ACIDENTES AERONÁUTICOS
Victor Gentilli
Três acidentes aeronáuticos ocorrerem no mesmo dia é muita coincidência. Dois deles com aviões semelhantes, da mesma companhia, com cerca de uma hora de diferença entre um e outro e desfecho assemelhado é muito mais coincidência.
A cobertura da imprensa deixou bastante a desejar. É certo que não houve uma única informação precipitada que antecipasse julgamentos, responsabilidades ou culpas. E não seria esse o caminho. Mas um pouco de investigação e espírito crítico fariam bem aos jornais e forneceriam informações fundamentais aos cidadãos.
1) É sabido, porque a imprensa sempre divulga, que acidentes aéreos são raros. Mesmo assim, cerca de 90% ocorrem nos momentos de pouso e decolagem. O avião da TAM que fez pouso forçado em Birigui teve certamente uma pane durante a etapa de cruzeiro. Há fortes indícios de que se tratou de pane seca. É improvável que o abastecimento da aeronave tenha tido problemas de quantidade de combustível. O comandante saberia imediatamente se tivesse menos combustível nos tanques, pois a aeronave estaria mais leve e iniciaria a decolagem com menor velocidade. Mesmo que os instrumentos tivessem problemas.
Nenhum leitor, telespectador ou ouvinte soube se, na história da aviação, já ocorreu algum caso de perda de combustível, ou vazamento, ou o que quer que tenha sido, sem que os instrumentos informassem o fato.
2) Um único jornal deu a informação das tentativas mais agressivas do comandante para que o trem de pouso da outra aeronave da TAM superasse os problemas hidráulicos e funcionassem. Por duas vezes, o avião "caiu" algumas centenas de metros para que, ao encontrar um novo colchão de ar, a inércia forçasse os trens de pouso a funcionarem.
Nenhum leitor, telespectador ou ouvinte soube se na história da aviação já ocorreram problemas em trem de pouso das aeronaves Fokker-100.
3) Uma semana antes do acidente com o Brasília da Rico, um Boeing da Varig arremeteu quase na cabeceira da pista de Rio Branco e desviou-se para Manaus. Este observador estava no avião. Poucos minutos antes, uma aeronave da Vasp pousara em Rio Branco. Poucos minutos depois, outra aeronave da Vasp também pousou em Rio Branco. O comandante do Boeing da Varig informou que o aeroporto de Rio Branco não opera com instrumentos e que os pousos visuais são de responsabilidade do comandante. Os grandes jornais brasileiros enviaram repórteres a Rio Branco para cobrir a decisão do TRE que cassou a candidatura do governador Jorge Viana, mas não permaneceram na cidade nem puderam informar com segurança.
Estas informações são confirmadas pelo diário acreano Página 20, que em sua edi&cceccedil;ão de domingo informou que "o aeroporto de Rio Branco não possui o equipamento de navegação conhecido como Instruments Leading System (ILS), que direciona para a pista aeronaves sem a necessidade de auxílio visual. O aparelho funciona através de um sistema integrado de luzes e sinais eletrônicos".
Segundo a Infraero, o acidente pode ter sido causado por uma rajada ou "tesoura-de-vento" acima de 80 nós (cerca de 200 quilômetros por hora). O que a empresa não informa é que se o aeroporto fosse dotado de ILS o comando do Brasília da Rico receberia instruções para fugir do fenômeno atmosférico.
Os cidadãos brasileiros não sabem em que situação opera o aeroporto de Rio Branco, capital do Acre. A rigor, os cidadãos desconhecem as condições em que operam os aeroportos e as companhias aéreas.
