Saturday, 20 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Daniel Castro

MTV vs. MION

"MTV dos EUA também deve processar Mion", copyright Folha de S. Paulo, 8/03/02

"Advogados da Viaseg, subsidiária da Viacom no Brasil, estudam uma ação judicial em que deverão acusar o apresentador Marcos Mion e a Band de plagiar os programas ?Jackass? e ?The Tom Green Show?, da MTV dos EUA.

A Viacom é dona da MTV dos EUA e, pela Viaseg, sócia do Grupo Abril na MTV do Brasil.

Anteontem, a MTV brasileira entrou com ação indenizatória por plágio contra Mion e a Band. Na ação, pediu liminar suspendendo a exibição de dois quadros do ?Descontrole?, apresentado por Mion. Em um dos quadros, Mion mostra falhas de clipes, como fazia no ?Piores Clipes do Mundo?, na MTV. Em outro, imita roqueiros, como no ?Micon?.

O juiz Mauro Conti Machado, da 7? Vara Cível de São Paulo, que em despacho afirmou já ter assistido aos programas, concedeu a liminar e fixou multa de R$ 73.852 em caso de descumprimento. A Band acusa advogados da MTV de chamar a polícia e de terem invadido a emissora para entregar citação judicial, quarta à noite. A entrega foi transmitida pela Band.

Para a Viacom, Mion teria plagiado ?Jackass? ao atear fogo no corpo, na estréia do ?Descontrole?. E imitaria Tom Green ao registrar a reação de telespectadores a pseudo-obras de arte.

A Band não comenta a acusação de plágio. Ontem à tarde, iria entrar com recurso contra a liminar, que julga ser um atentado contra a liberdade de expressão."

 

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"MTV acusa Mion de plágio", copyright Folha de S. Paulo, 7/03/02

"A entrega de uma citação judicial se transformou em show transmitido ao vivo em rede nacional ontem à noite. A TV Bandeirantes, sentindo-se agredida pela forma como a citação foi entregue, exibiu a ação ao vivo, durante o programa ?Descontrole?.

A decisão judicial, uma liminar concedida por Mauro Conti Machado, da 7? Vara Cível de SP, ontem à tarde, determina a suspensão da exibição, pela Band, de dois quadros do ?Descontrole?. A decisão atendeu a pedido da MTV do Brasil, que acusa Marcos Mion, apresentador do ?Descontrole?, e a Band de plagiar o programa ?Piores Clipes do Mundo?.

Mion apresentou a atração da MTV até dezembro. No último dia 18, estreou na Band. Em um dos quadros, ele mostra falhas de videoclipes. Em outro, imita roqueiros em clipes, como fazia na MTV. A liminar foi concedida em ação indenizatória por plágio impetrada ontem à tarde pela MTV.

Um oficial de justiça e advogados da MTV chegaram à sede da Band, no Morumbi, no início da noite, para entregar a citação e fazer valer a liminar. Foram barrados por seguranças. Segundo a Band, o oficial de justiça chamou a polícia e invadiu o prédio.

A Band interrompeu o ?Descontrole? e registrou, ao vivo, a entrega da citação ao seu departamento jurídico. Na tela, a emissora exibia a legenda ?Grupo Abril tenta tirar a Band do ar?. O Grupo Abril é dono de 50% da MTV (a outra metade é da Viacom).

A Folha apurou que o oficial de justiça e os advogados deixaram o prédio antes de entregar a citação a Mion, o que aconteceria em um intervalo do ?Descontrole?.

A Band afirma que a ação foi agressiva e uma afronta à liberdade de expressão. A MTV diz que a reação da Band foi constrangedora. A Band não comentou a acusação de plágio. A transmissão atingiu picos de 6 pontos no Ibope, o dobro da média do ?Descontrole?. Cada ponto no Ibope equivale a 47 mil domicílios na Grande SP."

