários na Bacia do Rio Doce.

É fácil achar que, seis anos depois da catástrofe, não há mais problemas: o rompimento de Fundão só sai no noticiário nacional em 5 de novembro ou, eventualmente, quando há alguma rara decisão judicial. A efeméride perde espaço a cada ano que passa. Mas essa é uma impressão errada, fomentada de um lado por esse baixíssimo interesse do jornalismo de referência e, de outro, pelo investimento maciço em publicidade feito pelas mineradoras e pela Fundação Renova — ente público-privado criado para, em tese, mediar a reparação.

Quem mora em Mariana ou na Região dos Inconfidentes tem acesso a uma realidade bem distinta. Em grande medida, graças ao Jornal A Sirene, que completa seis anos de uma proposta radical de jornalismo independente, popular e contra-hegemônico.

Criado a partir de uma confluência de atores sociais da cidade, professores e estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e pessoas atingidas, o veículo circula mensalmente, todo dia 5, com narrativas de memória, luta, identidade e afetos que dão um panorama muito próximo, mas também dolorido, do que as pessoas forçadas à diáspora e outros grupos sociais têm enfrentado nesses anos.

A estrutura produtiva é colaborativa e horizontal, composta por atingidas e atingidos e uma equipe técnica de jornalistas e estudantes. O texto é fortemente calcado na oralidade e no respeito à singularidade da fala de cada pessoa entrevistada. 

O projeto editorial se coloca ao lado das comunidades, o que se reflete, entre outros aspectos, na escolha de expressões que demarcam o acontecimento jornalístico. A reivindicação pela autodenominação de “atingidos” em vez de “vítimas”, por exemplo, ganhou tanta força que atualmente é empregada em documentos oficiais da reparação e na imprensa.

Nesses seis anos, mais de 20 estudantes do Jornalismo da Ufop passaram pela redação d’A Sirene, na graduação ou recém-formados. Dali, têm seguido para atuação em instituições voltadas a lutas ambientais, movimentos sociais, organizações de base. Produzem comunicação engajada, política e ética, conectada aos desafios contemporâneos da mudança climática, das crises democráticas e do jornalismo tradicional. A Sirene tem proporcionado, enfim, a experiência de uma práxis jornalística única e ajudado a formar profissionais críticos, capazes de produzir uma outra comunicação.

Apesar da importância inegável do jornal, mantê-lo tem sido tarefa árdua. Desde 2019, não há fonte de financiamento estável, o que já acarretou interrupção da circulação. Para continuar soando, A Sirene reduziu o número de páginas, enxugou a equipe, reduziu salários e tem recorrido a fontes eventuais de verbas e campanha de financiamento coletivo — esta, ainda bem incipiente.

Um dos cortes mais sentidos pelas pessoas atingidas foi a interrupção da impressão do jornal físico. Muita gente, especialmente idosos, não consegue ler o jornal em PDF, nas telas pequenas do celular ou tablet. O papel desempenha uma função social importante para o veículo.

O dia 5 de novembro de 2015 não deveria ter acontecido. Mas, porque aconteceu, há seis anos A Sirene pode se constituir como espaço de um outro jornalismo possível e ambiente de experiência e formação de jornalistas. Pode vocalizar a resistência, reenquadrar o acontecimento jornalístico e demarcar o locus testemunhal de quem, em geral, não consegue narrar suas histórias. Por isso, A Sirene precisa continuar ecoando.

Para contribuir com o jornal, acesse a campanha de financiamento coletivo: evoe.cc/jornalasirene

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Karina Gomes Barbosa é professora de Comunicação Social da Universidade Católica de Brasília