Thursday, 29 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Marcha dos mercenários do Grupo Wagner a Moscou foi uma encenação?

Quem foi o beneficiado com o motim dos mercenários? (Foto: Reprodução)

Há uma crença entre os velhos repórteres que a verdade emerge na cobertura dos grandes acontecimentos só depois que a poeira baixa. Até lá, é uma guerra de versões. Lembrei-me dessa crença em junho, logo que começaram a aparecer as primeiras notícias sobre a marcha que estava fazendo rumo a Moscou o Grupo Wagner, mercenários comandados por Yevgeny Prigozhin a serviço do presidente da Rússia, Vladimir Putin. Eles lutam na guerra contra a Ucrânia e em outros conflitos ao redor do mundo. A ideia que as matérias transmitia era de que os mercenários colocariam contra a parede as Forças Armadas da Rússia. Tem alguma coisa errada aí. Primeiro, que o Grupo Wagner soma uns 25 mil combatentes armados pelos russos. Segundo, que a Rússia não é uma república de bananas. Em 1991, quando do colapso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), o país herdou uma das maiores e mais bem equipadas forças militares do planeta, incluindo o maior arsenal de armas nucleares do mundo. E o que considero o mais importante: Putin é um ex-agente da extinta KGB, o serviço secreto da URSS. Por conta da sua origem, ele é um mestre em criar cenários fictícios para enganar a opinião pública. E assim se mantém no poder há mais de duas décadas. O seu principal adversário na atualidade é o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, ator, comediante e dono de uma técnica muito apurada de contar uma história. Prigozhin, líder do Grupo Wagner, é um oportunista que Putin transformou em grande empresário e empregador de mercenários.

Essas três personagens dominam a arte da comunicação com o público. E o tal motim do Grupo Wagner é um ato dentro de uma guerra sangrenta travada entre Rússia e Ucrânia que já dura um ano e meio e fez 300 mil vítimas entre soldados e civis. Aqui lembro o seguinte. Nos primeiros meses do curso de jornalismo somos apresentados ao livro A Primeira Vítima, escrito pelo britânico Phillip Knightley (1929 a 2016), uma leitura obrigatória para quem decide seguir a carreira de repórter. O autor prega que em uma guerra a primeira vítima é a verdade. Por que seria diferente nesta guerra? Passados um mês da marcha do Grupo Wagner a Moscou, a poeira do episódio começou a baixar e podemos ver que se trata de um episódio cheio de furos, uma história mal contada. Vejamos: o poder de Putin nunca esteve ameaçado. Mas publicamos muitas manchetes dizendo que ele corria risco de perder o cargo. É de conhecimento público que Putin anda descontente com o desempenho dos seus generais na Ucrânia. Também é público que muitos dos generais russos consideram a invasão da Ucrânia um erro estratégico do governo Putin. Prigozhin disse que o movimento foi um protesto contra o amadorismo dos generais russos que resultou na morte de muitos de seus mercenários. Estimulado pelo presidente russo, o comandante do Grupo Wagner deu o puxão de orelha público nos generais. Do lado de Zelensky, a história do motim serviu para mostrar aos seus aliados, os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em especial os Estados Unidos, que ele está usando com eficiência os recursos que recebe em armas, munições e equipamentos para enfrentar os russos. E o que restou para o dirigente do Grupo Wagner? O crédito de ter se prestado a ser uma peça de xadrez do presidente da Rússia. Importante ferramenta para permanecer no seleto grupo de 12 pessoas que se tornaram bilionárias com a ascensão de Putin ao poder, os chamados oligarcas. A decisão de vida ou morte dos oligarcas esteve, está e sempre estará nas mãos do presidente russo.

Os mercenários do Grupo Wagner devolveram as armas, munições e equipamentos para as Forças Armadas russas – matéria na internet. E ficou o dito pelo não dito. Na quarta-feira (12/07), no encerramento da cúpula da OTAN, na Lituânia, a conclusão foi de que continua o impasse quanto ao pedido da Ucrânia para fazer parte da aliança. O principal obstáculo é que o regulamento da organização impede a entrada de um país que esteja em guerra. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden (democrata), que concorre à reeleição, fez um discurso defendendo os valores americanos e criticando Putin. Falou dentro da curva, como dizem os analistas políticos. Trocando em miúdos, como repetia um editor de política que conheci na redação nos tempos das máquinas de escrever: a guerra continua. E quem disser que sabe o rumo que esse conflito vai tomar está chutando, porque há muitos fatores envolvidos. Uma situação que exige dos jornalistas muita cautela para não saírem repetindo informações plantadas pelos serviços de inteligência. Tem casca de banana à espera dos repórteres por todos os cantos. Em uma leitura recente do que temos publicado notamos que desapareceu dos noticiários a dependência do Brasil dos insumos russos para a fabricação de adubos. Mas ela continua existindo. Também desapareceu a informação de que a Ucrânia é um importante produtor de trigo e o Brasil é um grande importador desse cereal.

Para o Brasil e a maioria dos países ao redor do mundo, a guerra entre Rússia e Ucrânia não é um conflito no fim do mundo que não atinge as suas populações. Não é porque a economia é globalizada e tudo está ligado. O que aconteceu é que o sistema econômico mundial conseguiu digerir a guerra, incluindo as sanções econômicas contra a Rússia. Sempre que Putin é encurralado, ele lembra que tem armas nucleares. Nessas ocasiões, Biden diz que é blefe do presidente russo. Como ele sabe que se trata de um blefe?

Reportagem publicada originalmente no “Histórias Mal Contadas”.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.