 

INTERNET & PIRATARIA

"Uma terra de piratas", copyright Época, 11/03/02

"Em redes de fibra óptica cresce um mundo povoado por jovens de codinomes estranhos – Aniclator, JShalom, Kamikaze, X-Sander, Databoy. Eles têm entre 17 e 22 anos, pertencem à classe média, fazem faculdade e trabalham. Todos os cinco são brasileiros comuns, a não ser por uma razão: a polícia adoraria colocá-los atrás das grades. Eles viraram estrelas da pirataria digital, ameaça que aterroriza empresas em todo o mundo. Com um computador nas mãos, bons conhecimentos de informática na cabeça e muita ousadia, as gangues cibernéticas vêm invadindo sites em ritmo cada vez mais frenético. Em 2001 o número de ataques cresceu 150%, de acordo com dados da Universidade Carnegie Mellon, nos Estados Unidos. A crer nas estatísticas dos próprios hackers, o desempenho nesse ano foi ainda mais impressionante: aumentou 400% o total de páginas invadidas.

Nascido na década de 90, o fenômeno hacker multiplicou-se de forma surpreendente no Brasil. O país tornou-se um dos principais celeiros mundiais de piratas graças a um ambiente de legislação fraca, segurança deficiente e um conhecido gosto pelas novidades tecnológicas. Hoje, abriga gangues que estão entre as dez mais atuantes da rede. Estima-se que daqui partam 10% de todos os ataques feitos no mundo, comandados por garotos ainda imberbes. Quando se sentam à frente de um computador, apertam teclas que podem detonar prejuízos em qualquer lugar do planeta.

O maior hacker do mundo, escolhido por peritos em agosto do ano passado numa competição anual, é um carioca da gema. Rinaldo Ribeiro, de 26 anos, tricampeão mundial em invasão de sistemas, acumula vitórias nos campeonatos promovidos pelo Sans, um dos cinco maiores institutos de segurança do planeta. No último teste, levou 15 minutos para entrar em uma rede supostamente segura, concorrendo com outros 1.500 especialistas. ?Nada é 100% garantido. A cada dia surgem formas diferentes de driblar a proteção?, diz ele, que hoje trabalha na maior empresa de segurança da América Latina, a Módulo, tentando evitar que outros façam o que ele consegue tão bem. ?O hacker não é necessariamente alguém maldoso. O termo pode também ser usado para designar um cara muito bom em programação.? O próximo concurso será realizado em abril, mas Rinaldo não sabe se vai participar ou ajudar na organização. Com certeza outros brasileiros estarão no páreo.

Tudo isso consolida uma fama que chega longe. Alguns sites nos EUA bloquearam acessos provenientes do Brasil, sobretudo de provedores gratuitos. ?Os brasucas são mais insistentes e gostam de divulgar seus feitos?, analisa Rinaldo. As façanhas dos brasileiros chegaram aos ouvidos de Matt Conover, um americano que em janeiro ganhou as manchetes de jornais como The New York Times e Washington Post ao descobrir um problema nos sistemas do AOL, um dos principais provedores americanos. ?Eles são muito ativos?, afirmou ele a ÉPOCA. Matt transformou-se em ídolo de uma geração que aos 13 anos já sabe as manhas da informática. Está numa galeria cujo primeiro personagem surgiu em 1982, junto com os computadores pessoais: Kevin Mitnick, que entrou no Comando de Defesa dos EUA, inspirou o filme Jogos de Guerra, de 1983, e foi preso pelo FBI 12 anos depois. Libertado no ano passado, está proibido de acessar a internet até 20 de janeiro de 2003.

Na maioria das vezes, os hackers brasileiros preferem exercer as habilidades em páginas nacionais. Os ataques são tantos que os sites com terminações ?ponto br? ocupam hoje o segundo lugar no ranking mundial de invasões, atrás apenas dos ?ponto com?. ?Aqui é o playground dos hackers?, diz Marco Carnut, de 28 anos, com a experiência de quem todos os dias tenta conter os crimes virtuais.

