Saturday, 20 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Ave Berlusconi, imperador da mídia

CONFLITO DE INTERESSES

Antônio Brasil (*)

A semelhança entre o nosso Silvio, o Santos, e a sua versão italiana, o Berlusconi, não se resume só ao prenome. Ambos fizeram fortuna com uma televisão popular, adoram programas de sorteios, possuem negócios em diversas áreas, embora alguns sob investigação judicial. Magnatas da comunicação, são homens muito ricos e controlam veículos poderosos. Mas algumas diferenças são significativas. Na política, por exemplo, o nosso Silvio, bem que tentou se eleger presidente. Não conseguiu. Mas o Silvio Berlusconi é primeiro-ministro, pela segunda vez. Agora gato escaldado, depois de ter enfrentado problemas sério com a justiça italiana, volta muito mais forte. Assumiu a liderança política da nação com uma vitória expressiva nas urnas. Seu partido, o Forza Italia, possui ampla maioria no parlamento, numa coligação que caminha unida a figuras truculentas do movimento neofascista como as que pontificam na Allianza Nazionale. Marcham determinados rumo a uma "nova Itália". Mas será "nova" mesmo? E tem gente que acha que a História nunca se repete…

O certo é que o Berlusconi está de volta e, junto com os seus novos aliados, numa luta titânica visando mudar as leis italianas. A última investida foi para conseguir manter o império sob a direção do imperador, quero dizer, do primeiro-ministro. Tudo isso apesar do flagrante conflito de interesses em relação ao cargo que ocupa. Para se ter uma idéia do poder do Silvio italiano, ele e a família (sempre a família!) possuem negócios midiáticos, financeiros e imobiliários por toda a Itália. Ao gravar um documentário para a televisão americana, tive a oportunidade de trabalhar em Milão com o Canale 5, visitar a sede da Fininvest, ficar hospedado num dos melhores hotéis da cidade e visitar diversos palácios. E que palácios! Tudo, absolutamente tudo era de Berlusconi. Ele é provavelmente o homem mais rico da Itália, com uma fortuna estimada em 10 bilhões de dólares.

Mas para nós o que interessa é o seu "quase" total controle sobre a mídia italiana. Berlusconi também é dono de três redes de TV, responsáveis por 43% da audiência, além da maior editora italiana, a Mondadori, que publica um terço dos livros, 38% das revistas e o gigantesco Il Giornale. Dessa forma, o grupo ou a família Berlusconi detém 60% de toda a verba publicitária italiana.

Não satisfeito com esse poder, e em mudar as leis italianas para se manter à frente dos seus negócios, o Silvio italiano quer agora controlar também as redes de TV estatais, apontando aliados fiéis para cargos importantes, inclusive no jornalismo. E os efeitos já são visíveis. Em 2 de março, uma aliança de centro-esquerda formada por diversos partidos reuniu cerca de 300 mil manifestantes que invadiram as ruas de Roma num grande protesto contra as políticas de Berlusconi. Foi a maior manifestação na Itália nos últimos cinco anos. Após a derrota humilhante nas últimas eleições nacionais, as forças de centro-esquerda parecem estar se recuperando e partem para a luta contra "Il Cavaliere".

Numa decisão que já reflete os novos tempos, a principal rede italiana, a RAI 1, contrariando antigas práticas resolveu não transmitir ao vivo o megaevento jornalístico. Essa postura da RAI gerou uma barragem de críticas por toda a Itália e Europa, denunciando o clima de "neocensura" na televisão estatal. Até a Federação Internacional de Jornalistas (IFJ) se manifestou contra essas ameaças, relembrando os princípios de liberdade que sempre regeram as TVs públicas européias. A solução encontrada, na última hora, foi relegar a cobertura à RAI 3, a menor das redes e que tradicionalmente sempre foi controlada pelos próprios partidos de esquerda. E isso é só o começo, tanto para a direita como para a esquerda. Essa "novela político-televisiva" ainda promete capítulos emocionantes.

