Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Elvira Lobato

EMISSORAS EM GUERRA

"Rompidas com Abert, redes de TV vão criar nova entidade", copyright Folha de S. Paulo, 1/03/02

"As redes Record, Bandeirantes e SBT vão lançar uma nova entidade de classe de âmbito nacional para se contrapor à influência política das Organizações Globo dentro da Abert (Associação Brasileira de Radiodifusão).

A nova entidade deve ser anunciada dentro de 15 ou 20 dias, segundo afirmou à Folha o vice-presidente executivo da Rede Bandeirantes, Antônio Teles.

Anteontem, as três redes tornaram pública sua divergência com o comando da Abert. Com um seco comunicado publicado nos jornais, afirmaram que a associação não está autorizada a representá-las ?em nenhum foro e sob qualquer pretexto?.

Segundo o SBT, o estopim para o rompimento público com a entidade foi uma suposta negociação feita pela Abert para a aprovação da emenda constitucional que permite a participação de capital estrangeiro em empresas de comunicação.

De acordo com Luiz Eduardo Borgerth, consultor do SBT, a Abert teria negociado com os partidos de oposição o apoio da entidade à instalação do Conselho de Comunicação Social do Congresso (previsto ainda na Constituição de 1988), em troca da aprovação da emenda em regime de urgência urgentíssima.

Segundo o consultor, a negociação era dispensável, porque a votação na Câmara estava tranquila e a aprovação, garantida. Borgerth disse que o acordo teria sido feito, de forma verbal, por Evandro Guimarães -vice-presidente das Organizações Globo e da Abert- , sem consultar as demais redes de televisão.

Outro motivo de divergência, segundo Borgerth, foi a posição da Abert em relação ao regulamento dos serviços de multimídia aprovado no ano passado pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações).

As televisões abertas foram contra o regulamento, por entenderem que ele permite às empresas de internet atuarem em radiodifusão. De acordo com Borgerth, a Abert não entrou com ação judicial contra o regulamento devido aos interesses econômicos da Globo em telecomunicações.

Antônio Teles referiu-se à nota publicada pelas três redes como um ?imperativo antigo, que foi sendo relevado?.

Assim como o SBT e a Record, a Band avalia que a Abert tem representado majoritariamente os interesses da Rede Globo, que indicou dois dos 15 vice-presidentes da entidade: João Roberto Marinho e Evandro Guimarães.

?A Abert deve continuar representando os interesses da Globo, e nós criaremos uma entidade bem simplificada, sem o aparato e a opulência da Abert, para nos representar nos diálogos com a sociedade e com o poder público?, afirmou Teles. Segundo ele, a Bandeirantes já está fora da Abert há mais de um ano.

A nova entidade tem até um nome provisório: União das Emissoras de Televisão Brasileiras. Para a Bandeirantes e o SBT, suas afiliadas, que ainda participam da Abert, deverão migrar para a nova entidade.

?Há uma regra básica de direito de que o acessório segue o principal?, afirmou Teles.

O vice-presidente corporativo da Rede Record, Roberto Franco, confirmou os preparativos para a criação da nova entidade, mas disse que as afiliadas da emissora não serão estimuladas a deixar a Abert. ?Elas têm autonomia de decisão?, afirmou.

Ele disse que a Record não vê o comunicado publicado nos jornais como uma declaração de rompimento com a Abert.

?Nós temos consenso com a entidade em relação a alguns pontos, como, por exemplo, a escolha técnica do padrão para a TV digital. A Record não é inimiga da Abert, mas ela não nos representa e queremos deixar isso claro?, afirmou Franco.

Ele disse que a Record retirou-se da Abert há três anos, exatamente por não se sentir representada. Na ocasião, ela criou uma associação chamada Abratel, que, segundo Franco, será mantida."

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"Entidade contesta acusações de favorecimento", copyright Folha de S. Paulo, 1/03/02

"A diretoria da Abert contestou, em nota divulgada ontem, as acusações de favorecimento às Organizações Globo feitas por Record, Bandeirantes e SBT. Segundo a nota, a entidade luta pelos interesses convergentes de seus associados e mesmo dos não-associados.

?A Abert, como associação de classe, não está e nunca esteve autorizada a representar individualmente nenhuma empresa?, declarou a diretoria, sem, no entanto, fazer referência à Globo no texto.

A associação diz que congrega 2.334 emissoras de rádio e 258 emissoras de televisão, com representantes de todas as redes. A nota defende a atuação da entidade na votação da emenda constitucional de abertura ao capital estrangeiro.

Disse que a votação uniu partidos historicamente antagônicos. Segundo a nota, todas as emissoras de rádio e televisão, inclusive as não-associadas à entidade, vão se beneficiar da abertura do capital."

