Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

A mídia e o leite das tetas públicas

BNDES & GLOBO CABO

Alberto Dines

À primeira vista parece campanha moralizadora ? veemente,
coletiva, aparentemente sincera. Olhar mais atento, porém,
revela que os protestos da grande, média e pequena mídia
contra o aporte de novos recursos do BNDES na Globo Cabo não
passa de disfarce para reclamar uma distribuição de
favores mais ampla e generosa.

Prova disso é a história da incontrolável
compulsão das empresas de comunicação para
freqüentar os guichês oficiais. Não será
preciso evocar os tempos de Campos Salles, no início do século
20, para concluir que nossa imprensa não consegue viver sem
os estímulos do erário.

Durante a ditadura militar e, sobretudo, nos períodos em
que Antônio Delfim Netto tinha cacife, grandes empresas do
Rio e São Paulo foram estimuladas a contrair grandes empréstimos
no exterior, através da Operação 63. Seduzidas
por projetos mirabolantes, endividaram-se pesadamente em dólar.
Algumas jamais conseguiram recuperar-se ? embora o ex-ministro,
às custas dos favores, tenha recuperado a sua imagem.

Ainda no mesmo período, temos o caso da montagem das duas
redes nacionais de TV ? SBT e Manchete ? desprovidas das condições
mínimas para garantir sua viabilização e, não
obstante, materializadas a toque de caixa. O SBT sobreviveu e expandiu-se
amparado nos antigos baús da felicidade. A Manchete, sustentada
pelo Banco do Brasil, jamais foi molestada seriamente pelas demais
empresas de comunicação simplesmente porque, ameaçando
a Globo, precisava ter a sua sobrevida garantida.

Ao longo dos anos 80, os jornalões acusavam-se mutuamente
de serem os "maiores devedores do INSS". Num passe de
mágica, quando Sarney e ACM entregaram os destroços
da Nova República, as monumentais dívidas evaporaram
magicamente. Em plena hiperinflação, no emaranhado
de planos de salvação nacional, um milagre empresarial
padrão Enron.

Antes que a dupla Quércia e Fleury quebrasse o Banespa,
em meados dos 90, o banco oficial paulista alimentou alguns projetos
megalomaníacos na área de revistas. Ninguém
chiou. Cada um tinha a sua boquinha particular e, na sombra, longe
dos holofotes, podiam todos cuidar da vida com tranqüilidade.

O programa de privatização no setor de telecomunicações
interrompeu todos os projetos de aleitamento nas tetas públicas.
Todos, a palavra é esta, todos
os grandes grupos jornalísticos brasileiros com um mínimo
de solvência candidataram-se a abocanhar operadoras, lotes
de concessões de telefonia, fixa e móvel. Não
houve jornal, "chapa branca" ou "chapa preta",
que não proclamasse sua adesão à modernidade
e às leis do mercado. Todos perderam fábulas de dinheiro
nessa louca aventura que comprometeu a atividade central de uma
empresa jornalística ? fazer jornalismo independente.

No mesmo período, o governo federal deixou que os sucessores
da falecida TV Tupi obtivessem uma razoável indenização
de cerca de 200 milhões de reais numa demanda que se arrastava
havia uma década. Ninguém uivou, os lobos conviviam
em paz e isso convinha a todos.

Em 28 de abril de 1999, a Folha de S.Paulo deu o primeiro
estrilo quando denunciou as empresas de comunicação
comprometidas com financiamento de empréstimos no exterior
através do BNDES: Grupo Globo, Abril, RBS e Grupo Estado
[ para ler a íntegra
da matéria
]

Logo em seguida, o Grupo Folha e o Grupo Globo selaram a paz às
custas do sacrifício da Gazeta Mercantil e o lançamento
do diário econômico Valor. Ninguém mais
falou em BNDES, consciências subitamente sossegadas. Viveriam
felizes para sempre, não fosse a mão do destino.

Às turras novamente, volta a Folha a encher-se de
brios moralistas e aproveita a temporada eleitoral para denunciar
a nova operação da Vênus Platinada com o BNDES
como apoio político ao candidato do governo à sucessão
presidencial. Inconfortável na situação de
apoiante dos bandos de Maluf, ACM e Sarney, a Folha tenta
jogar o sócio na mesma situação.

O mais grave desta lengalenga hipócrita é que ninguém,
a palavra é esta, ninguém
está contando toda a verdade. O noticiário apresentado
nas páginas econômicas é parcial, dirigido,
visivelmente suspeito. Os jornais desafetos, esquecidos dos seus
compromissos de imparcialidade, não têm escrúpulos
em manipular matérias sobre empresas que têm ações
na Bolsa de Valores, num visível desrespeito ao leitor-investidor
e às regras vigentes no mercado de capitais.

Se a situação é tão
lamentável com apenas uma empresa de capital aberto (Globo
Cabo), imaginem-se as dimensões e implicações
do vale-tudo quando as ações das grandes empresas
jornalísticas estiverem na Bolsa em decorrência das
recentes mudanças no artigo 222 da Constituição.

Hoje é impossível acreditar no que diz um jornal
sobre a situação econômica do rival. Dentro
em breve, será muito pior: as cotações da Bolsa
estarão inteiramente sujeitas aos humores, jogadas e egos
dos donos da verdade.

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A.D.