Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

A TV e a campanha presidencial

ELEIÇÕES 2002

Antônio Brasil (*)

Até que ponto uma decisão do BNDES pode influenciar na cobertura de telejornalismo de alguma emissora de TV e na escolha do nosso futuro presidente da República? Para muitos, perguntas dessa ordem são irrelevantes, não têm nada a ver. Mais uma daquelas constantes provocações e ameaças dos eternos "arautos da catástrofe iminente" ou coisas de crítico de televisão. Afinal, bem sabemos que o histórico democrático e as salvaguardas éticas e morais do nosso jornalismo de TV são suficientes para garantir mais uma eleição isenta de qualquer "interferência" ou "influência". O meio televisivo, mais uma vez, garante manter a sua total "isenção" no processo eleitoral. Que vença sempre o melhor! Mas não custa nada parar um pouco e pensar.

Para bom observador, o nosso noticiário recente já aponta para mais uma ameaça de "nuvens carregadas" no horizonte televisivo. Se não, vejamos. Por que será que o dinheiro público surge inesperadamente para recuperar uma empresa em dificuldades, com dívida assumida de 1,4 bilhões de reais, num mercado de TVs por assinatura no Brasil sabidamente estagnado há quatro anos?

Parece que em nosso país, sobra dinheiro para eleição e para televisão. Mas as "dificuldades" das nossas TVs segmentadas começaram já há muito tempo, desde sua introdução tardia no país. Contrariando uma tendência internacional, as primeiras TVs fechadas surgiram no Brasil somente em 1991 e hoje contam com meros 3,4 milhões de assinantes ? segundo dados da Associação Brasileira de Televisões por Assinatura. Esses números decepcionantes após 11 anos de investimentos maciços são resultado de mais uma daquelas decisões "políticas" que acabam sempre preservando os privilégios econômicos dos poderosos em detrimento do interesse público. Mas, de vez em quando, até mesmo essas delicadas decisões políticas, tão controversas e tão pouco técnicas, acabam dando errado, até mesmo para os poderosos.

É bom relembrar que hoje já há candidato à presidência declarando que a próxima escolha do sistema de televisão digital ? uma decisão que deveria ser primordialmente técnica e que vai afetar a vida de milhões de telespectadores brasileiros ? deveria ser "utilizada" como instrumento de "barganha" nas nossas próximas negociações internacionais. [Veja remissão abaixo para matéria de Nelson Hoineff, neste Observatório, sobre o assunto.] Ou seja, na questão das TVs no Brasil mais uma vez surge uma nova versão do nosso velho "é dando que se recebe"!

Nada demais…

Enquanto isso, as televisões por assinatura seguem a sua via-crúcis. Além de chegarem tarde ao mercado, o que seguramente evitou incomodar as nossas TVs abertas, as pobres TVs por assinatura continuam amargando enormes prejuízos para seus combalidos proprietários e, pior ainda, seguem sem qualquer identidade própria. Não sabem muito bem o que produzir e para quem. Em verdade, não sabem nem mesmo para o que servem. Estão todas numa encruzilhada tecnológica entre ser prioritariamente um veículo de difusão ou de produção de conteúdo. Com uma prestação de serviços e programação abertamente criticadas tanto pelo público como pelos especialistas, essas emissora apresentam um problema crônico ainda maior: o alto custo da assinatura somado a uma enorme taxa de inadimplência.

No Brasil, paga-se (pelo menos, pagava-se) caro para assistir a alguns poucos filmes repetidos ad infinitum, alguns programas de baixíssima qualidade e muitos, muitos comerciais. É isso mesmo. Você paga caro para assistir vários canais de televisão que veiculam comerciais e que vendem produtos 24 horas por dia. Paga-se muito caro até para assistir aos canais "públicos" que deveriam ser gratuitos ? como as TVs do Senado, da Câmara e as comunitárias indigentes, com suas programações do tipo vale tudo, saco de gatos, sem pé nem cabeça. Ou, pior ainda, paga-se muito caro para assistir (se você agüentar) aos canais ditos universitários, que discutem somente "abobrinhas" mas vendem muito as "maravilhas" da vida em nossas "fábricas de diplomas". Um horror.

Todo mundo vende alguma coisa na televisão paga brasileira. Mas nela existem alguns poucos bons programas de prestígio e qualidade ? estes, certamente, com muitos patrocinadores e comerciais de peso nos intervalos. Grande negócio… para os produtores! Não é à toa que a inadimplência cresce. O povo, mesmo de TV fechada, não é bobo. Resolveu, há muito tempo, abandonar as TVs por assinatura brasileiras à sua própria sorte. Em tempos de crise, prefere assistir novelas de graça e não pagar mais por um serviço tão ruim.

