Friday, 23 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1275

Nem todos somos anfíbios

Há poucos dias, um amigo lembrava, em artigo aqui no O Povo, que os sapos, como bons anfíbios que são, quando colocados naturalmente em uma vasilha com água, em temperatura ambiente mas em processo de aquecimento, são incapazes de se dar conta de que estão sendo cozidos até a morte. É que seria de sua natureza acomodar a temperatura que lhes corre nas veias de acordo com o ambiente. Não se mexem, não esperneiam, nem sequer coaxam. Quis o amigo comparar esta síndrome do sapo escaldado com a inércia de todos nós, fortalezenses, diante do crescimento da cidade, cada vez mais às voltas com a especulação imobiliária, o prostiturismo, a antiga "loura desposada do sol" transformando-se em rota do tráfico internacional de drogas, em cenário da violência contra a criança e venda de bebês para o exterior. Preferimos todos vestir abadás e cair na axé music dos Fortais. Ou – cearenses que somos – nos empanturrar de caranguejos regados a cervejota na velha Praia do Futuro. No entanto, no que eu pensava, enquanto lia o artigo do amigo jornalista Flávio Paiva, era sobre a mesma inércia anfíbia na qual outros coleguinhas parecem enfrentar o caldeirão fervente em que andaram nos metendo. Isso aí: nesta terra de sapos, pouco ousamos desafiar a voz corrente que sempre nos sugere ficar de cócoras com eles. Assim, parabéns pelo OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, velho Dines de guerra. Prova de que nem todos somos anfíbios. E de que temos, na verdade, que exercitar nosso sangue quente. 
Lira Neto.

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Estigma 
Que alento!!! Respirar os poros deste OBSERVATÓRIO. Longa Vida!!! Sabemos dos estratégicos abortos que iniciativas deste tipo sofrem. Dines, valeu. Somos gratos. Vamos sair deste estigma info-biz sempre nos massacrando, como profissionais, que impõe: a mídia sempre tem dois lados, o lado de quem omite e o lado de quem emite. 
TT Catalão

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Fora de foco 
Não sei se somente as escolas ensinam fotografia. Eu aprendi a fotografar em um curso de Relações Públicas, foi um curso básico de foto, e já fiz mais coisas que pretensos repórteres fotográficos. Mas o que posso afirmar daqui de BH é que o que falta não é escola ou curso, é ousadia e um desfoque – que não o seu – do objeto da foto a ser feita. Ousadia para sair da horizontal da máquina, fugir às fotos de parede, posadas. Mas sobretudo ousadia para fotografar de um ângulo diferente. Se verificarmos com clareza veremos que as fotos dos grandes jornais são as mesmas. Tem-se a impressão de que colocaram todos em um chiqueirinho de criança e – como elas – esticaram as mãos para pegar a mamadeira. Antes de mais nada, como dizia Roland Barthes, uma foto é o meu olhar do mundo e não de todo mundo. Sugiro cuidado com seu artigo, porque ousadia e percepção nenhuma escola irá ensinar.

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Michael Jackson vai à Folha I 
Sabemos que o fato de Mr. M.J. ter um filho não é ato sexual, mas, como disse Dines em seu artigo, mercadológico. O astro estava sumido da mídia e tinha que voltar. HIStory ainda não vendeu o suficiente para a manutenção de sua casa. Mas o que estranhei é que ele voltou na Folha. Puxa, foi espantoso! O mesmo jornal que me informou sobre o não ao Collor – e outros tantos – agora diz sim a Mr. Jackson? 
Sérgio Morici

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Michael Jackson II 
Concordo plenamente com tudo que foi dito. Será que a mídia não poderia ser mais responsável? Há danos imensuráveis, individuais e coletivos. Por que não benefícios? 
Cristina do R. Monteiro, psicóloga

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Escatologia 
Parabéns pela brilhante reflexão, Alberto Dines. Também estou estarrecido com esse jornalismo escatológico, apático ao mundo, mas sempre atento a afirmar verdades fundadas em psicologia de último escalão. O jornalismo irresponsável e juvenil da nossa imprensa, e ainda preguiçoso, de gabinete, se caracteriza principalmente pela falta de domínio da escrita, na total cegueira diante das conseqüências das afirmações. Não é para menos que diversos pênis cortados se seguiram ao primeiro, capixaba. 
Marcelo Furtado 

[Ver, a propósito, Gilberto Dupas em Entre aspas.]

