Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Cassiano Elek Machado

ENTREVISTA / GAY TALESE

"Gay Talese tira as roupas da América", copyright Folha de S. Paulo, 16/03/02

"Se fosse fazer um perfil de si mesmo, o detalhista Gay Talese obrigatoriamente gastaria uma bela coleção de parágrafos apenas para descrever os ternos bem cortados, as gravatas, as camisas engomadas e os suspensórios que usa desde os tempos de colégio.

Filho de um alfaiate italiano que emigrou para uma pequena ilha em Nova Jersey, Talese era famoso já aos 15 anos pela elegância, até exagerada, dos trajes que passeava pela High School.

Foi lá mesmo, nessa mesma idade, que o garoto engravatado começou a construir a única elegância que ofuscaria o estilo de seus ternos. Seu jornalismo.

Do discreto jornaleco local ?Ocean City Sentinel-Ledger? ao gigante ?The New York Times?, onde ficou por 12 anos, foi um pulo; e outro pulo, muito maior, foi o que Talese deu usando o diário nova-iorquino como trampolim.

Nas páginas do jornal, que mais tarde seria tema do seu famoso livro ?O Reino e o Poder?, ele começou a praticar o que seria conhecido como ?novo jornalismo?, um gênero que trazia para as reportagens artifícios literários. Levou o universo dos livros ao jornal e o do jornal aos livros.

O mais barulhento de todos eles, foi o volume ?A Mulher do Próximo?, que publicou em 1980. Fruto de nove anos de pesquisas, nos quais chegou até a ser gerente de uma casa de massagens, o homem dos trajes elegantes mergulhou como ninguém na América sem roupas.

O livro está sendo reeditado no Brasil agora pela Companhia das Letras. Foi para falar dessa obra que Gay Talese concedeu a seguinte entrevista por fax para a Folha.

Nela, o escritor e jornalista de 70 anos comenta a sexualidade norte-americana de hoje e se despe para exibir idéias polêmicas sobre a Aids. Leia a seguir alguns trechos da entrevista.

Folha – O sr. se considera azarado por ter publicado ?A Mulher do Próximo?, fruto de nove anos de pesquisa sobre o sexo nos Estados Unidos, poucos meses antes de que se detectassem os primeiros casos de Aids na América? O livro não ficou particularmente datado?

Gay Talese – Não. Meu livro é a história de um período da história americana. É um livro sobre a revolução sexual norte-americana da metade do século 20, que continua até hoje, mesmo com a Aids.

Ninguém jamais vai admitir na imprensa, mas a Aids sempre foi justamente marginalizada. É o flagelo do homem gay, sim, mas essa não é toda a verdade. A Aids vem do sexo gay e das drogas, agulhas contaminadas sendo passadas de mão em mão e de saunas apinhadas de estranhos, com um tipo de promiscuidade tão arriscada quanto a dos viciados. Mas a mídia norte-americana não tem coragem de apontar o homem gay como o principal responsável pelo problema da Aids, por isso que as coisas estão como estão, e não serei eu quem fará dessa questão uma grande batalha política ou social. Certamente não é politicamente correto aparecer como o grande perseguidor de gays, o que, de resto, eu não sou.

Folha – No livro, o sr. trata das juventudes norte-americanas dos anos 50 a 70. O que o sr. pensa dos jovens de agora dos EUA?

Talese – O jovem norte-americano não é particularmente nenhuma coisa. Não é conservador, não é radical nem em cima do muro. A cara do jovem americano hoje é muito difícil de ser identificada, o que não acontecia na metade do século 20. Mesmo fisicamente. Hoje existe uma influência grande asiática e de vários outros rasgos mais internacionais misturados no que sobrou da maioria americana: branca, pele clara, loira.

Também posso afirmar que hoje existe mais sexo nos campi, mais fornicação para lá e para cá entre os estudantes do que havia nos anos 60. A diferença é que hoje ninguém liga, os pais não reclamam, a faculdade é indiferente.

Folha – No último capítulo de ?A Mulher do Próximo? o sr. fala de experiências sexuais de um tal Gay Talese. Qual foi a sensação de ser personagem de seu próprio livro?

Talese – Achei que falar sobre mim mesmo era o único jeito de reunir todos os temas que o livro circunda. Muitos me perguntam se não me arrependo de ter me exposto. Não. Penso que se fizesse de outro jeito estaria sendo evasivo, uma tentativa de me esconder por trás da minha faceta repórter.

No meu caso, devo dizer que nada do que descrevi foi inventado. É o que aconteceu para as pessoas sobre as quais escrevo, nos lugares que descrevo, o que faz de meu livro um retrato da vida privada na América, mais especificamente das fantasias masculinas e da negociação que as mulheres fazem com essa fantasia.

Folha – No livro o sr. usa personagens reais, descrevendo os lados obscuros deles. Quantos casamentos o sr. acha que seu livro destruiu?

