Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Da cena primária ao dente do antropóide

BIG-BROTHER & CASA 2

Fernando Neto (*)

Quando estudamos com certa seriedade filmes eróticos e "pornôs" percebemos que há uma diferença essencial entre eles: nos últimos, o protagonista principal e indispensável é o phallus. Este jamais aparece em filmes outros, exceto como raríssima exceção e, quando tal ocorre, mesmo que surja em papel secundário, a fita já fica meio "pornô".

Ora, tais filmes, predileção dos escopofílicos, explicitam problemas não-resolvidos em torno da "cena primária", isto é, a relação sexual dos pais, o coito que nos gerou. De uma maneira geral, escreve Melanie Klein, todo cinema, teatro e televisão tem a ver com essa experiência distante da criança a respeito do que se passa no quarto e na cama dos pais.

A casa do Big Brother ou a Casa dos Artistas envolvem essas ansiedades inconscientes. Mas, perguntaria alguém, o que tem isso a ver com o filme "pornô"? Talvez o fato de que o que se espera ver, ou mostrar ? para os exibicionistas ? é o falo das regressões e fixações na experiência mal resolvida da cena primária.

Porque não há civilização sem privacidade, sem comportamentos estanques, sem os lares e as famílias. Só na privacidade o homem relaxa das tensões sociais, tanto quanto ? dizia Freud ? se sonha para se poder dormir.

Os programas citados, talvez microcosmos de um mundo global em que uma revolução tecnológica ameace essa privacidade, sem oferecer estrutura social melhor, espero estejam fazendo uma crítica da "tele-tela" orwelliana.

Ao se assistir ao "pornô" nota-se também que são filmes inteiramente voltados para o orgasmo sem filhos. Não se cogita da responsabilidade sexual ou da intenção da espécie em propagar-se. É o contrário da prescrição de Santo Agostinho, que encontrava no ato sexual apenas a finalidade da geração. Aliás, a primeira teoria dos instintos de Freud opunha os desejos do ego aos interesses da espécie, cujo conflito determinava a neurose. E, apesar de sua segunda teoria ? Eros (ego aliado à espécie) versus Thanatos, um "masoquismo primário", o seu "instinto de morte" ?, sempre se poderá entender que existe algo de antagônico, eventualmente, entre o ego humano e a espécie, após essa mutação da sexualidade que transformou o orgasmo em troca amorosa de prazer.

Um quê diabólico

Ou, se não antagônico, mutuamente excludente e empobrecedor. Imagino que uma desprivatização nos remeta de volta à barbárie. Nela, como a estou pensando, somos animais promíscuos, ainda não tendo ultrapassado o que Freud chamou de "as barreiras do incesto e do parricídio", no seu Totem e tabu.

Então, aquilo que se tinha sublimado pela civilização ficaria ameaçado em plena era da tecnologia de ponta. E, além do falo, o outro protagonista principal do programa seria o dente do antropóide que nós fomos e ambicionamos ter superado. Sim, o dente do animalesco líder da "horda primitiva".

Porque nós temos dois caminhos a seguir. Um é esse, do passado. O outro, nem em Orwell se encontra. Winston, ao ser torturado por O?Brien, colocava suas esperanças num humanismo sem Deus. O 1984 é um inferno; talvez, por isso, é uma obra sem Deus.

Na verdade é esse o pecado do Big Brother, o mesmo de Lúcifer ? o portador da luz ? querer ser como Deus. Para quem crê, agora falando numa "categoria espiritual", que há as biológica, psicológica e social, o maior problema talvez seja orar e amar plenamente, como que "através" desse poder que tenta usurpar o que é divino.

Há algo da diabólico no Big.

(*) Médico