Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

A mídia, o médico e o monstro

IMPRENSA & PEDOFILIA

Ivo Lucchesi (*)

Mais uma vez, na surrada fórmula do sensacionalismo, a mídia, sob o pretexto de proteger a sociedade contra os que ameaçam sua integridade, expôs um quadro chocante: o envolvimento de um respeitado médico e terapeuta em abusos sexuais com pacientes adolescentes. Curiosamente, na mesma semana, parte do noticiário destacava o repúdio do Vaticano, na palavra de seu representante máximo, a possíveis práticas de pedofilia das quais alguns membros do clero fariam (ou teriam feito) parte. No mínimo, pareceu interessante a justaposição dos dois fatos, quase como trama de um enredo maior no qual o narrador, de acordo com os seus desígnios ou interesses, direciona o leitor para essa ou aquela cena. O resultado é que o desconfortável assunto a comprometer setores eclesiásticos foi neutralizado pelos ingredientes mais impactantes a respeito do "médico-monstro". Será que o tratamento dispensado pela mídia aos dois episódios serve para demonstrar a diferença entre poder e prestígio?

De início, algo fique claro: o presente artigo não entrará no mérito judicativo ou moral a respeito dos desvios de comportamento ou de personalidade. De tal matéria devem ocupar-se a polícia ? a quem cabe a investigação ? e a justiça ? sobre quem recai a responsabilidade do julgamento, esperando que ambas cumpram suas funções com isenção e eficiência. O que efetivamente se torna alvo desta reflexão é a análise da atitude assumida pelos meios de comunicação, quanto à cobertura do tema, bem como a possível colaboração por eles prestada à profusão de tais perversões.

Mídia e a parcialidade

Primeiramente, há de se observar que delitos sexuais (ou perversões), praticados por padres, médicos, terapeutas, professores, entre outros, não serão mais ou menos graves por conta de quem os pratique; portanto, o foco e a intensidade do "delito" deveriam ser repartidos igualmente, independentemente da função exercida pelo delituoso ou da instituição a que pertença o infrator. A ser forçado a escolher entre o desvio de um religioso e o de um médico, seria levado a crer que abusos sexuais tutelados por seres ungidos pela graça divina haveriam de produzir horror maior, em razão do que professam. Todavia, para esses casos, a mídia (quando noticia) destina-lhes tímido e cuidadoso registro, sabedora (talvez) de que está a lidar com uma "territorialidade do poder", proteção da qual não desfruta um simples profissional liberal, ainda que portador de renomada importância em seu meio. Este breve recorte basta para ilustrar que a imparcialidade da mídia não se sustenta eticamente, menos ainda em países nos quais os órgãos de comunicação estão atrelados a "construções oligárquicas". Nisso, o Brasil é pródigo em exemplos.

A denúncia a incriminar o médico teve início na exibição de uma fita no programa do Ratinho (SBT). A procedência do material está revestida por uma atmosfera um tanto sombria. Segundo consta, foi encontrada num prédio, em meio ao lixo recolhido. A partir da sinopse, algumas indagações podem ser formuladas:

1) será crível que alguém, sabedor de "práticas criminosas" de efeito devastador para o resto de sua vida e de seus familiares, simplesmente jogaria fora a prova de seu "crime", sem ao menos destruí-la antes? É estranho;

2) supõe-se que quem a encontrou terá sido um simples servente do setor de limpeza do prédio e, no caso, tomou a iniciativa de repassá-la ao síndico ou a outro morador que, então, a exibiu no vídeo de sua residência? É estranho;

3) que motivações terão determinado o eventual possuidor da fita encontrada num prédio de classe média alta a eleger o programa do Ratinho, em vez de um órgão policial, ou outro veículo de informação mais prestigioso? É estranho;

4) o que levou o principal telejornal da TV Globo, no dia seguinte, a selecionar, como chamada especial, a referida matéria? É sabido que, mesmo a título de denúncia, o material exibido pelo Ratinho seria passível de punição. Terá sido esse o propósito do destaque dado pela principal concorrente, na expectativa de alguma sanção punitiva se voltar contra um programa que ameaça a hegemonia da emissora rival?

A série de indagações tenta pôr em xeque o comportamento dos bastidores midiáticos e as respectivas conseqüências sobre o perfil do imaginário societário que, receptor dessas estratégias convertidas em pautas e matérias, absorve não apenas o impacto do que o noticiário comunica mas também a assimilação do "jogo" do qual a matéria resulta. Aí pode residir o grande perigo. Há um esquema perverso embutido nesses "compromissos com a verdade". Em artigo anterior, chamou-se atenção para a "armadilha fascista". Caminhamos para um quadro societário no qual tudo é válido para a exposição da "verdade"? Ou então, haverá uma "grande voz" a propor isto: "Dou-lhe a verdade, desde que se validem todos os meios ? inclusive os mais torpes ? para obtê-la".