Aquela musiquinha…

Para sábado, 23 de março, os sindicatos italianos estão convocando suas forças e esperam invadir novamente Roma com mais de 500 mil manifestantes. Dessa vez, eles lutam contra as investidas do primeiro-ministro e seus aliados para mudar a legislação trabalhista italiana. Berlusconi procurou menosprezar essa mobilização ao declarar que "ignora as manifestações de radicais" ? mas, com certeza, novamente o passado assombra. Ele perdeu o cargo de primeiro-ministro numa outra onda de protestos e manifestações, em 1994.

No Brasil, a imprensa e principalmente o noticiário televisivo, por motivos óbvios, não têm dado muito espaço às lutas na Itália. Mas certamente tanto o nosso Silvio, o Santos, como Roberto Marinho estão de olho no que acontece por lá. Em clima de decisões no Congresso para regulamentar a abertura ao capital estrangeiro dos nossos veículos de comunicação, com direito à crise aberta na Abert, todo o cuidado é pouco.

Tanto eles como nós, temos muito a aprender com o exemplo italiano. Essa "abertura ao capital estrangeiro" pode nos trazer algumas surpresas. Vocês já imaginaram se o Silvio italiano, o Berlusconi, resolver entrar no mercado brasileiro? Quem sabe se associa ao nosso Silvio ou ao nosso Roberto para não só investir em televisão, mas para ensinar aos brasileiros a fazer "política"?

Talvez essa possibilidade de investimento no Brasil se torne até uma resposta ou vingança contra as desastradas tentativas da Globo de enfrentar o império televisivo do Berlusconi com a TeleMontecarlo, nos anos 80. Lembram-se? A investida brasileira na Itália foi um grande fracasso. Perdeu-se muito dinheiro e algumas torres de transmissão no caminho que, segundo a imprensa na época, teriam sido dinamitadas por desconhecidos. O Canale 5 costumava transmitir as novelas da Globo e teria que "competir" com a nova empresa da Globo. Obviamente, não deu certo. Mais um ponto para o Berlusconi. O passado, sempre o passado.

Abrir os nossos meios de comunicação em momento de crise e "brigalhada na Abert" [veja remissão abaixo], não necessariamente garante investimentos de boa qualidade, principalmente em área estratégicas como o jornalismo. Os conflitos de interesse parecem ser inevitáveis, apesar das tentativas de salvaguardas. A nossa história, assim como a italiana, está repleta de situações e empresários semelhantes. Além disso, hoje, mais do que nunca, os avanços do poder econômico e da direita não reconhecem fronteiras nem limites. Afinal, bem sabemos, para muitos as leis e as constituições foram feitas para serem mudadas conforme os interesses do momento.

No Brasil há enorme pressão para uma abertura acelerada de mercado. A justificativa é de que precisamos de grana. Grandes empresas, como a Globopar, estão em dificuldade e os investimentos internacionais parecem ser a melhor e mais cômoda solução. Criar mercado interno leva muito tempo, dá trabalho e não é uma tradição de grande parte dos nossos empresários. Das capitanias hereditárias às últimas "privatizações", a tendência costuma ser ganhar dinheiro rápido, guardar o dinheiro no cofre e remeter para o exterior.

Neste cenário, talvez estejamos diante da possibilidade de muitas surpresas. Não custa nada imaginar uma parceria internacional entre os dois "silvios". Quem sabe, dessa vez, o nosso Silvio aprenda com o Silvio italiano a se tornar ainda mais rico e, até, presidente da República… Fazer televisão popular, mudar leis e constituições, não precisa ensinar: nós já o sabemos muito bem. De todo modo, seria bom, em tom de advertência, ir ensaiando aquela musiquinha dos programas de domingo, só que numa versão "adaptada" ao novos tempos de abertura de mercado: "Lá-lá-lá-lá, lá-lá-lá-lá, Berlusconi vem aí!"

(*) Jornalista, coordenador do laboratório de TV, professor de Telejornalismo da UERJ e doutorando em Ciência da Informação pelo convênio IBICT/UFRJ.

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