
(Foto: Ron Lach/Pexels)
O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) é uma instituição de mais de meio século de existência. Criada em 1972, como um Centro vinculado ao então Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) – ainda não tinha o S de social – a instituição nasceu para fomentar e assessorar os pequenos e médios empresários. Atendendo a quase um milhão de empreendedores em todo o país, o Sebrae afirma ter por missão, segundo seu portal institucional, a promoção da competitividade e o desenvolvimento sustentável de micro e pequenas empresas, estimulando o empreendedorismo. Trata-se de uma instituição cuja marca é bem captada e avaliada pela opinião pública. Ao longo da história, o Sebrae sempre soube construir um conceito sobre a importância de se promover os pequenos negócios, se valendo fortemente dos veículos de comunicação, em especial da imprensa. No jargão jornalístico, sempre soube plantar a pauta.
Este ano, pela 13ª consecutiva, é promovido o Prêmio Sebrae de Jornalismo. A iniciativa, “está posicionada como uma vitrine fundamental para produções jornalísticas que dão visibilidade aos pequenos negócios em todo o Brasil”, comenta release do Sebrae.
Em todo o país, alcançou 3.759 inscrições. A participação dos profissionais abrange as categorias de Texto, Áudio, Vídeo e Fotojornalismo, e não há diferenciação por porte do meio informativo. Apenas para o Jornalismo Universitário existe uma categoria diferenciada. Paradoxalmente, o certame jornalístico do Sebrae, que tem por objetivo promover os pequenos e médios negócios, não tem nenhuma categoria voltada à imprensa alternativa. Será que não existe interesse em promover a “competitividade e o desenvolvimento sustentável de micro e pequenas empresas” jornalísticas e midiáticas, de “estimulando o empreendedorismo” delas?
Rádios e TVs comunitárias, jornais de bairro, sites, blogs, todos estes tipos de meios de comunicação alternativos, se desejarem concorrer no prêmio Sebrae, terão que fazê-lo de igual para igual com a chamada mainstream media, ou seja, os grandes jornalões, as redes nacionais de rádio e televisão, os grandes portais. Não é necessário gastar argumentos para demonstrar que é uma concorrência desleal. Haja visto os recursos tecnológicos e humanos que cada tipo de mídia dispõe.
O paradoxal aqui é termos uma instituição, que tem por meta fortalecer os pequenos e médios empreendimentos, ignorar a pequena e média imprensa existente neste país. Só o universo de rádios comunitárias legalizadas pelo Ministério das Comunicações ultrapassa a casa de quatro mil. O que leva o Sebrae a desconsiderar a existência desta imprensa alternativa? O que ela noticia não teria peso ou valor cognitivo suficiente para os anseios do Prêmio Sebrae?
Organizações internacionais possuem uma abordagem diferenciada e inteligente junto à mídia alternativa. São cientes de que em determinadas localidades, em determinados públicos, o que chega aos cidadãos são os informes do que o norte-americano Dan Gillmor cunhou de grassroots media. Se valendo do conceito, que em português se refere às origens de algum fenômeno e poderíamos traduzir por um jornalismo raiz, Gillmor faz referência a um “jornalismo cidadão”. O autor inglês Cris Atton (2002: 143) divide os veículos alternativos em dois grupos: a advocacy media, que atua em defesa de causas sociais, e os grassroots media, que provocariam uma revolução maior no que tange a introdução de novos valores de noticiabilidade, “news values”.
Instituições internacionais, como a Unicef, a Unaids e a Organização Mundial de Saúde, atuam permanentemente junto a essas emissoras, buscando parceria, fomentando-as por meio do fornecimento de conteúdo, treinamentos. Em alguns casos especiais, estas instituições repassam apoio material para a compra de equipamentos e manutenção de gráficas, emissoras, equipamentos de informática. Estão cientes de que a imprensa alternativa é um importante instrumento de transmissão de uma contrainformação ou de uma contracultura na busca de mudanças de valores sociais.
Como já tivemos a oportunidade de afirmar, a imprensa alternativa, sob as diversas rotulações que comporta – o public journalism, contra-imprensa, imprensa nanica, radical, anarquista, associativa, comunitária, operária etc. – bem como sob diversos propósitos editoriais, enquanto elemento de accountability, transparência, advocacy, lobbying, relações públicas, assessoria de imprensa, construção da cidadania, dentre outras (Sant’Anna, 2009: 66) – é um fato concreto na esfera pública midiatizada, ou seja, no espaço social e virtual onde os debates políticos, culturais e sociais ocorrem por meio dos meios de comunicação. Não há como negar sua existência. Há três anos temos provocado dirigentes do Sebrae sobre a não previsão de categoria especifica para pequenos e médios veículos em seus prêmios jornalísticos. Nunca obtivemos uma resposta.
É notório que a promoção de concursos jornalísticos representa a adoção de uma estratégia para sensibilizar profissionais de imprensa, em especial os gatekepers – aqueles que definem as pautas e-ou o aproveitamento editorial nos veículos – para que foquem em determinado assunto –, bem como interferir nos critérios de definição da agenda midiática. Na década de 1990, a Unicef foi bastante feliz em promover por anos seguidos prêmios focados na proteção da infância. Coincidência ou consequência, o tema da infância é hoje uma constante no noticiário nacional. A Aids também foi alvo durante muito anos de concursos jornalísticos semelhantes, em especial voltados para fomentar o combate à discriminação.
A realização de prêmios jornalísticos, se de um lado ajuda a promover a instituição ou determinado tema, de outro aporta credibilidade e reconhecimento externo. Aos inscrever-se em um concurso voltado à imprensa, o profissional ou o veículo procura obter a chancela corporativa e dos demais atores sociais quanto à qualidade de seu noticiário. A conquista de prêmios aporta credibilidade ao produto informativo, credencia o veículo na esfera pública. E para o jornalista contribui para o reconhecimento profissional. (SANT’ANNA: 269). É tudo que um veículo de pequeno porte necessita para crescer. Este credenciamento ajuda a abrir portas junto às fontes, junto aos gestores de verbas publicitárias, ou seja, ajuda a crescer e consolidar-se como empresa ou instituição jornalística.
Voltamos, então à pergunta: por que o Sebrae não foca seus prêmios nesse perfil de veículo de comunicação? Inclusive como instrumento de fomento e fortalecimento deste segmento empresarial. Será uma preferência em conceder premiações a profissionais que já conquistaram o estrelato da carreira? Será que a ele só interessa o que é publicado nos jornalões e grandes redes de TV, rádio e portais de internet? O pequeno e médio comunicador não lhe interessa?

1 – GILLMOR, D. (2006). We the Media: Grassroots Journalism by the People, Sebastopol, EUA, O’Reilly Media.
2 – ATTON, C. (2002). Alternative media, London, Sage
3 – SANT’ANNA, F (2009) Mídia das Fontes: um novo ator no cenário jornalístico brasileiro – Um Olhar Sobre A Ação Midiática Do Senado Federal. Brasília, Edições Técnicas do Senado.
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Chico Sant’Anna é jornalista Profissional, pesquisador acadêmico, Mestre em Comunicação pela Universidade de Brasília e Doutor em Ciência da Informação e Comunicação, pela Universidade de Rennes 1 – França.
