Monday, 15 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Bernardo Kucinski

CRÍTICA DIÁRIA

"Cartas Ácidas", copyright Agência Carta Maior (www.agenciacartamaior.com.br)

"4/03/02 – A fragmentação do bloco de poder

O Globo e JB anunciam em primeira página um ?agravamento? da crise entre PFL e PSDB. O JB deu manchete à nova blitz da Polícia Federal em empresas do Maranhão, uma operação que reduz ainda mais o espaço para uma recomposição. Seja porque revela a Polícia Federal como novo protagonista da política dotado de autonomia relativa, seja por causa da disposição ofensiva de FHC. O Globo dá primeira página à saída de Sarney Filho do governo. Mas a Folha sinaliza que a própria Roseana recuou e quer delimitar o confronto, acusando uma banda podre do PSDB e não o tucanato em geral.

Briga de foice no escuro

O painel da Folha de hoje atribui a dirigentes do PT a avaliação de que tornou-se impossível uma aliança PSDB-PFL já no primeiro turno. As feridas foram abertas e não vão cicatrizar facilmente.

O golpe fulminante no PFL

Depois de seis anos no poder, FHC parece ter aprendido a arte de fazer política ensinada por Maquiavel. A operação da Polícia Federal contra a empresa de Roseana é Murad é um golpe fortíssimo, porque expõe os Sarney como clã e um setor atrasado da burguesia, além de sinalizar ao PFL de que outras operações desse tipo podem atingir o partido. Basta lembrar o caso de Curitiba. Deve ser por isso que Bornhausen, depois de um arroubo de valentia, recuou e está recomendando cautela ao PFL.

Os efeitos no imaginário coletivo

A grande dúvida hoje é a reação do eleitor. Essa se dá no plano do imaginário. A imagem bonita de Roseana poderá ser deformada por provas concretas de corrupção, mas poderá ganhar ainda mais simpatia se derrubar as acusações, mesmo com artifícios legais. Roseana reagiu emocionalmente, e seu rosto transtornado transmitia angustia pela TV. Isso contraria sua imagem construída artificialmente com muito cuidado. Agora seria o momento de um bom marketeiro trabalhar a imagem da mulher só, perseguida por um sistema poderoso. Mas até o marketeiro dela já foi chamado de volta por FHC.

Uma nova guerra de dossiês: a mídia como instrumento

Tudo isso passa pela mídia. Por isso, a ofensiva tucana tem de ter apoio dela. Mais do que isso: o apoio ostensivo da mídia é um indício importante de que a operação policial teve objetivos políticos. A prova está na reportagem de 6 páginas na Época que circulou na tarde de sábado, quando a operação só foi desencadeada na tarde da sexta-feira, e só terminou às dez da noite.

Época não poderia ter dado a matéria se já não tivesse em mãos o dossiê, antes da operação. Sua reportagem com fac-símiles de documentos, de um inquérito supostamente correndo em segredo de justiça, tem de fato a cara de um dossiê. César Maia, na Folha de hoje, acusa Época de cumplicidade com o governo, dizendo que desde a noite de sexta-feira a matéria estava no site da revista e desde o sábado já havia outdoors sobre a nova capa.

Outro indício de que alguma coisa está errada é que faltou menção da reportagem na Carta do Editor. Paulo Moreira Leite, que deveria se orgulhar do ?furo?, já que IstoÉ não deu nada e Veja só conseguiu cozinhar notícias das agências, nem mencionou o tema da capa. Tirou o corpo fora? A conferir.

A KGBnização da política brasileira

A expressão é de César Maia na sua contundente entrevista à Folha. Ele acusa FHC de usar a polícia para fazer política, como no regime stalinista. Na mesma linha, mas com embasamento teórico, a Folha traz em sua página A6 uma importante entrevista com o cientista político Renato Lessa. Ele teoriza sobre a volta dos ?dossiês de gaveta?, usados pelo governo conforme a conveniência política, denuncia a hipocrisia de FHC no terreno da reforma política e a ?judicialização do processo político?. Diz que a coalização que está no poder desde 1994 tem ?uma concepção minimalista de democracia?.

A corrupção em Paulo Maluf

Todos os veículos de fim de semana destacaram, com clareza, a nova denúncia de superfaturamento em obras de Paulo Maluf na prefeitura de São Paulo. As acusações são gravíssimas e partem de funcionários da Mendes Júnior, que controlavam o caixa 2 das obras. Não são fatos novos. IstoÉ não esqueceu de relacionar o surgimento das denúncias ao fato de, na semana anterior, Maluf ter despontado nas pesquisas muito na frente de Alckmin.

A pauta a serviço de FHC

A manipulação da informação começa no próprio processo de seleção daquilo que vai ser publicado. A escolha dos tópicos implica em juízo de valor sobre sua importância num processo político sobre o qual se deseja intervir. Neste final de semana, ficou muito claro o engajamento dos grandes veículos na campanha de Serra, pelo tipo de reportagens especiais programadas.

Vejamos: os principais trunfos de Roseana são o fato de ser mulher e seus índices nas pesquisas de opinião? Pois bem, Época programou uma matéria especial de dez páginas sobre feminismo, entrevistando as lideranças do movimento, com o objetivo de desqualificar Roseana como feminista. Ela é retratada como usurpadora do ideário feminismo. O título é ?A conspiração feminista?. Algumas frases: ?Roseana surge em cena aberta vinda de outros confins (…) ela jamais vestiu a camisa do movimento (feminista)…?. A Folha pautou a questão do uso eleitoral das pesquisas, outro mecanismo que inflou Roseana e incomodou os tucanos.

Como se constrói uma mentira

Tudo começou com uma crônica de Eliane Cantanhêde na semana passada, em que a partir de alguns encontros entre políticos tucanos e do PSDB, encontros do tipo que estão sempre acontecendo, ela postula que há um acordo entre os dois partidos para limpar a disputa eleitoral, deixando só Serra e Lula no segundo turno. No sábado, a Folha deu manchete interna ?Pacto informal do PT e PSDB em apoio ao TSE?. A manchete é uma mentira, e está em desacordo com o próprio texto da matéria. No dia seguinte, a Folha não só não corrigiu, como seu repórter Mário Magalhães repetiu a falsa assertiva no meio de uma outra reportagem sobre o tema, na página A16, tendo como fonte a assertiva falsa da Folha do dia anterior. Hoje é Boris Fausto que já elabora a partir da falsa informação como fato dado. Assim, se transforma uma mentira numa verdade, repetindo várias vezes. A técnica foi inventada por Goebbels, ao que parece, novo guru da Folha. Essa mentira tem por objetivo legitimar politicamente o golpe dado pelo TSE, sugerindo que o PT também o apóia.

Corrupção no governo FHC

O aspecto mais paradoxal do dossiê contra Jorge Murad e Roseana é que ele se refere à corrupção nas principais agências federais de desenvolvimento regional, Sudam e Sudene, durante o governo FHC. Tanto assim que FHC mandou fechar as duas. O caso é de corrupção geral na máquina do governo FHC, e não especificamente no governo do Maranhão.

Josias de Souza mostra na Folha de domingo que essa corrupção continua. Dessa vez, no programa bolsa-escola do Ministério da Educação, no Estado do Pará… ?Sob Paulo Renato, escola cria bolsa avacalhação? é o título da reportagem na página A18, em que Josias diz que há denúncias de casos semelhantes também no Piauí e Mato Grosso.

Entrelinhas

Fragmentos de informação apontam para o caráter político das ação contra Roseana. O Globo do sábado diz que ?fontes da Polícia Federal confirmaram que o ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira, estava informado de todos os passos da preparação e execução do plano?.

IstoÉ informou que a resolução do TSE foi acertada entre Miro Teixeira, Nelson Jobim e Celso Lafer para beneficiar Serra, num encontro em Angra durante o reveillon (?A lei de Angra?).

E o Estado de S. Paulo de hoje, na página A4, informa que a ação da Polícia Federal foi baseada num informe do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, que combate a lavagem de dinheiro, dirigido pela mulher de Nelson Jobim, Adriane Sena.

Não deixe de ler

A entrevista com Renato Lessa, na página A6 da Folha de hoje, com o título ?TSE arrebentou PFL e a oposição?, diz Lessa."