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Aulas de Violência 
Os jornais talvez não exerçam influência tão forte na sociedade quanto a mídia televisiva.Talvez porque somos um país de analfabetos, ou pelos menos com pouco interesse pela leitura. Então, esse tipo de notícia, como o caso da moça que cortou o pênis do namorado, exerce como se fosse um fascínio nas pessoas de mentes desestruturadas, principalmente porque são repetidas inúmeras vezes, com detalhes. São verdadeiras aulas de violência. Dito e feito, quantos casos mais, semelhantes a esse, aconteceram? Até aqui em Maceió, e não foi só um, houve até variações, como jogar água fervendo sobre os órgãos genitais. Será que a imprensa não tem uma parte da culpa do aumento desse tipo de violência? 
Ana Maria Santos Tenório

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Ira santa 
É sempre um prazer sorver a ira santa e a eterna chama iconoclasta que Dines emana! Fui assistir à palestra do Noam Chomsky na UFRJ preparada para ouvir um incandescente e fervoroso discurso, quando me deparei com um calmíssimo e distanciado crítico – brilhante, sem dúvida; consistente e com uma capacidade de síntese de dar a maior inveja – mas faltou (para o meu gosto, é lógico) uma pitadinha de indignação ou emoção (talvez seja pedir demais de um americano!), a famosa ira santa que nos mantém a todos – ou infelizmente a alguns apenas, mas a você, Dines, certamente, em estado de constante alerta. [Ver Chomsky em Entre aspas
Eliane Pszczol

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Respeito a quem tem fé 
Há um movimento religioso, o tal Opus Dei, que tem lá suas posições políticas, sua visão do que deva ser a humanidade, sua opinião sobre jornalismo. Por em geral defender quem tem poder, acaba atraindo gente que vê nele uma boa ideologia para cuidar de seus interesses. E também deve haver um bando de inocentes úteis lá dentro que, na falta de utopia melhor, se agarram a uma visão de mundo pronta. São religiosos, ponto. Desconheço de perto o movimento e pouco sei do que se passa de fato dentro da cabeça de todos os seus adeptos. 

Criticar as opiniões políticas do movimento, a influência delas na concepção jornalística e como isso pode desumanizar a vida é nosso dever profissional. Mas o respeito àqueles que, por fé e não por interesse, aderem a esse tipo de movimento tambem é nosso dever. A linha entre as duas coisas pode ser terrivelmente tênue. 
Hélio Gurvitz

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Crítica literária 
De certa forma concordo com o bom poeta e ensaísta Ferreira Gullar. Minha restrição fica no campo da importância que a literatura tem hoje. Não sou daqueles idiotas que dizem que o brasileiro lê pouco. Creio que o nível de leitura de nossa gente, sempre massacrada pelo "emburrecimento" massivo, é até razoável. Creio que o menino que foi obrigado a ler O Sertanejo, de José de Alencar, no primeiro grau, uma violência para quem ainda não tem estrutura e conhecimento, e ainda lê, é um herói. A escola educa mal, os jornais não abrem espaço, os livros são caros, mesmo assim, pelo menos aqui em Brasília, vejo a juventude lendo. Há sete anos escrevo sobre literatura no jornal Correio Braziliense e procuro sempre modular o que pede o editor, ficar restrito à resenha, e o que realmente acho importante no aproveitamento deste espaço, analisar criticamente a obra. E creio que este é o caminho ideal para a nova crítica. Antes da mera crítica, creio que gênios como o mestre Ferreira Gullar deveriam incentivar o surgimento de críticos reais através da pressão junto aos órgãos de imprensa. E aí poderíamos ver as deficiências do ofício, que passam, inclusive, por uma péssima divulgação por parte das editoras. 
Maurício Melo Júnior

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Perdidos 
I 
Excelente o texto de Luiz Egypto! Lembro com certa nostalgia urbana dos sábados Perdidos na Noite. Adiávamos bares e até mulheres para não perder as loucuras do Perdidos. Estávamos em Salvador em pleno nascimento da praga axé music. Daniela era crooner de bar. Hoje é babada por meia mídia e por ele, o ex-perdido. Faustão virou pastelão. E por que não? Optou por balançar a pança, puxar sacos e inchar a conta bancária. Na Bahia, há vários casos de cérebros transgressores, hoje curando a dolorosa consciência do amém oficial com frases do tipo: 'Cansei de andar de ônibus'. Faustão, também. Azar dele. 
Arthur Andrade, jornalista 
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II 
Bela observação sobre o Faustão. Também tenho saudades do Balancê. 
Ruy Ferrari 
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III 
Que agradável surpresa. Procurando por algo mais para ler no Universo Online, descobri que o OBSERVATÓRIO também por lá se instalou . Passando pelos textos (muito interessantes, por sinal), cheguei ao texto sobre Fausto Silva. Gostei muito. Pretendo visitar regularmente este site
Juliano Nóbrega

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Bandeira 
Acabei de conhecer o O.I.! É fascinante! Demonstra claramente o quanto é instigante e empolgante a vida de um jornalista. Já que entrei aqui, aproveito para perguntar a todos os que por aqui passam se existe alguém interessado em juntar-se a mim para escrevermos a respeito dos direitos e defesas dos cidadãos e dos consumidores. Estou a caminho de ingressar no jornalismo e pretendo erguer esta bandeira. 
Sílvia Helena Mussolini de Oliveira