Sunday, 03 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Coisa de jornal

Carlos Alberto Furtado de Melo (*)

 

O

s recentes fatos em torno do grampo telefônico no BNDES, que culminaram com a demissão de seis importantes membros do governo, têm servido para a reflexão em torno do papel da imprensa e seus efeitos políticos. Consta que Luiz Carlos Mendonça de Barros, seu irmão, José Roberto, e André Lara Resende resolveram pedir demissão do governo num sábado à noite. Na quinta-feira daquela semana Luiz Carlos comparecera ao Senado e fora triturado pelos senadores. Ouvira do senador Pedro Simon (PMDB-RS) – num dos mais memoráveis discursos dos últimos tempos — o conselho de retirar-se do governo dentre outros motivos porque a imprensa não lhe deixaria em paz. “Essa gente quando pega, pega pra valer”, disse o senador num tom fraterno.

O ministro, o presidente do BNDES e o secretário do comércio Exterior do governo Fernando Henrique aguardaram até o final de semana para constatar que Simon estava certo. As principais revistas semanais do País foram unânimes: estamparam o ministro em suas capas, deram mais oxigênio às suspeitas, especularam a respeito da lisura do processo de privatização, embora internamente acrescentassem muito pouco, ou nada, ao revelado até ali. “Essa gente quando pega, pega mesmo pra valer”.

No domingo à noite aqueles importantes membros do governo, entregaram seus cargos ao presidente da República e deram por finda a queda-de-braço que ali se explicitara. Retiravam-se do intrincado jogo em que os partidos da aliança que sustenta o governo se digladiavam pela ampliação de espaços no próximo ministério, de olho no cabalístico ano de 2002. Abandonaram, talvez, a possibilidade da adoção de novos caminhos que se contraponham (ou complementem) à política econômica fundamentalista do “laissez faire, laissez passer” que tem determinado uma enorme dependência nacional em relação aos capitais especulativos de curtíssimo prazo. Saíram do governo e sumiram das bancas.

Luiz Carlos Mendonça de Barros voltou à primeira página, no O Estado de S. Paulo, contando sua versão do movimento que o derrubara. Mas aí Inês já era morta, já se fazia escuro. Hoje, há um eventual ministério da Produção à busca desesperada de um ministro, há um sorumbático presidente à procura de um projeto e uma parcela da imprensa sob suspeita de incompetência ou má-fé. E um país à beira do precipício. O curioso é que as críticas, as investigações, as suspeitas que poderiam surgir durante a campanha eleitoral só apareceram efetivamente depois do jogo terminado. Evidentemente porque só políticos sabiam dos grampos e do Dossiê de Cayman. Certamente, assim como Papai Noel e mula-sem-cabeça existem, nenhum jornalista ouvira falar dos casos durante a campanha.

Mas ironias à parte, por que as “denúncias”, os trechos “picantes”, as palavras “grosseiras”, a “incontinência verbal” do ministro sumiram da mídia? Afinal, não fora a própria imprensa que mencionara a existência de “mais ou menos” 57 fitas? Onde estão as novas revelações que poderiam fazer “estremecer a República”? Tomaram Doril! O pobre e desinformado leitor, obrigado a consumir as notícias do “escândalo” da moda, ficou, de repente, solitário e procurando com lentes de aumento as últimas notícias no garimpo das páginas pares e nos rodapés. Quem conseguiu uma ou duas fitas não conseguiria mais uma ou duas, pelo menos?

As suspeitas eram infundadas e não mereciam tão estrondosa divulgação, ou tinham fundo de verdade e, agora, se procura esfriar o caso, sabe-se lá por quais motivos.

Mendonça de Barros, o ministro, envolvera-se em várias frentes de disputa política. Sua queda interessava a muita gente. Até aqui ficou constatado que seu verdadeiro erro foi político — não faz parte da “boa” política enfrentar tantos interesses de uma só vez. Questões de relevo moral, ético e penal, se possuem, de fato, algum fundamento não foram até aqui comprovadas. Se argumentarem que o caso ainda está sendo apurado, fica, então, admitido que se denunciou sem antes ter-se provas mais concretas. Acusou-se por meio de evidências duvidosas, o que é pouco consistente para se acusar quem quer que seja. Se o que se tem são apenas indícios e evidências, o que justifica a denúncia estrondosa, amplificada nas capas e nas primeiras páginas? Para uns, o furo. Para outros, os interesses que não estão muito claros. Faltaram critérios e cuidados. Mas, o pior é que, de repente, se parou de acusar sem dizer o porquê.