Carnut é um dos maiores especialistas brasileiros em segurança de redes e faz parte de uma equipe de nove pessoas do Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar), que presta consultoria a grandes empresas. ?A internet ainda é muito vulnerável aqui, e por isso atraente para esse tipo de ação.?

Números mostram por que atacar páginas nacionais é diversão garantida. Segundo uma pesquisa feita com 165 empresas brasileiras pela Módulo, um terço das companhias ouvidas nem sequer sabe que sofreu alguma invasão e 40% delas já tiveram uma gangue bisbilhotando seus documentos. Os gastos com proteção ainda são insuficientes, apesar de estar crescendo. Pularam de R$ 68 milhões em 2000 para R$ 85 milhões no ano passado. ?O problema é que a quantidade de novas empresas que abrem sites na rede sem o menor cuidado é muito maior que a daquelas que decidem investir em segurança?, avisa Carnut.

A flagrante fragilidade de sistemas às vezes importantes surpreende até mesmo os consultores. A GBE Peritos & Investigadores Contábeis recentemente descobriu falhas grandes no sistema de uma empresa do setor de saúde. ?Um hacker poderia ter derrubado em segundos o banco de dados da empresa?, revela Marcelo Gomes, diretor da GBE, com sede em São Paulo. Aconselhada a tomar medidas para se proteger, a companhia vai desembolsar R$ 300 mil em um novo sistema.

Na PricewaterhouseCoopers, uma das cinco maiores do mundo no ramo de consultoria e auditoria, a demanda é tamanha que a equipe de segurança foi multiplicada por dois no Brasil desde 2000. Hoje, 60 funcionários têm a tarefa de travar batalhas diárias contra inimigos invisíveis.

Não é difícil traçar um perfil dos invasores. Com conhecimentos de algumas linguagens técnicas importantes e em busca da fama no mundo virtual, cumprem ritual semelhante: ficam longas horas em bate-papos trocando informações sobre falhas em programas ou sistemas. De posse do mapa com alguns pontos fracos da rede, passam à ação. Primeiro identificam computadores conectados naquele momento que estão vulneráveis. A máquina de um navegante desavisado pode servir para atacar outros sites, sem que o incauto proprietário se dê conta. O próximo passo é achar grandes alvos, como páginas de empresas e governos. A tarefa tem sido facilitada nos últimos tempos por programas disponíveis gratuitamente na própria internet. ?Hoje em dia, há centenas de programas feitos para ajudar na busca de brechas na segurança. Fica fácil?, diz Carnut. Eles realizam automaticamente uma ?ronda? em milhões de páginas na internet e acabam detectando alguma falha."

 

TV PAGA vs. CINEMA

"Crise em Bollywood", copyright Veja, 11/03/02

"Até pouco tempo atrás, a trajetória da indústria de filmes populares da Índia rendia uma bela história de sucesso. Com uma quase inacreditável média de dois títulos lançados por dia durante a década de 90, ela ultrapassou Hollywood no papel de maior fábrica cinematográfica do planeta. Não por acaso, essa formidável máquina de entretenimento ficou conhecida como Bollywood, um trocadilho surgido em virtude de a cidade de Bombaim concentrar boa parte das filmagens. A fórmula indiana parecia infalível, combinando produções açucaradas com ingressos a preços equivalentes a 20 centavos de real. Tudo isso dirigido a um público potencial de mais de 1 bilhão de espectadores, em sua maioria pessoas sem acesso a nenhum outro tipo de diversão. Nos últimos dois anos, porém, a receita desandou. No período, as engrenagens de Bollywood começaram a apresentar preocupantes sinais de saturação. O movimento das bilheterias caiu 60%, a produção de filmes foi reduzida à metade e o drama parece cada vez mais longe de um final feliz.

