Tuesday, 05 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

A inviável concorrência

Nahum Sirotsky, de Jerusalém

 

Os reformadores têm os instintos dos profetas, a visão – consciente ou não – do futuro. Acompanhando a mídia impressa brasileira, sempre lembro Cláudio Abramo pelo que realizou no Estado de S.Paulo e na Folha de S.Paulo antes da televisão a cabo e da net. Nunca conversamos sobre a questão, pois raramente nos encontrávamos. Eu atuava no Rio e ele em São Paulo. Mas, consciente ou inconscientemente, por instinto ou intuição, ele criou como alguém que sabia que era impossível, e estúpido, o meio impresso tentar competir com o eletrônico, como tentava, enquanto ao mesmo tempo se pautava pelo noticiário da TV. Pelo que realizava, via-se que se empenhava em desenvolver linguagem do impresso que o distinguisse totalmente de outras mídias. Claro que linguagem, no caso, não se trata do frasear ou da aparência. Mas de significado. Abramo sabia disso como poucos. Rádio e TV noticiavam. E, em função do tempo disponível, sempre curto, e da característica de terem de fluir, de não poderem parar ou voltar atrás, não permitem comentários em maior profundidade. Ele quis fazer o jornalismo dos significados, com o qual as demais mídias, por serem como são, não podiam competir. No quadro dos meios de comunicação, cada um tem de encontrar seu lugar.

A mídia eletrônica é imbatível no noticiar. Ela pode acompanhar o acontecimento quando acontece. Levou-nos a Kosovo como nos leva a uma partida de futebol. Mas, apesar de me obrigar a me informar sobre o que acontece, como sobre as técnicas de informar, foi na mídia impressa que tomei conhecimento dos significados do que aconteceu nos Bálcãs; por exemplo, que a Otan garantiria autonomia da província kosovar, mas não sua independência. E que seria assim porque não faltam grupos étnicos desejosos de ter sua própria pátria. Um Kosovo independente seria o precedente para os húngaros da Transilvânia romena, os bascos da Espanha e assim por diante. Há muito esquecemos que as nações-Estado foram imposições de maiorias sobre minorias mais fracas.

Informação com profundidade

No Oriente Médio, por exemplo, a maior parte dos países nasceu da vontade de potências que fizeram desenhos e mapas e disseram: aqui ficará o país que chamaremos disto ou daquilo. A região se subdividiria, viveria em guerras. Em Kosovo não se considerou apenas o comportamento criminoso dos sérvios e seu líder. Houve genocídios na África negra ignorados pela chamada comunidade internacional, que nada fez, como entre hutus e tutsis. Em Kosovo, também havia o empenho na estabilização dos Bálcãs, fundamental para a estabilização da Europa. E outros propósitos.

Agora, além das mídias eletrônicas convencionais – rádio e televisão – chega a Internet, outro instrumento de inimaginável alcance há bem pouco tempo. Nela se tem de tudo, do noticiário de minuto a minuto de jornais, rádio e TV a revistas, acesso a bibliotecas, museus. É um instrumento ainda não bem conceitualizado, pois até sua abrangência ainda está em processo. A mídia impressa não tem como competir com a net. Mas competir seria o certo?

Nos Estados Unidos, em 1998, a net promoveu vendas de 330 bilhões de dólares de tudo quanto se possa imaginar. O comércio eletrônico está apenas começando e já transforma as relações entre vendedores e consumidores. A net anuncia e promove o contato do consumidor com o vendedor ao mesmo tempo. É inigualável como meio de pesquisa de dados. Um instrumento de comunicação direta e imediata entre indivíduos. Um café de abrangência internacional como um bate-papo internacional. Uma arma. Profundas transformações no impresso são inevitáveis. Sobrarão aqueles que souberem fazer o que a net não pode. Mas não se trata de competir. É uma questão de se encontrar o lugar de cada mídia, as funções para cada uma delas.

Uma dificuldade da net é uma vantagem a ser explorada. Há limites para o que se consegue ler na telinha, que, em qualquer hipótese, vai ser um grande negócio para os fabricantes de óculos. Ler um jornal na net há de ter um custo maior do que aquele da compra do original impresso. Obter profundidade de informação na net exige tempo e técnica de pesquisa, a impressora do lado, a leitura do impresso assim obtido. É tempo e dinheiro, desgaste físico e mental. A net democratiza a informação, sem dúvida alguma. E ameaça os demais meios eletrônicos – daí a tendência de se combinar net, TV, rádio, telefone. E abre para o impresso a oportunidade de se renovar, de ser o meio da informação abrangente, o meio da comunicação de conhecimento, do informar no contexto sobre contexto, a equação cujo resultado é o significado. Sem descobrir o caminho das Índias, muito impresso soçobrará. A grande crise que enfrentam é, em primeira instância, econômica; porém, na verdade, resulta de a mídia impressa não estar se autocriticando na busca de linguagem e posicionamento. E continua se pautando pelo noticiário da televisão, chegando com a notícia muito depois.