Será que o aparelho midiático se rendeu aos ensinamentos de Maquiável e Fausto? Em sendo assim, é uma perigosa concessão, ainda mais numa sociedade que não prima, ao longo de sua história, por ser depositária de sólida democracia. A edição dominical do Jornal do Brasil (24/3/02), em primeira página, abre uma chamada nesses termos: "Espionagem, um negócio em ascensão". Quando a "verdade" não é apurada com base em preceitos e procedimentos éticos, a eficácia do bem que dela adviria se vê subtraída pela eficiência potenciária e multiplicadora da deformação com que se perpetua o "império da degradação". Nesse caso, a remoção de um "mal" abre espaço para outro. Assim, entramos na espiral da barbarização societária, contaminando todos os segmentos constitutivos e legitimando o regime do "vale-tudo".

Quem é o monstro?

O ritmo célere da "vida moderna" induz a soluções cada vez mais rápidas para o enfrentamento de problemas sucessivos. Essa é a fórmula ideal a alimentar o processo de trituração da existência ("vida fast food") como sucateamento do "durável" e do "perdurante". As experiências de subjetivação se tornam fragmentos, estilhaços de desconexões, perdendo-se a cadeia de fluxos contínuos e afetando, de forma lesiva, os processos cognitivo e perceptivo, ou seja, o pensamento reflexivo se vai inviabilizando, frente ao assédio das rupturas. Por fim, "ler" e "ver" não passam de reações excitadas, geradas em cérebros estonteados. Este é o papel do verdadeiro Big Brother: alguém vê tudo que outrem julga tudo ver, sem compreender. A fórmula é tão perversa quanto perfeita, se a intenção for a de dominar.

A lógica quantificadora da informação está a serviço desse escopo. Quanto maior for a informação, maior será a dispersão e menor haverá de ser a retenção. Esvaziando-se a memória, inviabilizam-se a reflexão, a interpretação e a emoção. A resposta ao efeito dessa cadeia se localiza no crescente consumo de drogas e antidepressivos. O "sucesso" no alto consumo de "ecstasy", "prozac", "viagra" e derivados decorre exatamente do modelo cultural proposto, centrado na "infantilização", "brutalização" e "deslibidinização". Fora daí, são retóricas moralistas, repressoras e realimentadoras do próprio esquema letal.

Revolta hipócrita

A exposição pública do "escândalo" em torno de uma prática pedófila deixa de ser uma "pílula a mais de horror" e passa a tornar-se um fato jornalístico de utilidade pública, se o recorte cotidiano servir para ilustrar um painel sistêmico. O que interessa questionar é a proliferação das perversões sexuais. De onde elas partem? Como se instalam na matriz do desejo? O que elas acusam? O "ovo da serpente", ou o "olho do furacão" estão em algum lugar.

Vivemos uma época na qual estamos assistindo a um verdadeiro "desfile" de símbolos a enaltecerem o "mito da juventude e da jovialidade", em nome da "beleza" e da "saúde" sempre reiterados pela mídia. Clínicas de rejuvenescimento em profusão, academias de "malhação", em expansão ilimitada, e dietas alimentares, em intensa oferta e diversidade, são algumas facetas da "síndrome de Peter Pan". A antiga dignidade do envelhecimento está banida pelo furor da eterna juventude, parceira da glamourização do adolescente. Todos acham lindinhas as ninfetas sedutoras, exibidas em trajes sumários, nas passarelas dominicais do Fantástico.

Os jornais não desprezam as faturas decorrentes de páginas (e, às vezes, caderno especial) de classificados, com todo o tipo de ofertas para programas sexuais. Preferencialmente, dá-se destaque a mocinhas e rapazes de 18 anos, incrementando o tempero da sedução e da indução. As companhias de telefonia faturam alto com os "telefonemas eróticos". Os provedores da internet estão coalhados de sítios a endeusarem a nudez de jovenzinhos. Capas de revistas se esmeram no tratamento plástico de corpos recém-saídos da puberdade. Agências de modelo se multiplicam na captura de "promessas de futuro rentável". A publicidade joga pesado na fantasia do mundo.

Enfim,o somatório desse "caldo juvenil" aponta para a fermentação de uma "cultura pedófila" da qual o parque midiático é o seu maior promotor. Fatura em estimular e fatura em denunciar. Depois que um "horror" é revelado, todos assumem a revolta hipócrita ou ingênua, clamando por justiça. Afinal, o "médico" é o único monstro? É hora de reavaliar tudo, ou consideremos tudo normal…

(*) Ensaísta, doutorando em Teoria Literária pela UFRJ, professor titular da Facha, co-editor e participante do programa Letras & Mídias (Universidade Estácio de Sá), exibido mensalmente pela UTV.