Monday, 20 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

O que será que acontece com a América Latina?

(Foto: Mundo Educação)

Há quem defenda o regime venezuelano como democrático, oriundo de eleições livres e justas, entre os quais, obviamente, o presidente do país Nicolás Maduro.

Democracia, como se sabe desde a 5ª Série, é o regime democrático do povo, para o povo, pelo povo. A palavra vem do grego demokracia (demo = povo; kracia = governo).

Desde 2014, sob a democracia de Maduro, mais de 5,4 milhões de venezuelanos deixaram o país, fazendo com que esta seja atualmente uma das maiores crises de deslocamento no mundo. A informação é do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR).

Portanto, a democracia venezuelana do povo não é.

Buscam refúgio principalmente na América do Sul e no Caribe. Fogem da fome, da violência, da insegurança, da falta de remédios, gás e serviços essenciais e, obviamente, do regime democrático de Nicolás Maduro.

Para o povo, também não é.

Crianças, mulheres grávidas, doentes, idosos e deficientes ainda viajam por dias para se livrar do governo Maduro defendido por ele com unhas, dentes e prisões.

Pelo povo, não é.

Ex-motorista de ônibus, Maduro, que iniciou a vida política como sindicalista, assumiu efetivamente o poder em 2013 após disputar sua primeira eleição para a República Bolivariana da Venezuela.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o então primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, assim definiu a democracia. “Muitas formas de governo foram tentadas e serão testadas neste mundo de pecado e aflição. Ninguém finge que a democracia é perfeita ou onisciente. De fato, diz-se que a democracia é a pior forma de governo exceto todas as outras formas que foram testadas de tempos em tempos.”

Questionado em junho de 2023 sobre o motivo de parte da esquerda brasileira insistir em defender o regime venezuelano, o presidente Lula afirmou que o conceito de democracia é relativo: “A Venezuela tem mais eleições do que o Brasil”, declarou. “O conceito de democracia é relativo para você e para mim. Eu gosto de democracia, porque a democracia que me fez chegar à presidência da República pela terceira vez.”

Lula poderia visitar Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, lugar que ainda não pisou desde que iniciou seu terceiro mandato. Nas esquinas e avenidas da cidade veria famílias inteiras de venezuelanos pedindo comida para sobreviver. Recebendo ou não, sempre agradecem: Dios lo bendiga, señor.

Talvez, ouvindo os relatos do povo venezuelano que deixou casa, escola, amigos e familiares, Lula pudesse reavaliar a democracia imposta por Nicolás Maduro.

O último relatório de tendências globais da Agência da ONU para Refugiados mostra que, até o final de 2022, o número de pessoas deslocadas por guerra, perseguição, violência e violações de direitos humanos atingiu o recorde de 108,4 milhões, um aumento de 19,1 milhões em relação ao ano anterior, o maior já registrado.

A Síria aparece em primeiro lugar em refugiados, com 6,5 milhões; a Ucrânia com praticamente 5,7 milhões; o Afeganistão com 5,6 milhões e a Venezuela, com 5,4 milhões.

A próxima eleição para presidente na Venezuela está marcada para 28 de julho deste ano, data de aniversário de Hugo Chávez, padrinho e exemplo político bolivariano no qual Maduro se espelha.

Até o presente momento, qualquer candidato com a menor possibilidade de vencer as eleições venezuelanas é impugnado ou boicotado por Maduro.

Nem a líder opositora, María Corina Machado, ou sua substituta, Corina Yoris, puderam se inscrever como candidatas durante o período de registro, entre 21 e 25 de março. Corina Machado foi inabilitada e Yoris não se registrou devido a um bloqueio sem explicação no sistema eletrônico eleitoral.

O que será que acontece com a América Latina?

No Brasil, dia 8 de janeiro de 2023, com extrema violência, por pouco não conseguiram um golpe de Estado, não sem antes acampar em frente aos quartéis e tentar explodir o aeroporto de Brasília, plantando bomba em caminhão carregado de combustível de aviação.

Dias antes, em 12 de dezembro de 2022, atacaram a sede da Polícia Federal da capital federal, depredaram o que encontraram pela frente, queimaram carros e um ônibus.

E ainda há quem considere 17 anos de cadeia um exagero para essa gente.

O mais curioso. A ideia era, em nome da democracia, dar um golpe de Estado, acabar com a democracia para manter a democracia. Entendeu?

Na Argentina, com ajuda de um médium, o atual presidente Javier Milei afirmou conversar com o espírito do cachorro de estimação, Conan. Se continuar como está, com a economia do país naufragando como o Titanic, em breve veremos argentinos pedindo comida nas esquinas brasileiras, na América Latina e no Caribe.

Na Venezuela, Maduro declarou algo semelhante. “Vou confessar a vocês que se aproximou de mim um passarinho, outra vez, e me disse que o comandante (Hugo Chávez) estava feliz e cheio de amor pela lealdade de seu povo”.
Subentende-se “cheio de amor pela lealdade de seu povo” o apoio incondicional a Nicolás Maduro e sua perpetuação como presidente.

Ele está no poder há 11 anos. Se vencer em julho de 2024, Maduro ficará mais seis anos na presidência. O mandato é de seis anos. Vai até 2030.

Neste exato momento a situação na Venezuela é de caos econômico e humanitário.

A eleição de 2018, que reconduziu Maduro ao poder, foi alvo de inúmeras denúncias de fraudes e não foi reconhecida por vários países.

Sobre a América Latina, Caetano Veloso deu sinais de cansaço e revolta na música Podres Poderes. Será que nunca faremos senão confirmar / A incompetência da américa católica / Que sempre precisará de ridículos tiranos? / Será, será que será, que será, que será / Será que esta minha estúpida retórica / Terá que soar, terá que se ouvir por mais mil anos?

Caetano compôs a canção há 40 anos, em 1984. Desde então, pouco ou quase nada mudou.

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Paulo Renato Coelho Netto é jornalista, pós-graduado em Marketing. Tem reportagens publicadas nas Revistas Piauí, Época e Veja digital; nos sites UOL/Piauí/Folha de S.Paulo, O GLOBO, VICE Brasil e Observatório da Imprensa. Foi repórter no jornal econômico Gazeta Mercantil e no Diário do Grande ABC. É autor de sete livros, entre os quais, “2020 O Ano Que Não Existiu – A Pandemia de verde e amarelo”.