Friday, 23 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1275

A grande pauta do Jornal Nacional, que ninguém viu

Victor Gentilli

 

O

Jornal Nacional põe no ar o drama de uma família de um doador de órgãos, que não consegue satisfazer seu desejo porque o sistema de captação de órgãos é ineficiente e não funciona. No melhor estilo “deixa que eu resolvo”, herança do “jornalismo zoológico” que até o JN herdou, o jornal adotou o caso e no dia seguinte acompanhou o périplo da família em busca de uma solução.

No dia seguinte, o susto: o hospital que diagnosticara morte cerebral anuncia que o paciente manifestou sinais vitais. O morto estava vivo! O telejornal noticia com discrição e muito poucos detalhes. Mais um dia e a confirmação: o diagnóstico do dia anterior estava errado: o paciente tivera mesmo morte cerebral.

O Jornal Nacional tocou na grande ferida, cheia de pus, que contamina a questão do transplante de órgãos no Brasil: a dúvida sobre a certeza da morte.

A nova lei de transplantes que tornou a todos doadores “não pegou” porque o brasileiro não confia no sistema de saúde. Se o brasileiro já não confia que morte cerebral é efetivamente morte, imagine quando a morte cerebral passa a ser motivo de desconfiança. Os brasileiros temem doar porque não confiam no sistema de saúde do país.

Eis a grande pauta: se um morto do Jornal Nacional estava vivo, imagine um “morto” qualquer.

A discussão sobre o conceito de morte, morte cerebral, a legislação que estabelece quando um paciente tem morte cerebral, esta é a grande dúvida da população, o motivo pelo qual as pessoas se mobilizam para informar às autoridades que não desejam ser doadoras.

Nenhum jornal viu a grande pauta.

Enquanto a sociedade não for devidamente informada e esclarecida do significado da morte cerebral e dos procedimentos para diagnosticá-la, pode-se mexer na lei para lá e para cá que ela fará tudo para não doar seus órgãos.

Para a infelicidade de tantos e tantos brasileiros que estão na fila à espera de um órgão para uma vida digna.