 

Carlos Vogt

 

Houve um tempo – na verdade, mais de um – em que tivemos programaticamente, como projeto nacional, a busca de diferenças tão marcantes, entre o português do Brasil e o português de Portugal, que justificassem a identificação de uma língua brasileira, com identidade própria, apesar das inegáveis semelhanças genéticas e estruturais entre a mãe e a filha.

Léxico, entonação, sintaxe, morfologia, fonética e fonêmica, onde quer que fosse e em qualquer nível de análise que se quisesse, a obsessão era encontrar dessemelhanças.

Dois momentos da história cultural brasileira são particularmente marcantes, nesse sentido: o do Romantismo, mais ou menos entre a independência do país e os anos 60, do século passado, e o do Modernismo, a partir de 1922 estendendo-se, para o caso da brasilidade lingüística, até os anos 40, aproximadamente.

Passada a briga romântica e a peleja modernista com Portugal, os ritos de heroísmo e de afirmação da “língua brasileira” foram cedendo lugar a uma maturidade de comportamento em que houve, inclusive, inversão de sinais, com fortes influências do português do Brasil sobre o português de Portugal, através do romance regionalista dos anos 40 e, mais recentemente, através da própria televisão e das novelas brasileiras por ela veiculadas naquele país.

As línguas são dinâmicas, como é dinâmica a cultura dos povos. Com a internacionalização das relações econômicas, a globalização financeira e a mundialização dos meios eletrônicos de comunicação, as tecnologias da informação vêm criando jargões específicos, e o que se vê nos países, regionalmente, é um fenômeno interessante de desenvolvimento de patuás globalizados cujo paradigma é sempre tomado ao inglês, esperanto da nova era.

Tensão constante

Em meio às turbulências da globalização, agita-se cada vez mais a indústria cultural, produzindo desde caipiras americanos no interior country paulista até a mística urbana do consumo das músicas em inglês, que poucos entendem, linguisticamente, mas que todos consomem e consumam, musical e ideologicamente.

E a nova língua portuguesa?

Agita-se também. Debate-se, confronta-se, recua, modifica-se e mantém-se.

Nesse sentido, faz bem assistir e acompanhar a atitude de nossa imprensa/mídia que, além dos manuais de redação e estilo, procura, às vezes com cochilos indesejados, desempenhar-se em bom vernáculo, mantendo inclusive seções e programas dedicados à discussão das formas corretas e da expressão adequada de nosso brasileiro português.

Os jornais, o rádio e a televisão que se dedicam a essa boa tarefa cultural de conservação criativa estão de parabéns.

E que não venham nos dizer que somos, por isso, conservadores. A não ser que por aí se entenda que se trata de conservadorismo radical, isto é, aquele que, procurando preservar as instituições, sabe que é preciso renová-las, mas que diante da vertigem atraente do novo, tem a consciência plena de que toda a novidade só tem consistência sobre as estruturas fundadas da tradição. Toda novidade não é senão esquecimento, como escreveu Francis Bacon.

No caso da língua, toda inovação ou nasce da tensão constante com o movimento cultural de sua conservação ou não será mais do que mera curiosidade mercadológica.

Que sigam as colunas, as seções e os programas dedicados a esse processo de formação da cultura lingüística do cidadão. O produto é, sem dúvida, de qualidade indiscutível.

 

Claudio Carneiro

 

Quando fui convocado para colaborar, mesmo que temporariamente, com o Observatório da Imprensa na TV, devo confessar que pouco sabia sobre o programa. Logo na primeira reunião de pauta, percebi que estava participando de uma nova idéia, um novo conceito de se fazer jornalismo.

Ao receber minhas pautas, fui para a rua atrás das entrevistas. E aí, o impacto foi maior. Em vez da “pedreira” do dia-a-dia, me deparei com entrevistados de alto nível, gente que eu cultuava à distância, novas verdades e histórias.

Assuntos como a violência, o marketing, a política e até mesmo o futebol me foram apresentados numa outra perspectiva. Acho que é exatamente isso que acontece com o espectador-leitor, o nosso “tele-observador”.

A onda de seqüestros, as guerras em todo o mundo, as CPIs e a atuação dos jornalistas diante destes fatos passam, no Observatório da Imprensa, por uma análise profunda, quase cirúrgica. É o diferencial do programa.

Dizem que “sai sangue” se você espremer alguns jornais. O Observatório “centrifuga” o nosso jornalismo e dele tira a essência. Em alguns casos, o extrato é sangue mesmo mas, na maioria das vezes, o resultado é verdade, é clareza, é informação.

Discordo dos que dizem que a imprensa é o quarto poder. Basta ver os contracheques dos coleguinhas. Quarto poder, para mim, é o controle remoto, aquele que permite deletar o programa de apelo fácil e descobrir, na terça-feira à noite, por exemplo, vida inteligente na televisão. Assim como os privilegiados “tele-observadores”, também descobri que acompanhando o Observatório da Imprensa nunca mais vou ler jornal do mesmo jeito.