Terça-feira, 8 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1404

O jogo de cena entre Regina Duarte e Gabriela Duarte na entrevista à Folha

(Foto:
Antonio Cruz/Agência Brasil)

As atrizes Regina Duarte e Gabriela Duarte se reuniram, na plateia de um teatro, para divulgar a peça em que voltam a interpretar, quase três décadas depois da novela “Por Amor”, mãe e filha.

A entrevista, reproduzida em vídeo no canal da Folha de S. Paulo e publicada em matéria de página inteira na edição impressa de 23 de agosto, deveria girar em torno da peça “A filha da…”. Não obstante, a conversa entre as atrizes e o jornalista Matheus Rocha se deslocou para a política.

Quando perguntada se sua admiração por Jair Bolsonaro se estendia ao filho, Flávio, candidato à presidência, Regina foi interrompida pela filha, que disse: “Não vai responder isso”.

Temas polêmicos, como o feminismo, o politicamente correto, as intenções de Regina em retomar a atuação na política, entre outros, provocaram reações no staff das atrizes. Em determinado momento, por exemplo, alguém da produção delas pede que a gravação seja interrompida. Regina parece mais disposta a discorrer sobre essas questões do que eles gostariam.

Nos dias seguintes à veiculação da entrevista, cortes do encontro, enfocando as passagens mais tensas, circularam nas redes sociais, e Gabriela Duarte publicou um vídeo em que acusa a imprensa de desvio do foco e sensacionalismo.

Há algo nessa sequência de acontecimentos — a entrevista, a divulgação dos cortes, a réplica pública — que convida a pensar o episódio como um jogo de cena, no sentido do filme-ensaio dirigido por Eduardo Coutinho (1933-2014).

Com efeito, nada indica que mãe e filha tenham combinado o desconforto com o entrevistador para produzir repercussão. O que chama a atenção é a maneira como, diante da câmera, uma situação de divulgação profissional ganha ares de performance.

Esse estatuto foi imortalizado no depoimento de Alessandra, no filme “Edifício Master” (2002), também de Coutinho, que se define uma “mentirosa verdadeira”. Ora, o interesse do cineasta não era pela filmagem da verdade, mas pela verdade da filmagem.

“Jogo de Cena” (2007) talvez seja o filme em que essa questão tenha sido levada às últimas consequências. Ao misturar atrizes profissionais e depoentes reais, recitando os mesmos relatos sem que o espectador consiga – ou deva – separar com segurança quem é quem, a ambiguidade se exacerba.

Dessa perspectiva, os aspectos mais reveladores da entrevista com Regina Duarte e Gabriela Duarte são o desconforto visível da filha, as intervenções do staff e a espontaneidade de Regina: o inesperado irrompe, o dispositivo mostra sua própria armação, e é justamente aí — no gesto de quem tenta impedir que algo emerja — que aspectos da verdade da filmagem se revelam.

Evidentemente, o dispositivo adotado por Eduardo Coutinho é um pacto explícito: o entrevistado sabe que está diante de um filme e aceita as regras do jogo, cujo objeto declarado é a própria fabricação da cena.

Já a entrevista com Regina Duarte e Gabriela Duarte se assenta em outros contornos, e é a política que se infiltra nas regras do jogo, rompendo-o por dentro. Não estamos, portanto, diante de um dispositivo Coutinho avant la lettre, mas diante de algo distinto e talvez mais inusitado: a maneira como qualquer situação filmada, mesmo a mais protocolar, guarda em si a possibilidade de se converter em performance.

Por fim, o mal-estar ao longo da entrevista, bem como suas repercussões, cumpre paradoxalmente com o objetivo original da matéria: divulgar a peça e manter as atrizes em evidência. É dessa tensão – e não apesar dela – que a atenção do público se alimenta. Regina Duarte e Gabriela Duarte, mãe e filha, convertem-se literalmente em personagens reais. 

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Renato Tardivo é Psicanalista e escritor, autor, entre outros livros, de Cenas em Jogo – literatura, cinema, psicanálise. Foi Professor Colaborador do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.