Talese – Se acabei com casamentos? O meu mesmo não acabou, e eu era a vítima mais imediata. Este ano eu e Nan completamos nosso 42? aniversário. Os casamentos não duram por várias razões, mas uma das razões pelas quais tantas pessoas se divorciam é que eles acham que a ?felicidade? é a prioridade suprema, enquanto a felicidade de verdade (como romance, sexo, ou ganhar na loteria) é encarada como alegria de curta duração.

Assuntos muito mais sólidos mantém casais juntos, e a grande qualidade pode ser resumida em uma palavra: respeito. Nada é mais importante do que isso.

Folha – O livro foi muito criticado na época em que foi lançado, gerou muita polêmica. Recentemente, quando foi reeditado em versão de bolso, o sr. colheu uma porção de elogios rasgados. Ao que atribui essa mudança?

Talese – ?Mulher? foi realmente muito criticado na época. Mas muitos críticos que escreveram sobre o livro estavam irritados com ele antes mesmo do lançamento. É que ele foi precedido de uma fanfarra enorme em torno da história de eu ter passado nove anos para fazê-lo e, sobretudo, de eu ter recebido, três meses antes do livro sair da gráfica, uma oferta recordista de Hollywood pelos direitos do livro. Eu recebi US$ 2,5 milhões. Por isso tudo, muita inveja circundou ?A Mulher do Próximo? na época.

Folha – Quem foi a pessoa mais importante para a sexualidade norte-americana do século 20?

Talese – Hugh Hefner, o criador da revista ?Playboy?. Ele permitiu que nos imunizássemos à nudez.

?Desprezo rótulos como o novo jornalismo?, diz Talese

Folha – O sr. costuma rejeitar o título que lhe é atribuído de ?pai do ?novo jornalismo?, gênero que introduz técnicas da narrativa literária em textos jornalísticos. Por que o sr. se irrita tanto com isso?

Talese – Sou um escritor sério com relação a meu trabalho, alguém que se importa muito em escrever bem. Eu desprezo rótulos como o ?novo jornalismo? pois muitos repórteres preguiçosos se escondem por trás deles.

Minha não-ficção é sempre bem fiel à realidade e, modéstia à parte, posso dizer que é bem escrita.

A descrição da história da comunidade Sandstone poderia ser um romance de não-ficção, do mesmo jeito que ?A Sangue Frio?, de Truman Capote, o é. Mas eu queria escrever meu livro como fato, não ficção, e isso era muito ousado naquele tempo. Na verdade, seria ousado até hoje.

Folha – O sr. ganhou projeção no jornalismo com textos sobre o que chamou de ?perdedores?, com os quais dizia se identificar. Bem-sucedido, milionário, o sr. acha que poderia fazer uma autobiografia?

Talese – Pois é exatamente o que estou fazendo. Meu próximo livro, que devo terminar em dez meses, revisita toda a minha experiência de repórter. De certo modo é uma sequência a ?Unto the Sons? (Para os Filhos), o livro que fiz sobre minha herança italiana.

No livro escreverei acerca de tudo o que aprendi sobre estar vivo, desde minha infância como filho de imigrante em Nova Jersey até minhas experiências recentes. Descrevo quando aprendi a datilografar, meu período no ?The New York Times?, de 1953 a 1965, o meu empenho em trabalhar a não-ficção como um método narrativo que adota técnicas ficcionais, mas sempre, sempre, é uma reportagem confiável, mesmo quando reporta o que passa na imaginação de alguém.

Folha – Qual dos seus trabalhos o sr. considera mais literário?

Talese – ?A Mulher do Próximo? é bastante novelesco, especialmente a situação envolvendo os casais Bullaro e Williamson. Você poderia começar um livro com o capítulo oito, logo passar para a introdução ao personagem John Bullaro e trabalhar a situação de casamento e adultério consentido de John e sua mulher. Seria um livro separado. E bastante literário em forma, descrições, diálogos.

Folha – O sr. não tem planos de pular a cerca da ficção, como fez seu colega Tom Wolfe, com ?A Fogueira das Vaidades??

Talese – Eu gosto do que estou fazendo, não sinto necessidade de trabalhar com invenções.

O trabalho que estou desenvolvendo agora é, embora factual, muito criativo e bastante diferente de tudo o que já tentei fazer antes, e diferente de tudo que já vi alguém tentar fazer.

Folha – O sr. já deu pistas aqui e ali de que o livro teria algo sobre Lorena Bobbitt, que cortou o pênis do marido, de que haveria uma passagem na China e que seria um livro autobiográfico. Como isso tudo se conectará?

Talese – Meu novo livro será muito semelhante ao cinema de Fellini, ou de Robert Altman. Terá muitos personagens entrelaçados em diversos enredos. Sim, vai haver uma mulher chinesa, vou falar de John Bobbitt, também de um xerife racista do Alabama que lutou contra Martin Luther King e de muitas outras pessoas com históricos diferentes, todos interagindo comigo na visão da América de 1950 a 2000."