Quarta-feira, 20 de maio de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1388

Meu partido? Quero é “um bom partido”

(Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

Leio hoje (7 de abril) no portal Meio, citando a Folha, que “pelo menos 114 deputados federais mudaram de partido no prazo final para as eleições de 2026”.

Para quem tem menos de 50 anos esclareço: lá nas Minas Gerais onde nasci, um “bom partido” era aquele jovem, filho de fazendeiro ou dono de algum comércio na praça central da cidadezinha. Eles eram alvo do olhar de muitos pais que visavam dar ao escolhido a mão de suas filhas em casamento.

Na Política a coisa é diferente (ou seria…). Sem buscar dicionários, acho que numa democracia o partido é uma entidade legal que reúne um grupo de pessoas. É uma associação voluntária, fundamentada em certos princípios ideológicos, anseios e metas, e que elege pelo voto um cidadão. E este, ou esta, é quem os vai representar nos diversos níveis da escala de governo. Neste contexto é que cada indivíduo se expressa: através do político que elege.

Me lembro agora também da Rita Lee, figura visceralmente democrática. Em uma entrevista, ela disse não gostar muito da palavra partido. Essa palavra trazia para ela um sentido de corte, de separação, de partir, coisas assim.

Hoje, a leitura dessa matéria do Meio me leva de volta a uma das minhas idas ao Brasil. Era 1998 e eu já havia vivenciado, por mais de uma década, o sistema parlamentarista da Austrália, onde vivo. Ao sentir a reeleição de FHC como certa, o país viu o que acontece hoje de novo: uma dessas revoadas de deputados. Naqueles dias escrevi uma matéria para O Rionovense (de Rio Novo, MG), onde perguntava: “Estariam eles [os deputados] pensando na ‘comunidade’ ou apenas garantindo o seu galho firme onde pousar? Fizeram isso sem dar a mínima explicação aos eleitores que os colocaram nos seus cargos”, eu questionava.

Fiquei intrigado naquela época porque nunca vira esse tipo de “revoada” acontecer no parlamentarismo. Visitando hoje o site do Museum of Australian Democracy, vejo uma lista de sete políticos que trocaram de partido. Dos mais antigos (em 1916-17) passamos por 1931 dando um salto para 1996-97, dali para 2014-15 vindo a coisa terminar em 2018. Ou seja, sete pessoas fizeram a tal troca no decorrer de 105 anos.

Sim, admito que ao longo da vida tudo pode mudar. É aceitável alguém trocar ou vir a torcer para outro time de futebol, tomar outra marca de cerveja — ou mesmo trocar de religião. Mas no sistema parlamentarista se um político da oposição concordar com um projeto de lei do governo, projeto que vai beneficiar a todos, existe uma saída, embora muito rara, devo dizer: Crossing the floor aquele político vota a favor do projeto do governo — em desacordo com o seu próprio partido — em vez de fazer oposição só por pirraça.

Evidentemente, os partidos revelam aspectos culturais das sociedades que representam. E a mudança de parâmetros culturais pode levar uma quase eternidade. Em anos recentes, meio incrédulo, vi daqui o Congresso brasileiro lidar — às claras — com um “orçamento secreto”. Embora aquilo já tenha caído por terra, volto ao meu artigo onde se lia: “aqueles políticos, como mariposas voando de sigla em sigla, roubam do eleitor, no mínimo, o seu direito constitucional de expressão pelo voto”.

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Marcus Cremonese graduou-se em jornalismo pela FACHA, Rio de Janeiro. Reside em Rylstone, NSW, Austrália.