Sexta-feira, 23 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Amazônia da COP: o perigo da cobertura jornalística episódica na COP 30 em Belém

(Foto: Rafa Neddermeyer/ Agência Brasil)

“Sonho dourado da cobiça de Orellana
É esse verde que emana”
(Boi-Bumbá Caprichoso, 2007)

No cotidiano das narrativas sobre as regiões da Amazônia brasileira, cujos sinônimos se desdobram em “eldorado”, “floresta encantada”, “biodiversidade natural”, “pulmão do mundo”, “selva” e tantos outros, a homogeneização dos assuntos relacionados a esse território, complexo, diverso em populações e culturas, já não surpreende quem cresceu ouvindo tais expressões. Embora a narrativa vinda de fora da região seja frequentemente apontada como responsável por esse movimento de interiorização simbólica, a exemplo da série “Terra, ainda temos tempo” (G1, 2025, online), que reitera esse mesmo padrão, a construção das notícias sobre a Amazônia sob padrões homogêneos também ocorre de dentro dela.

Apesar dos inúmeros contextos em que o jornalismo recorre a termos que mais reforçam imaginários colonizadores sobre a Amazônia do que problematizam as realidades das cidades amazônicas, este ensaio aponta para outro aspecto dessas narrativas: a cobertura episódica, que padroniza e fragmenta as informações noticiosas sobre a região.

Durante a 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima (COP 30), é possível que essas notícias episódicas se repitam, transformando questões estruturais em acontecimentos isolados e produzindo uma narrativa dispersa sobre o território.

A Amazônia da COP 30 se assemelha à Amazônia das secas e enchentes históricas, à Amazônia do desmatamento e do fogo, à Amazônia do garimpo ilegal, à Amazônia da crise humanitária do povo Yanomami, à Amazônia da morte dos botos. O ponto central desta crítica à cobertura midiática está no fato de a visibilidade da Amazônia ser, muitas vezes, ativada por episódios dramáticos, e não por um olhar contínuo e aprofundado.

Consideremos, agora, um grande evento global que dramatiza a crise climática e o risco iminente do ponto de não retorno do ecossistema amazônico, ocorrendo exatamente neste território. Como poderia ser diferente? É legítimo questionar se não estamos criando cenários apocalípticos, narrativas irreversíveis. No entanto, não se pode negar o risco de que o jornalismo sobre a COP 30 se torne mais uma cobertura episódica e superficial da Amazônia, em vez de estrutural, entrando para a coleção de episódios isolados que logo se dissipam no tempo e no espaço, desconectados das realidades locais que dizem representar.

Mas como fugir dessa armadilha? Conhecimento, contexto e escuta sensível talvez sejam os caminhos. Com esta breve reflexão, a fim de olhar com atenção a construção narrativa em torno da COP 30, elencamos três exercícios estratégicos para orientar a cobertura.

1. Descentralize o olhar: integrar perspectivas locais, de jornalistas e comunicadores amazônicos, pode reduzir a mediação de narrativas homogeneizadoras e permitir que a Amazônia fale por si, em sua pluralidade de vozes e territórios.

2. Vá além do episódio: adotar enquadramentos temáticos e construir pautas de continuidade, contextualizando o fato dentro de processos históricos, políticos e sociais, pode romper a noção de Amazônia como um bloco único e indistinto de floresta, destacando a diversidade cultural e urbana da região.

3. Construa narrativas alternativas: ampliar o que é considerado notícia sobre a Amazônia significa destacar histórias de criação, resistência e cotidiano, em vez de restringir a atenção aos episódios dramáticos e trágicos que costumam protagonizar os noticiários.4Consideramos, em conclusão, que refletir e adotar protocolos na produção de narrativas jornalísticas sobre a Amazônia deve ser também um dos resultados da COP na região. Veículos como InfoAmazonia, Amazônia Real, Brasil de Fato Amazônia, O Eco e demais produtores independentes já apresentam possibilidades interessantes nesse campo. A ideia é ampliar esse movimento, consolidando práticas que permitam uma cobertura mais contextualizada, diversa e atenta à pluralidade da região.

Publicado originalmente em objETHOS.

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Karine Tavares Nunes é Jornalista amazonense, doutoranda em Jornalismo no PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS