Tuesday, 05 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Mario Vitor Santos


"A Folha não se diferenciou do tom predominante na mídia, não manteve a contenção e o equilíbrio que o tema demandava. Veiculou até o cardápio que seria servido na recepção familiar a Lamia. Quando, afinal, os quitutes foram oferecidos, a imprensa, presente, também provou. 

Ninguém – a Folha incluída – deu tratamento explicitamente elogioso a Lamia. Mas a superexposição e a falta de discrição na cobertura acabaram imprimindo sinal positivo ao personagem. É um subproduto perverso da espetacularização do noticiário, inofensiva em alguns casos, prejudicial na maioria. 

O leitor Roland Kremp, diretor de uma escola para crianças carentes em São Paulo, alemão de nascimento e naturalizado brasileiro, ligou para o ombudsman para manifestar sua estranheza pelo destaque dado ao assunto: 'Muitos jovens podem tomar Lamia como falso exemplo e isso não é bom', disse. 

(….) Se a brasileira Lamia Hassan contribuiu para um frio assassinato de cunho terrorista, ou se seus atos encontravam justificação na falta de alternativas para a luta palestina diante do ocupante israelense é a complexa questão que o noticiário acabou evitando. 

Por situações assemelhadas, comandantes sérvios da Bósnia estão indo a julgamento por violação das disposições da Convenção de Genebra para crimes de guerra. 

Comemorações por Lamia pela mídia, nesse caso, resultam tão incabíveis quanto o monumento erigido por colonos judeus ortodoxos em território palestino para homenagear o fanático que matou 29 árabes numa mesquita de Hebron em 94. Nada a comemorar." 

("Nada a festejar", coluna do ombudsman da Folha de S.Paulo, 16/2/97.) 
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André Lara Resende 
"Sinceramente, não há intenção de silêncio que resista à irritação diante de tal absurdo. Factualmente correto? Talvez. Mas raramente me deparei com algo tão faccioso. 'Um tecnocrata respeitado que incentivou políticas que agravaram o fosso entre os ricos e os pobres. Durante os seus anos de ministério a inflação subiu. Membro do conselho do Citicorp, foi também professor da FGV!' Ora, tenha a santa paciência, jornalista David Cay Johnston! [Autor da notícia sobre a morte de Mário Henrique Simonsen no New York Times.] A paciência que Simonsen tinha para aturar a obtusidade arrogante do sr. Bill Rhodes [vice-presidente do Citicorp, que em declaração ao jornalista usou a expressão 'tecnocrata respeitado'] e que a mim me falta. Mário Henrique Simonsen foi um homem de gênio, extraordinário professor que dedicou sua vida ao magistério, formou gerações e, sem nenhuma atração pelos negócios ou apego ao poder, foi um dos nossos mais influentes homens públicos." 

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Manuel Bandeira 
"Sou provinciano. Com os provincianos me sinto bem. (….) Me explico: as palavras 'província', 'provinciano', 'provincianismo' são geralmente empregadas pejorativamente por só se enxergar nelas as limitações do meio pequeno. Há, é certo, um provincianismo detestável. Justamente o que namora a 'Corte'. O jornaleco de município que adota a feição material dos vespertinos vibrantes e nervosos do Rio, – eis um exemplo de provincianismo bocó. É provinciano, mas provinciano do bom, aquele que está nos hábitos de seu meio, que sente as realidades, as necessidades do seu meio. Esse sente as excelências da província, – tem é orgulho." 

(Crônica escrita para o Estado de Minas em 12.3.33, reproduzida com o título "Sou provinciano" em Andorinha, Andorinha, textos de Manuel Bandeira inéditos em livro selecionados e organizados por Carlos Drummond de Andrade, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1966.) 

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Lowell Limpus 
"Esta é a última das oito mil e setecentas reportagens que escrevi para o News. É a derradeira porque morri ontem… Escrevi meu próprio obituário porque conheço o assunto melhor que qualquer outra pessoa e prefiro vê-lo sincero a vê-lo floreado." 

(Repórter do Daily News de Nova York, citado por Gay Talese emAos olhos da multidão, 1973; reproduzido em A arte da entrevista, livro organizado por Igor Fuser, São Paulo, Scritta, 1996.) 

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Carlos Drummond de Andrade 
"Nelson Rodrigues não morria de simpatias por mim. Toda vez que fazia uma peça de teatro ele punha um incesto ou coisa assim. Naquele tempo, o incesto no Brasil era um pecado terrível. A censura logo metia o pau em cima dele. Ele apelava para o Prudente de Moraes Neto, apelava não sei se a Antonio Callado, a Manuel Bandeira, a mim. E sempre protestávamos contra 'aquele absurdo da censura' etc. Um dia, ele fez uma peça e me convidou a assistir. Havia um parto em cena, uma mulher gemendo no escuro. Achei aquilo de muito mau gosto. E, na saída, ele encarregou um repórter da Última Hora de me entrevistar. Eu não quis dizer que não tinha gostado da peça, porque era desagradável para ele. Nélson era muito suscetível. Ele não gostou disso. A partir de então, passou a me atacar no Correio da Manhã. Diariamente, ele fazia um artigo em que me metia o pau e me atribuía frases idiotas que nunca pronunciei. Achei o seguinte: ele poderia ser um grande escritor, mas, em matéria de caráter, não era dos mais perfeitos. Nelson Rodrigues resolveu, então, botar numa peça de teatro uma família Drummond que era uma família toda de criminosos, incestuosos, tarados e homossexuais. Uma coisa terrível! Antes, essa família chamava-se Vanderley. Mas havia um Vanderley desses pernambucanos mais perigosos que mandou dizer a ele: se ele botasse o nome Vanderley na peça, levaria um tiro. Como ele estava com raiva de mim – uma raiva que durou anos e nunca fiz nada contra ele; apenas, não quis falar mal da peça em público -, botou o nome Drummond em lugar de Vanderley… Resolvi não tomar conhecimento. (….) Percebi também que a malandragem de Nelson Rodrigues era esta: se eu protestasse, aí então é que a peça ficaria mais interessante ainda, porque criava-se uma polêmica. E ele adorava polêmica!" 

(In O Dossiê Drummond, Geneton Moraes Neto, São Paulo, Editora Globo, 1994, págs. 43/4.) 

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João Sayad 
"A crítica mais poderosa é movida por inveja e rivalidade. A Folha, por exemplo, enche diariamente olhos e ouvidos dos leitores com colunas e editoriais críticos, ácidos, invejosos, despeitados. A janelinha intitulada ''Boa Notícia'' acaba apenas destacando o caráter crítico do resto, como mancha branca em página negra como piche. A mesma coisa pode se falar da Veja em alguns períodos e de outros jornais e colunistas. 

(….) Para criticar, basta observar de longe, sem sujar as mãos, o que o criticado está fazendo, a que restrição está obedecendo e qual obstáculo tenta remover. É fácil. Basta se libertar de frases feitas, de preconceitos, da sabedoria convencional e escrever, com um sorriso nos lábios, a página crítica, propondo o impossível. Não importa que não seja atitude simpática ou virtuosa, que seja motivada por razões pessoais. Os resultados do despeito ou da inveja podem ser virtuosos – mostram restrições cruéis, ainda que racionais do ponto de vista econômico, idéias novas embora inexeqüíveis, e acirram a indignação contra o que não é justo, honesto ou humano, ainda que seja habitual." 

("Críticas", Folha de S.Paulo, 20.1.97.) 

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José Geraldo Couto

"Você fala a verdade,
e a verdade é 
o seu dom de iludir"
Caetano Veloso

"Talvez eu esteja violando algum código de ética ou de etiqueta das relações entre imprensa e anunciantes, mas devo dizer que os grandes jornais de São Paulo têm publicado, em seus cadernos culturais, uma propaganda que pode ser qualificada, tecnicamente, de enganosa. 

Estou me referindo ao anúncio do filme Pequeno Dicionário Amoroso, atualmente em cartaz em São Paulo e no Rio. O anúncio em questão utiliza, para enaltecer o filme, frases extraídas de críticas publicadas nos principais órgãos de imprensa. O número de frases varia de acordo com o tamanho do anúncio, mas duas estão sempre lá: a de Luiz Carlos Merten, publicada em O Estado de S.Paulo, e a minha, publicada naFolha

A frase que aparece acima da minha assinatura – 'Isto é cinema, belo cinema' – faz parte de fato do meu texto, mas trai completamente o seu espírito, invertendo quase seu sentido geral. 

Explico. A oração, talvez demasiado sentenciosa e até um tanto tola, referia-se, no contexto da crítica, a duas cenas citadas como exceções positivas num filme de estrutura essencialmente não-cinematográfica – ou pobremente cinematográfica. 

Não que a resenha fosse desfavorável a Pequeno Dicionário Amoroso. Pelo contrário: o filme era apresentado como "simpático, vibrante, encantador". Só que suas virtudes eram atribuídas mais ao roteiro e aos atores do que à criação de imagens propriamente cinematográficas. 

Do jeito como foi usada no anúncio, a frase sugere um êxtase estético que só se justificaria diante de obras como, sei lá, A Marca da MaldadeUm Corpo que CaiTerra em Transe. Isso sim, para o autor da frase, é cinema. 

Vamos deixar de lado o fato de a frase ter sido publicada sem minha autorização. Certa ou errada, essa é a praxe nesse tipo de publicidade. Uma praxe com que os jornalistas tacitamente consentem talvez movidos – ou imobilizados – pela vaidade de ver suas efêmeras palavras viverem um pouquinho mais. 

O que me interessa aqui é chamar atenção para o modo como a publicidade, assim como o mau jornalismo, pode mentir mesmo dizendo 'a verdade'. Os jornalistas são freqüentemente acusados – muitas vezes com razão – de distorcer, vulgarizar ou empobrecer declarações de seus entrevistados. Não deve haver ingenuidade aqui: toda entrevista publicada, mesmo a 'entrevista ping-pong' (no formato de perguntas e respostas) é uma recriação de uma conversa real. 

Nem poderia ser de outra forma. A reprodução literal de um diálogo longo, com todos os tropeços e digressões da linguagem oral, seria, além de tediosa, virtualmente ilegível. Há também a questão do espaço. Meia hora de entrevista gravada preencheria, se transcrita na íntegra, uma página de jornal. É comum os jornalistas terem de condensar uma hora de conversa em um quarto de página. O desafio do bom jornalista é, na edição da entrevista, selecionar o que é essencial, mantendo ao mesmo tempo o sentido geral do que foi dito e, se possível, o sabor da fala do entrevistado. 

O jornalista preguiçoso – ou pressionado pela falta de tempo – transcreverá e publicará apenas os primeiros minutos da entrevista, mesmo que o mais importante fique de fora. O jornalista capcioso selecionará as declarações que lhe forem úteis para construir uma determinada imagem do entrevistado ou reforçar seu parti pris com relação a determinado assunto. A publicidade, por sua própria natureza, realiza uma operação semelhante à do jornalista capcioso: interessa-lhe celebrar, se possível por boca alheia e insuspeita, o produto que tenta vender. 

Cabe aos entrevistados traídos protestar contra o mau uso de suas palavras. Cabe aos jornalistas transformados à revelia em publicitários protestar contra a adulteração do produto de seu trabalho. E é isso que faço aqui." 

(c) Folha de S.Paulo 

("Anúncio de 'Pequeno Dicionário' imita mau jornalismo", Folha de S.Paulo, 11.2.97.) 

(Ver Jornalismo Cultural e Propaganda, de José Geraldo Couto, nesta edição.) 

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Sergio Borgneth 
"As relações entre empresas jornalísticas brasileiras e suas congêneres estrangeiras estão cada vez mais intensas. Por impedimento legal, essas parcerias não podem se estabelecer societariamente nos veículos impressos e eletrônicos, mas as organizações estão conseguindo encontrar caminhos que permitam estabelecer associações entre si sem ferir a legislação ainda vigente. 

Os canais que integram os sistemas de televisão por assinatura, a maioria estrangeiros e transmitindo nos idiomas de origem, por si já demonstram o anacronismo da lei de reserva do mercado de mídia para as empresas e para os empresários brasileiros. Na mídia impressa, já vemos exemplos dessa internacionalização. Como a revista Caras – fruto da associação entre a Abril e uma similar argentina. Ou a revistaAméricaEconomia, que resultou de acordo entre a Editora Meio & Mensagem e o grupo norte-americano Dow Jones. Aliás, um dos veículos deste grupo, The Wall Street Journal, está prestes a lançar no Brasil via, por enquanto, os jornais Estado de Minas e O Estado de S.Paulo sua edição latino-americana em língua portuguesa [The Wall Street Journal Américas; duas páginas no Estadão aos domingos e uma página no Estado de Minas às segundas-feiras, a partir de março. N.R.]. Este mesmo jornal, sabe-se, tem grande interesse em se associar à Gazeta Mercantil. E mais ainda: duas revistas norte-americanas, People e Time, estão em adiantadas negociações com a Editora Globo para, através desta, lançarem-se no mercado brasileiro. Da mesma forma, em breve encontraremos a Fortune encartada no Jornal do Brasil [a partir de março, às segundas-feiras, uma edição resumida. N.R.]. 

Semana passada em Porto Alegre foi realizado o World Meeting of Newspaper Organizations, quando a RBS recepcionou centenas de empresários de jornais de todo o mundo, além das lideranças de praticamente todas as entidades internacionais representativas do setor, dentre as quais a Associação Mundial de Jornais (FIEJ), presidida pelo nosso Jayme Sirotsky. Ao lado dos pronunciamentos oficiais, discursos e palestras costumeiras nesse tipo de evento, nos bastidores do encontro as conversas eram sobre negócios, parcerias, fusões e associações. E o que se destacou é o grande interesse dos empresários estrangeiros em nosso país, nos rumos de sua economia, e a confiança que eles depositam em nosso futuro. 

