Quinta-feira, 2 de abril de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1382

Distorções, omissões e a normalização de critérios antijornalísticos

(Foto: cottonbro studio/Pexels)

O caso recente envolvendo a GloboNews, com a exibição de um infográfico que associava nomes e instituições de maneira completamente questionável ao escândalo do Banco Master e ao banqueiro Daniel Vorcaro, rapidamente ultrapassou o ambiente televisivo e passou a circular nos meios digitais como exemplo de erro jornalístico. Mais do que um deslize pontual, o episódio levanta uma série de questões, que vão da tentativa de construir um falso equilíbrio narrativo à falta de rigor na apresentação de informações e nos limites entre informar e induzir interpretações. Entre as muitas questões, quero me deter em uma: a ausência de transparência sobre os critérios que orientam a produção da notícia.

Em um ambiente informacional saturado e cada vez mais disputado, a transparência passa a ser considerada um atributo desejável do jornalismo praticado por organizações de notícias tradicionais ou independentes e uma exigência democrática. Não basta informar, é preciso tornar visíveis os critérios que orientam o que é publicado e, sobretudo, as decisões que estruturam uma narrativa. Quero deixar claro que isso não significa defender uma abertura total dos processos jornalísticos, até porque há situações em que preservar informações é necessário, como a proteção de uma fonte anônima quando ela corre algum tipo de risco. Ainda assim, a transparência deve ser encarada como um compromisso ético permanente, sempre em diálogo com outros princípios da prática jornalística.

O episódio expõe justamente o que acontece quando esses critérios não são claros. Durante o programa Estúdio i, no dia 20 de março, a GloboNews exibiu um slide em formato de infográfico que buscava ilustrar conexões entre Daniel Vorcaro, investigado no caso do Banco Master, e diferentes figuras públicas. No material, nomes como o do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apareciam em destaque ao lado de outros personagens, sugerindo proximidade dentro de uma mesma rede. A repercussão foi imediata e, ao menos na bolha que acompanho, majoritariamente negativa, visto que a montagem criava associações indevidas e distorcia o entendimento do caso ao não considerar o grau de envolvimento de cada indivíduo.

Chamou atenção, também, não apenas quem foi incluído, mas quem ficou de fora. O slide omitia personagens relevantes mencionados em investigações e reportagens, ao mesmo tempo em que destacava outros sem qualquer tipo de base proporcional quanto ao que é conhecido até o momento. Não foram citados, por exemplo, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que recebeu doações eleitorais de Vorcaro e de seu operador financeiro no Master, Fabiano Zettel, e o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro. Ainda que haja muito a se revelar do caso, como ressalta o cientista político Celso Rocha de Barros, o escândalo do Banco Master envolve principalmente políticos, empresários e grupos ligados à direita.

A combinação identificada na imagem divulgada pelo Estúdio i, e que opto aqui por não reproduzir para não contribuir com o compartilhamento de uma desinformação, que demonstra inclusões seletivas e omissões significativas, reforçou que esse não se trata apenas de um erro técnico, mas de uma construção narrativa específica, capaz de induzir interpretações equivocadas, como já destacou o ICL Notícias. Nesse sentido, a falta de transparência não está apenas na ausência de justificativa sobre como se chegou àquele arranjo, mas na própria escolha de construí-lo sem que seus fundamentos fossem explicitados.

Uma nota protocolar e a persistência do problema

Diante da repercussão, a emissora reconheceu que o material era “errado e incompleto” e pediu desculpas, admitindo que não estavam claros os critérios utilizados. Mas, novamente, a própria nota de retratação lida por Andréia Sadi, apresentadora do programa, acaba sendo menos um gesto de transparência e mais um exemplo de como evitá-la. Ao afirmar que o material “não deixou claro o critério que foi usado para a seleção das informações”, a GloboNews reconhece a falha, mas não explica o critério, e, nesse movimento, esvazia o sentido da própria correção.

Não fica claro se houve ausência de critério ou, como é mais evidente de se supor, se ele simplesmente não pode ser explicitado sem expor fragilidades mais profundas. Em vez de esclarecer, a nota desloca o problema para uma zona abstrata, onde o erro existe, mas suas causas permanecem protegidas. Esse movimento se agrava quando a emissora admite que o material misturava categorias distintas, contatos institucionais, relações pessoais e nomes sob investigação, e, ao mesmo tempo, reconhece a omissão de personagens relevantes. Ainda assim, a nota evita enfrentar essa dimensão e trata escolhas editoriais como se fossem meras lacunas acidentais. No fim, é como se o pedido de desculpas cumprisse um rito, mas ela falha ao não oferecer ao público as condições mínimas para entender o erro nem para confiar que ele não se repetirá.

Publicado originalmente em objETHOS.

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Kalianny Bezerra é Doutora em Jornalismo no PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS