Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Carapuças balzaquianas

MÍDIA REGIONAL

Allan de Abreu e Cirilo Braga (*)

Atire a primeira pedra quem, ao ler os textos de Balzac reunidos no livro Os jornalistas, não cedeu à tentação de distribuir carapuças entre os coleguinhas jornalistas do interior ou vestir a sua própria. Os textos, publicados entre 1830 e 1840, são de uma atualidade desconcertante para os "sujadores de papel" que povoam as redações pelo interior afora.

A começar dos próprios donos, pessoas geralmente sem capacidade para entender o que quer que diga respeito a jornalismo, e que utilizam o jornal como instrumento de poder e balcão de negócios.

Claro que nos jornalões das grandes cidades esses indivíduos relacionados à palavra "jornal" também têm seu habitat natural. Mas, longe das capitais, a arrogância intelectual e o álibi de um bom departamento jurídico esvaem-se, e o que se vê é o jornalista na carne: ignorante, despreparado, prepotente e com um simples arremedo de ética, que facilmente escorrega da consciência para os fundilhos do bolso, na forma de dinheiro, cheque ou em espécie mesmo: roupas, cargos em assessoria, almoços. Essa última isca costuma atrair aqueles com a consciência mais dividida ? afinal, pensam, comida pode render o estômago, mas não o escrúpulo. Ledo engano.

Já no contato com as fontes (não tente explicar ao repórter do interior que ele é um mediador social, pois ele só se considera mediador, em primeiro lugar, do capital financeiro das fontes e, em segundo, dos seus interesses) os jornalistas estão para elas como o piloto de Fórmula Indy para a mureta de proteção: nada acontece se ele guardar uma distância ainda que mínima, e qualquer vacilo pode ser fatal.

Em seu inferno e céu de todo dia, o jornalista do interior caminha no fio da navalha. Jornais existem em quantidade assombrosa. Já a qualidade são outros quinhentos. Pois, enquanto houver vaidade haverá sempre fregueses para colunas desfocadas e honrarias a granel. "O jornal é o jornal e o político é o seu profeta. Ora, os profetas são muito mais profetas pelo que não dizem do que por aquilo que disseram. Não há nada mais infalível do que um profeta mudo." Muitos poderiam se espantar ao ver que, nesses tempos em que a informação se democratiza e viaja pelo ciberespaço, pequenos jornais ainda consigam sobreviver agarrados a idéias e conceitos paleolíticos.

Como um reality show

Aqui, um recado: aos acadêmicos midiáticos que discutem, enclausurados nas cátedras, as diferença entre modernidade e pós-modernismo, saibam que, nas redações depauperadas do interior, expressões do jornalismo romântico/piegas ? como "fulano de tal, interlocutor mais poderoso do prefeito", "nobre causídico" ou "nosso edil" ? são estampadas nos jornais a torto e a direito. Simplicidade e objetividade não costumam contar muito além de um raio de 100 km em torno da capital.

E não se pergunta o que quer o leitor: serve-se a ele, no café da manhã, uma coalhada não de informações, mas de opiniões geralmente de mão única: a favor ou contra o prefeito de plantão.

Justiça seja feita, nada é diferente nos departamentos de jornalismo das emissoras de rádio. É possível identificar logo na portaria os personagens definidos por Balzac em Monografia da imprensa parisiense e Os salões literários. Diante da proximidade do poder e da sensação de influência que a vida em um jornal ou rádio interiorano oferecem, poucos resistem a aboletar-se nas poltronas da elite para fazer seu jogo. Alguns precisam ser "de circo" para andar na corda bamba das pressões, fazer malabarismos para não ceder à "jabalândia" ou se tornar um trapezista sem rede de proteção. A esses restará provavelmente a alcunha de "repórter maluco".

A percepção de que "a crítica se tornou uma espécie de alfândega para as idéias" soa até branda; seria um armazém de secos e molhados se em 2002 não viesse disfarçada de "editorial" ou como manchete de capa. Os dias passam e tudo o que se consegue é produzir um universo teatral como se as redações fossem um desses reality shows. Quem vai sair da casa? Quem não está seguindo o roteiro? Quem atravessa o samba do ser-ou-não ser governo ou oposição? Cartas para a redação.

(*) Jornalistas em São Carlos, SP