Que interesses políticos estão envolvidos na divulgação das fitas que são capazes de, num estalo de dedos, interromper um processo que muitos comparavam ao impeachment de Fernando Collor? Sinceramente, não é possível definir se a imprensa foi irresponsável, vazia e inconseqüente em levantar o caso a que não deu continuidade, ou se foi submissa ao tirá-lo de destaque. A quem serviu? A resposta pode estar no axioma de que “isto é coisa de jornal”, como se diz por aí.

Cabeça, tronco e membros

Não raro ouvem-se expressões carregadas de desdém que identificam o conjunto da imprensa como “jornal”: “Ah, isso é coisa de jornal”, “isso só tem importância para os jornais venderem mais”, “jornal é assim mesmo”. Mas será mesmo que é só isso? Será que os jornais e a mídia em geral são mesmo tão sem importância como imaginam algumas pessoas? Será que a imprensa de um modo geral move-se “apenas” pelo ganho fácil e rápido ? Ou será que a imprensa, por outro lado é só instrumento dos interesses políticos de partidos e grupos econômicos? A imprensa é muito mais do que isso. Ela é mesmo um ator político com cabeça, tronco e membros. Age com sua própria lógica e cultiva postulados ideológicos próprios os quais variam de jornal para jornal.

O caso dos grampos serve-nos de mote para a reflexão do papel da imprensa, uma vez que reina uma enorme confusão quanto ao lugar da mídia no contexto político. E nesse ponto é importante que nos apropriemos do caso de Luís Carlos Mendonça de Barros para darmos seqüência ao debate sobre a imprensa que esse importante e necessário OBSERVATÓRIO vem realizando há algum tempo, uma vez que já não nos é permitido o senso comum e nem é mais possível acreditar que “apenas” o interesse jornalístico dê o tom das investigações e coberturas da imprensa.

Há jornais no Brasil que criticam a todos. Criticam sobretudo os políticos e os partidos. Criticam pela imoralidade e até pelo excesso de moralismo; pela promiscuidade e pelo purismo. Mas, ao expressarem seus ideais, ao reproduzirem e conduzirem ao tipo de convicção de ideologia que propugnam, os jornais agem, também, como atores políticos, assim como os partidos. E, ouso acreditar, com muito maior força política e capacidade de mobilização.

Todos os partidos políticos um dia pensaram em possuir o seu jornal de penetração nacional. Com maior ou menor destaque, quase todos falharam. Os partidos donos de jornais foram efetivos apenas nos regimes autoritários. Por outro lado, nunca foi conveniente aos jornais atrelarem-se, explicitamente, aos partidos. O máximo a que se permitem é apoiar programas e causas, distanciando-se dos projetos. Quando fazem o jogo, momentâneo e circunstancial, dos partidos o fazem por interesses próprios, afastando-se, em seguida, o mais rápido possível. Exceções com Samuel Wainer e, em certa medida, com Fernando Collor de Mello comprovam a regra.

Wainer cometeu o erro de assumir abertamente o getulismo e beneficiar-se disto por meio de empréstimos, verbas de publicidade e informações estratégicas. A Última Hora, para o trabalhismo e para o seu proprietário, era o esteio do nacionalismo e do interesse dos trabalhadores. Para os outros jornais, praticava “concorrência desleal”. Foi canibalizado por Assis Chateaubriand e companhia. Já o “caçador de marajás” pode ter praticado centenas de erros políticos, éticos, administrativos e penais. Contudo, um de seus maiores passos em falso foi pretender construir (por meio de testas-de-ferro) o seu próprio império de comunicação — que rivalizaria, inclusive, com o monopólio familiar em Alagoas. Começou a despertar suspeitas entre aqueles que, majoritariamente (há exceções) o viabilizaram junto à opinião pública.