O negócio da mídia cada vez mais exige tecnologia de ponta, o que significa necessidade de vultosos investimentos, acima da capacidade de nossas empresas jornalísticas. Por outro lado, o mercado brasileiro, presente e em perspectiva, é fundamental para os grandes grupos internacionais nessa era de globalização. Esse jogo de interesses mútuos, com certeza, vai forçar que a lei de reserva de mercado na área de mídia seja revista (sem trocadilhos) nos próximos anos." 

(c) Meio & Mensagem 

("Uma lei a ser revista", Meio & Mensagem, 10/2/97.) 

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Sidney Cinti 
"Durante os últimos meses temos ouvido diariamente anúncios nas grandes emissoras que tratam as rádios comunitárias como as responsáveis por todos os males que ocorrem no país. Para quem não conhece o 'jogo do poder' e como funcionam as rádios comunitárias e o serviço que prestam à população, essa propaganda pode até alcançar seu objetivo, induzindo os mais desavisados a ter uma posição contrária às rádios comunitárias, maldosamente por eles chamadas de rádios piratas ou clandestinas. 

Embora essas pequenas emissoras não tenham o mesmo poder de foto para rebater essa propaganda enganosa, sua grande audiência é prova de que já conquistaram o principal apoio: o da opinião pública. Não são concorrentes das rádios comerciais, assim como os jornais de bairros não competem com os grandes jornais. Cada um tem o seu espaço, e é na rádio comunitária que o cabeleireiro, o mercadinho e o eletricista, dentre outros, vão anunciar seus produtos, porque, além de não terem condições de arcar com os custos de um anúncio numa rádio comercial, não têm interesse de atingir o público de todo o Estado ou país. 

Funcionando em freqüência modulada, num raio máximo de transmissão de 15 quilômetros, com potência de 45 a 50 watts, seu público-alvo é a população local de um determinado bairro ou pequeno município, prestando serviços de utilidade pública, dando informações sobre acidente nas proximidades, a atuação de autoridades locais, festas, etc. É também na rádio comunitária que a cultura local pode ser divulgada, como também podem ser apresentados seus artistas. (….) 

Se há omissão das autoridades em relação ao funcionamento das emissoras comunitárias, como prega a propaganda contrária, não é certamente naquilo a que se referem, pois, comprovadamente, não há nenhuma interferência de seus sinais em aeronaves, viaturas policiais e outras rádios ou televisões." 

(Sidney Cinti é deputado estadual, coordenador da Frente Parlamentar Suprapartidária de Apoio à Auto-Regulamentação das Rádios Livres e Comunitárias, de São Paulo. Citação extraída de carta publicada no Fórum dos Leitores de O Estado de S.Paulo em 27.1.97.) 

Leia mais sobre a questão das rádios comunitárias na edição 13 do OBSERVATÓRIO

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Aloysio Biondi 
"Um dos fenômenos mais odiosos observados no Brasil é a absoluta omissão dos formadores de opinião diante do tratamento que governantes dão ao 'povão'. O Brasil trata seus pobres como um bando de não-cidadãos, e os preconceitos contaminam a classe média. Divide-se o país ao meio. Não há a chamada solidariedade social. Depois, a classe média se surpreende quando é vítima de marginais, que em alguns casos se comportam como bestas humanas. Mas por que eles deveriam ser diferentes, se o tempo todo, desde a infância, lhes é relembrado que há dois 'tipos' de brasileiros. Um, tratado como cidadão. Outro, como bichos contra os quais se erguem até cercas para impedi-los de chegar ao mar?" 

("Ouro, 'farofeiros', classe média, violência", Folha de S.Paulo, 16.1.97) 

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Rubem Fonseca 
"Leio os jornais. A morte do muambeiro da Cruzada nem foi noticiada. O bacana do Mercedes com roupa de tenista morreu no Miguel Couto e os jornais dizem que foi assaltado pelo bandido Boca Larga. Só rindo. 

(….) Leio os jornais para saber o que eles estão comendo, bebendo e fazendo. Quero viver muito para ter tempo de matar todos eles." 

"Os jornais abriram muito espaço para a morte do casal que eu justicei na Barra. (….) Os colunistas sociais estavam consternados. Os granfas que eu despachei estavam com viagem marcada para Paris. Não há mais segurança nas ruas, dizia a manchete de um jornal. Só rindo." 

("O Cobrador", O Cobrador, 1979, republicado em Contos Reunidos, São Paulo, Companhia das Letras, 1994.)