Por mais incrível que pareça, não é essa a opinião dos economistas e especialistas em televisão do BNDES. Ao contrário do público consumidor, eles não consideram esse um mau negócio. Muito pelo contrário. Estão dispostos a investir ainda mais e a apitar menos. Continuam sem direito a tomar decisões no conselho diretor da empresa onde investem ("BNDES não integra conselho da GloboCabo", Folha de S.Paulo, 15/03, pág. B 6). Estranho? Absurdo? Talvez. Mas no Brasil, bem sabemos, ter milhões no cofre da firma de candidata à presidência não é considerado nada demais. Logo, gastar milhões em dinheiro público num negócio duvidoso, sem direito a dar opinião e em ano eleitoral, também é, provavelmente, parte do "jogo democrático" e das novas leis… de mercado.

Intrépidos investidores

O importante é que não devemos jamais criticar ou arriscar a nossa tão duramente conquistada "estabilidade financeira". Caso contrário, corre-se o risco de o Brasil se tornar uma grande Argentina. Mas, já que falamos de televisão, também é bom lembrar que os nossos irmãos argentinos, que não têm a nossa "sorte", já possuíam TVs por assinatura muito antes do Brasil e contam hoje com muito mais assinantes. Lá, com toda a crise, 60% dos lares assistem regularmente às TVs segmentadas enquanto aqui no Brasil, com toda a ajuda, não chegam sequer a 10%. Surpreso? Não deveria.

Investir em televisão segmentada no Brasil, principalmente com tecnologia de cabo, em tempos de decisão pela TV digital e com as possibilidades oferecidas pela internet por radiodifusão não parece ser um bom negócio para muitos. Nem mesmo para os intrépidos investidores estrangeiros. Os empresários italianos da Telecom Italia já contabilizaram um prejuízo declarado de 860 milhões de dólares e, discretamente, "pularam fora" da GloboCabo, algumas semanas atrás. Sai investidor estrangeiro e entra o dinheiro da viúva, ou seja, de banco público. Tudo isso numa decisão rápida, ágil e conveniente, mas considerada pelos críticos como, no mínimo, "arriscada" . Ah, é sempre bom insistir: há alguns poucos meses das eleições presidenciais. Mas, como preferem esclarecer os diretores do BNDES entre uma saraivada de críticas e dúvidas, "essas são decisões puramente técnicas".

"Portas da esperança"

E já que o dinheiro está sobrando, o jornal O Globo (sexta, 15/03, pág. 22) faz questão de lembrar que não estão sozinhos ao receber ajuda de última hora do BNDES, um verdadeiro hospital para empresas amigas em dificuldades. Antes que os competidores reclamem dos "privilégios", O Globo revela que mais 284 milhões de reais estão sendo providencialmente destinados para projetos de "outras" empresas de TV por assinatura, internet e canal aberto. Todas, com certeza, são empresas com negócios seguríssimos, de baixo risco e alta prioridade para o interesse público. É uma verdadeira "festa na floresta", melhor do que Natal. É tempo de "eleição" para as redes de televisão!

E o telejornalismo, o que tem a ver com tudo isso? Qual seria o seu poder de ser influenciado ou influenciar a cobertura jornalística das próximas eleições? Para aqueles que ainda se lembram da velha polêmica sobre os debates entre os então candidatos a presidente, Lula vs. Collor, em 1989, não custa nada ficar atento. E repare que naqueles tempos o grau de endividamento das nossas empresas de comunicação não era tão alto. Dívidas ? bem sabemos nós, pobres brasileiros ? dificultam muito o nosso equilíbrio e a nossa independência.

Telejornalismo é a única fonte de informação para a maioria dos brasileiros e isso não vai mudar nos próximos meses. Ainda mais o telejornalismo com modelo hegemônico e enormes índices de audiência, que continua dono de um poder sempre tentador.

Isso talvez explique por que se tem observado nos últimos dias uma grande mobilização por parte da redes alternativas, como o SBT e Record, para criar novos telejornais e contratar "estrelas" do jornalismo de TV. Tudo de uma hora para outra, rapidamente e a peso de ouro. Os responsáveis por essas redes obviamente sabem das coisas. Misteriosamente voltaram a se interessar pelo segmento jornalístico e no poder das notícias em televisão ? aberta é claro. Em tempos de eleição no Brasil, as "portas da esperança" se abrem para alguns, não para todos. Tudo é possível.

Em verdade, pode-se até "investir" e perder muito dinheiro em TV por assinatura ou em internet no Brasil. Mas ganha-se muito mais e de forma muito mais segura ao se investir em "eleição", de preferência no candidato da "situação" e utilizando técnicas comprovadas e eficientes de "telejornalismo marqueteiro". Afinal, bem sabemos, nem todo mundo percebe quando termina um telejornal e começa a propaganda eleitoral. É tudo parecido mesmo. Tudo, é claro, na velha e boa televisão aberta. Telejornalismo e muito dinheiro certamente não elegem um presidente, mas ajudam muito.

(*) Jornalista, coordenador do laboratório de televisão, professor de telejornalismo da UERJ e doutorando em Ciência da Informação pelo convênio IBICT/UFRJ.

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