 

"Racha de redes embaralha TV digital", copyright Folha de S. Paulo, 2/03/02

"A nova entidade que irá representar Record, Bandeirantes e SBT terá dificuldades para se envolver em uma das principais questões deste ano para o setor: a definição do padrão de TV digital.

As três redes romperam definitivamente com a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV) esta semana, por acreditarem que a instituição defende prioritariamente os interesses da Globo.

As três emissoras estão em processo de formação de uma nova entidade, que poderá se chamar União das Emissoras de Televisão Brasileira.

Bandeirantes, Record e SBT, no entanto, não têm consenso em relação à TV digital. Em agosto de 2001, a Band rompeu publicamente nessa questão com a Abert, que defende o padrão japonês para o Brasil (concorrem também o norte-americano e o europeu).

Oficialmente, a emissora afirma que saiu do bloco pró-japoneses porque acredita que a decisão não pode se pautar apenas por questões técnicas (a Abert afirma que o japonês é o melhor tecnicamente).

Mas há pelo menos outros dois motivos para o rompimento: 1) A Band desconfia que apenas os interesses da Globo estão sendo levados em consideração no debate; 2) Não concorda com a pressão da concorrente para que a escolha seja rápida, já que não teria tão cedo dinheiro suficiente para investir na transição do sistema atual (analógico) para o digital.

A Band defende que a decisão do governo seja política e econômica. Tentará, segundo a Folha apurou, convencer Record e SBT (que, nesse assunto, ainda estão com a Globo) a adotarem o mesmo discurso. Isso enfraqueceria a defesa do sistema do Japão.

A intenção da emissora é que as três redes possam reforçar o lobby contra os argumentos da Globo por meio da nova entidade que formarão. A associação terá, estrategicamente, sede em Brasília, a ser inaugurada em breve.

Pior momento

As divergências entre as redes, que na verdade não são recentes, vieram à tona no momento em que os EUA e a Europa reforçam o lobby da TV digital no Brasil.

Ontem e anteontem, aconteceu em Brasília um encontro entre a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) -que deve apontar para o governo um padrão de TV digital até julho- e a FCC (Federal Communications Commission, a Anatel dos EUA).

Na quinta-feira, houve um debate sobre TV digital. Representantes da FCC também tinham a intenção de se reunir com o presidente Fernando Henrique Cardoso e com o (ainda) ministro Pimenta da Veiga (Comunicações).

Além disso, representantes da ATSC (nome do padrão de TV digital norte-americano) estão circulando por São Paulo e Brasília nas últimas duas semanas, em reuniões com jornalistas, empresários, diplomatas e políticos.

lobby europeu

O lobby da Europa ficou com Pascal Lamy, comissário europeu para o Comércio, que veio ao país para encontro com o presidente Fernando Henrique Cardoso, na quinta.

Entre outros assuntos, a TV digital estava na pauta. O comissário europeu diria ao presidente que o padrão europeu é o mais disseminado pelo mundo.

Enquanto isso, o lobby japonês está basicamente por conta da Abert. Empresários das TVs temem que, com a crise entre as emissoras, o setor perca força para pressionar o governo por seus interesses.

A preocupação não é à toa: o mercado calcula que a implementação da TV digital vá movimentar US$ 100 bilhões no Brasil nos próximos dez anos."

 


"SBT, Record e Band se unem contra Globo", copyright Folha de S. Paulo, 28/02/02

"SBT, Record e Band romperam definitivamente anteontem com a Abert (Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão). As três já haviam deixado a entidade, mas, em comunicado publicado ontem deixaram claro que a ?Abert não está autorizada a representar os interesses das empresas dessas redes em nenhum foro ou sob qualquer pretexto?.

As três redes acusam a Abert de só defender os interesses da Globo. Dizem ter sido excluídas de negociações, lideradas pela Abert, envolvendo capital estrangeiro (ao qual a Globo era contra no início) e TV digital. Anteontem, decidiram formar uma nova entidade e já estão agendando encontros com os poderes Executivo e Legislativo para comunicar a ruptura e suas divergências.

O anúncio foi finalizado na noite de terça, após mais de um ano de negociações. Só não saiu antes porque aguardavam a aprovação na Câmara dos Deputados da emenda constitucional que abre empresas de comunicação ao capital estrangeiro. Foi publicado no mesmo dia em que a diretoria da Abert teve almoço com a cúpula do PSDB. É também um aviso ao Senado -onde será constituída uma comissão para discutir a emenda do capital estrangeiro e que deverá ter um membro da radiodifusão- de que a Abert não é ?legítima representante? do setor.

A Abert diz que representa 150 emissoras de TV, entre elas afiliadas da Record, Band e SBT."