A imprensa e, mais propriamente, as empresas de comunicação, são movidas por interesses próprios e fazem o seu próprio jogo, mesmo quando se imagina que estejam jogando o jogo do outro. O caso de Mendonça de Barros é muito recente para que se consiga entender que interesses estavam em jogo além das questões políticas mais visíveis. Mas já é possível compreender que durante a campanha eleitoral a maioria da mídia (para não falar em totalidade) aderiu ao consenso da reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Os editoriais simpáticos ao presidente-candidato e a ausência da crise financeira das primeiras páginas e dos telejornais durante longo período identificam essa postura. Sob vários pontos de vista, os jornais despolitizaram a disputa eleitoral. Não se discutiu os rumos que o Brasil deveria adotar porque todos os caminhos admitidos pela imprensa se limitavam ao interior da aliança PSDB-PFL. Certos ou errados, não é este o caso, o importante é perceber que os jornais aderiram àquela candidatura mais assemelhada com às suas preocupações pragmáticas e ideológicas. Fora do consenso, à oposição só restaram as matérias negativas e as críticas de anacronismo e superficialidade.

Atingido o objetivo da reeleição, começaram a aflorar as divergências na própria base da coalizão presidencial. Por um lado, essa foi a oportunidade de ouro para que os meios de comunicação mostrassem a independência, e a autonomia decantada. O hipotético descolamento de interesses internos e a exposição da “verdade nua e crua” poderia, de certo modo, purgar o alinhamento eleitoral. Mas não é só isso. Por outro lado, os diversos grupos econômicos, proprietários dos meios de comunicação, também articulam-se dentro do espectro político, sobretudo com as frações que disputam o poder dentro do próprio poder. Há aqueles que se alinham à equipe econômica por identidade ou necessidade, aqueles que se alinham aos partidos da ordem (ao PFL, ao PSDB e até ao PMDB). Neste jogo de identidades e adesões é possível imaginar um infindável número de interesses. Desde os mais ideológicos aos mais mercantis-pragmáticos.

Ao pesquisador interessado é possível verificar, por meio da leitura dos nossos mais conceituados jornais e revistas, como se tem dado esse alinhamento da eleição para cá. Há casos de capas de revistas semanais trazendo em destaque o ministro da Fazenda, Pedro Malan, sem que se acrescente nada de importante para o leitor. Fica a impressão de que a matéria, feita para promovê-lo, cumpre objetivos que se desconhece, sobretudo em se tratando de figura tão importante da economia do País. Privilegia-se o cosmético em detrimento de um verdadeiro debate nacional. Uma das matérias indicava que o ministro não se sente bem de chinelos e bermuda nem dentro de sua própria casa. Matérias que ficariam melhor em Caras.

Já a mega-exposição negativa do ministro Mendonça de Barros, durante seu suplício de novembro, deixa claro que houve uma concordância de editores de que o ministro e equipe teriam que ser esquartejados, pois Mendonça incorreu no erro de se deixar fisgar pela boca. Interessante que esse “peixe” estivesse, numa de suas frentes de combate, duelando com o próprio ministro da Fazenda. Não há notícia de que Malan tenha-se mobilizado para defenestrar Mendonça do governo. Pode não haver relação alguma entre se elogiar um ministro e ajudar no esquartejamento político de outro. Mas a simples distinção (ainda que baseada no escândalo em que se envolve um deles e no “sucesso” alcançado por outro) é estranha. Não se nota a propalada isenção, como muitos hão de querer fazer acreditar. Até porque o sumiço do caso dos grampos dos destaques e das primeiras páginas confunde. Ou nada aconteceu e não passou tudo de um mal-entendido, ou o objetivo foi plenamente alcançado e não há mais nada a falar, pois Mendonça já é passado.

Talvez Mendonça de Barros e seus interlocutores telefônicos tenham se transformado no justo preço pago pela omissão eleitoral, em que a imprensa se recusou discutir os reais problemas do País e os desafios do futuro governo. Não que isso pudesse mudar o resultado da eleição — e creio mesmo que não poderia —, mas sem dúvida tornaria o pleito mais democrático e mais útil. A imprensa, ao amplificar o jogo político de bastidores pela disputa de maior espaço no próximo governo, ao mesmo tempo em que cumpre um papel, digamos, jornalístico, também, se transforma em instrumento de interesses menores. É lógico que a questão dos meios de comunicação e sua importância para o sistema político democrático não se resume a essa manipulação. Na sociedade contemporânea a imprensa não deixa de ser uma tribuna especial e necessária. Mas é freqüente que use e se deixe usar essa tribuna para a realização de interesses de grupos. Esperemos que não seja esse o caso. Esperemos que seja só porque “essa gente quando pega, pega mesmo pra valer”.

(*) Mestre e doutorando em Ciência Política pela PUC-SP, pesquisador do Neamp (Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da PUC/SP).