Friday, 23 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1275

Rememorações franco-haitianas em plena crise das aposentadorias na França

(Foto: France Bleu)

Em 27 de abril de 2023, o Presidente francês Emmanuel Macron fez uma visita surpresa ao sinistro Forte de Joux, no Haut Doubs, na região francesa da Bourgogne-Franche-Comté. Ali prestou homenagem a François Dominique Toussaint Louverture, precursor da independência do Haiti que, na condição de prisioneiro de Napoleão Bonaparte, morreu de frio nessa fortaleza situada a 1.050 metros de altitude. Essa foi uma homenagem inesperada em um momento político tão conturbado e prestada a uma personalidade tão eminente quanto ausente da memória francesa.

Rememoração no mínimo inesperada em plena crise das aposentadorias na França. 

Em 5 de maio de 2021, foi esse mesmo Presidente da República quem prestou homenagem a Napoleão Bonaparte e “que”, segundo ele, “representou uma parte de nós, franceses”? Macron também lamentou, é certo, a “traição ao espírito das luzes” por parte do Primeiro Cônsul, referindo-se à decisão de Napoleão, de 1802, de restabelecer a escravatura, abolida pela Convenção de 1794. Santo Domingo, atual Haiti, foi então a sede privilegiada de exercício militar destinado a reenviar para a plantação os antigos escravizados que haviam sido libertados pela República. O fiasco da operação foi total. Em 1 de janeiro de 1804, o Haiti proclamou a sua independência. Pouco mais de um ano antes do Sol de Austerlitz, os soldados franceses, conhecidos por “grognards”, então derrotados pelo exército daqueles que haviam sido escravizados, regressaram à metrópole. 

Essa história, a da batalha final perdida em 18 de novembro de 1803 em Vertières, tal como salienta Jean-Pierre Le Glaunec, professor da Universidade de Sherbrooke, no Canadá, “não encontra lugar […] na memória francesa”. Por que, ele se pergunta, “Marcel Dorigny é o único autor a se referir a esse episódio na bibliografia dos vestibulares franceses” [1]? Esse questionamento ganha ainda mais razão de ser, se considerarmos que essa batalha e o grito do seu vencedor, o general François Capois, “foi totalmente sufocado na França […] embora seja o portador da defesa de todos os homens […] e da chance de uma reconciliação futura”. Apesar das flores depositadas em Joux pelo presidente francês, ao pé do busto do precursor, o assunto continua sem resolução. O gesto, honroso, mas circunstancial, não terá sido forçado pelas recentes e destrutivas consequências do uso, por parte do presidente, do artigo 49.3 da Constituição Francesa, com vistas à aprovação da elevação da idade de aposentadoria da população francesa?

Na verdade, esse gesto é mais um depois de muitos outros, e que também ficaram inacabados, apenas no gesto. Em 31 de março de 1987, outro presidente francês, François Mitterrand, havia feito sua peregrinação ao local de descanso final do general Toussaint Louverture. Ele também havia sido precedido, alguns anos antes, por Edgar Faure, presidente do Conselho durante a Quarta República. Um número relativamente grande de ministros e deputados também fez seu ato de contrição nesse local… que foi decorado pelo Estado haitiano. Alfred Auguste Nemours, Ministro Plenipotenciário do Haiti na França, em 1927, depositou uma bandeira de seu país na cela de Toussaint. Seguiu-se uma estela, depois um busto oferecido por ocasião do Bicentenário da Independência do Haiti. Dois chefes de estado franceses marcaram presença em Porto Príncipe. Nicolas Sarkozy, durante meras quatro horas, entre dois vôos, em 2010, havia prometido mundos e fundos depois do terremoto devastador no Haiti. Pouco ou quase nada aconteceu até a visita oficial de François Hollande, em 2015, a primeira de um Primeiro-Ministro francês desde a Independência. Infelizmente, esse encontro também foi uma oportunidade perdida. 

A lembrança da dívida imposta pela França no século XIX, que obrigou o Haiti a indenizar a antiga potência colonial, embora mencionada pelo anfitrião do Palácio do Eliseu, não passou da menção a uma “dívida moral”. A República francesa celebrou a memória do precursor da Independência haitiana em 7 de abril de 2023 no Panteão, diante de uma placa datada de 1998, poucos dias antes do gesto presidencial no Fort de Joux, mas na data certa, pois Toussaint Louverture morreu em 7 de abril de 1803.

Aqui e ali, nos quatro cantos da França e das Antilhas, há ruas, jardins e estátuas dedicadas ao precursor da liberdade haitiana. São o testemunho, por vezes feliz, de um desejo de compensar o esquecimento. Bordeaux, onde vivia a família de Toussaint Louverture, recebeu um busto da República do Haiti em 2004. Em 2015, La Rochelle inaugurou uma estátua de bronze do artista senegalês Ousmane Sow. Paris tem a sua praça Toussaint-Louverture desde 2021. Astaffort, na região de Agenais, inaugurou uma placa em 2022. Basse Terre, Bobigny, Clermont-Ferrand, Le Taillan Médoc, Les ponts de Cé, Niort, Montpellier, Nantes, Saint-Denis têm a sua rua Toussaint Louverture, e Pontarlier, a alguns quilômetros de Joux, tem um liceu de nome Toussaint Louverture. 

Esta pequena corrida à memória é a consequência da lei Taubira de 2001, que institui a necessidade de recordar o crime do tráfico atlântico de escravizados. As datas simbólicas, como a segunda abolição, em 27 de abril de 1848, a votação da lei de Taubira, em 10 de maio de 2001, e o dia 23 de maio, declarado dia de memória da escravatura e do tráfico de escravizados, estimulam as iniciativas locais. No entanto, uma relação mais sólida em busca da restituição da verdade histórica e da solidariedade deve ainda ser construída. Um inventário da situação e um caderno de encargos tinham sido redigidos, e bem redigidos, por ocasião do Bicentenário da Independência. Em 2004, Régis Debray apresentou um relatório sensato, intitulado “Haiti e França”, a Dominique de Villepin, Ministro dos Negócios Estrangeiros. Mas quem é que se lembra disso?

 

Texto publicado originalmente em francês, em 3 de maio de 2023, na seção Actualités do site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Retombée franco-haïtienne de la crise des retraites”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/112140. Tradução: Thaisa Pinheiro Carvalho e Luzmara Curcino.

Notas

1 Jean-Pierre Le Glaunec, L’armée indigène, la défaite de Napoléon en Haïti, Montréal, Lux Editeur, 2020.

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Jean-Jacques Kourliandsky é diretor do Observatório da América Latina junto ao IRIS – Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, com sede em Paris, e responsável pela cobertura e análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É formado em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Políticos de Bordeaux e Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Bordeaux III. Atua como observador internacional junto às fundações Friedrich Ebert e Jean Jaurès. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014), e colabora frequentemente com o Observatório da Imprensa, em parceria com o LABOR – Laboratório de Estudos do Discurso – UFSCar e com o LIRE – Laboratório de Estudos da Leitura.