Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

As dívidas do império

ORGANIZAÇÕES GLOBO
(*)

Yann Le Houelleur, em São Paulo

O Congresso está prestes a entreabrir uma das últimas reservas de mercado brasileiras: as editoras de jornais e as sociedades audiovisuais poderão receber em seu capital investimentos estrangeiros (30% no máximo). As empresas midiáticas poderão ter ações na Bolsa: atualmente, a Constituição lhes impõem proprietários individuais.

Recentemente aprovadas pela Câmara dos Deputados, as novas disposições devem ser ratificadas pelo Senado, pois o governo deseja acelerar sua votação dada a proximidade das eleições. O principal grupo de mídia do país, as Organizações Globo, se empenha em convencer o mundo político a abrir o setor de comunicação aos investimentos estrangeiros.

Entretanto, sublinha o diretor do diário Folha de S.Paulo, Otavio Frias Filho, "o grupo Globo por muito tempo combateu a liberalização do setor". Por que tal mudança? "Este império multimídia se verga sob um endividamento de US$ 3 bilhões!", explica Daniel Barbará, diretor financeiro da agência de publicidade DPZ. E atribui-se às Organizações Globo a intenção de negociar uma aliança com Murdoch [o magnata da mídia Rupert Murdoch, da News Corp].

Custos proibitivos

De janeiro a setembro de 2001, as perdas se elevaram a US$ 137 milhões. Esta hemorragia provém de atividades que gravitam em torno da TV Globo.

Perdas ocasionais pela TV a cabo: US$ 100 milhões. Site globo.com: US$ 19 milhões. Diários, revistas e gráfica no Rio: US$ 18 milhões. A televisão conseguiu lucrar nesses nove primeiros meses US$ 53 milhões. Mas, inquieta-se um especialista, "esta galinha dos ovos de ouro não é suficiente para compensar a ausência de ganhos das outras atividades". Em decorrência do recuo do mercado publicitário (queda de 25% em 2001, em relação a 2000), a TV Globo obteve US$ 495 milhões a menos do que previa. Para complicar, acrescenta Daniel Barbará, "a TV Globo não tem mais a liderança absoluta, como nos anos 70". Hoje, a concorrência é feroz.

Um consultor fustiga "o modelo abracadabra de organização" do conglomerado: "A Globo produz ela mesma todos os cenários de suas novelas! Esta cadeia tem custos de funcionamento proibitivos!"

Para reduzir seu endividamento, as Organizações Globo começaram a vender certos ativos: um hotel em Portugal, participações em operadoras regionais de telefonia móvel etc. Em represália, segundo vários jornais brasileiros, a Telecom Italia estaria prestes a abandonar o grupo Globo no site globo.com, do qual os italianos compraram 30% por alto preço há dois anos (US$ 810 milhões).

"São boatos", limita-se a afirmar Cláudio Ferreira, diretor comercial do grupo. "Com 3 milhões de visitantes por mês, nosso site é o terceiro do Brasil. O globo.com é estratégico para o grupo."

(*) Artigo publicado em 27/2/02 no La Tribune, jornal de economia sediado em Paris, e encaminhado ao Observatório pelo autor