O grande vilão responsável pelos apuros da maior indústria cinematográfica do mundo foi a popularização das TVs a cabo no país. Nos últimos anos, a programação despejada pelas emissoras ocidentais transformou-se na principal concorrente dos filmes locais. E está levando vantagem na guerra pela audiência. O público tem-se mostrado cansado dos enredos bollywoodianos, uma espécie de versão indiana das antigas chanchadas do cinema brasileiro. Os personagens são estereotipados, e as histórias têm sempre um final feliz e moralista, recurso utilizado para agradar aos conservadores hindus e muçulmanos, as maiorias religiosas da Índia. Tudo isso ainda vem embalado por cenas de cantorias e danças típicas. Nudez e cenas de sexo, nem pensar. O máximo de ousadia consiste em copiar algumas fórmulas consagradas em Hollywood. Em função disso, surgiram no país ?dublês? de Rambos, Al Pacinos e Julias Roberts. ?Entretenimento por entretenimento, as pessoas estão preferindo ficar em casa diante da TV?, disse a VEJA Buddhadev Dasgupta, um dos mais renomados diretores do cinema indiano.

Por causa das amarras moralistas e dos orçamentos modestos, é quase uma missão impossível que os filmes de Bollywood consigam competir em pé de igualdade com os enlatados americanos. Até hoje, a produção mais cara rodada no país foi Raju Chacha, uma história sobre três órfãos e uma espécie de Robin Hood indiano que luta para salvá-los de um bando de vilões. A fita custou 6,4 milhões de dólares, uma fortuna para o país – e uma mixaria diante dos padrões praticados em Hollywood. Na indústria de Bombaim, um dos custos principais é o do processo de dublagem dos filmes, que precisa ser vertido em mais de uma dezena de idiomas para alcançar as diferentes etnias do país.

Depois de acusar o golpe, os estúdios estão tentando reagir. Uma das primeiras providências foi liberar as cenas de beijos nos filmes – até meados da década passada, elas eram proibidas. Algumas atrizes ainda resistem, mas o recurso é cada vez mais utilizado pelos roteiristas. A indústria também tem procurado melhorar os serviços. Com a ajuda do governo indiano, algumas salas estão sendo reformadas e começam a surgir no país os primeiros multíplex. Ao lado dessas iniciativas, os executivos esforçam-se para aumentar o mercado externo para seus filmes. Hoje, a exportação das chanchadas indianas para o Egito e a Arábia Saudita, entre outros países muçulmanos, rende por ano a Bollywood cerca de 150 milhões de dólares – o equivalente a 15% do faturamento de toda a indústria cinematográfica. A idéia é conquistar novas fronteiras. Entre os clientes em potencial estão nações como o Afeganistão. Pouco depois de as forças da Aliança do Norte conquistarem a cidade de Cabul, o filme indiano de ação Elaan foi um dos primeiros a ser exibidos por lá. As fitas de Bollywood haviam sido uma das diversões banidas após a ascensão ao poder da milícia fundamentalista do Talibã.

Enquanto a indústria cinematográfica indiana de filmes populares está perdendo o fôlego, o cinema autoral do país vive uma ótima fase. Uma produção local, Lagaan, do diretor Ashutosh Gowariker, é um dos concorrentes ao Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano. Bollywood sempre esteve longe de obter o mesmo prestígio, mas sua situação de penúria preocupa o país. A indústria gera 3 milhões de empregos e, apesar do desprezo da crítica, tem em sua relação de astros algumas das principais personalidades indianas. Uma delas é o ator Rajkumar, que, a despeito do bigodão e da peruca, já fez o papel de galã em mais de 200 produções. A maior prova de sua popularidade ocorreu há dois anos, quando Rajkumar ficou nas mãos de uma quadrilha de bandidos durante três meses. O seqüestro paralisou o país, até o momento da libertação do galã. Em meio a toda essa crise, uma baixa já foi contabilizada. Aos 59 anos, Amitabh Bachchan, o Rambo indiano, anunciou recentemente sua decisão de se aposentar das telas de Bollywood."