Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Em busca de um "televidão"

TELEJORNALISMO

Antônio Brasil (*)

Você, jovem estudante que sempre gostou muito de escrever e de aparecer, finalmente decidiu que quer mesmo ser … "jornalista de televisão". Apesar de todos os problemas, das críticas profissionais, das ameaças paternas e de gente como Stanislaw Ponte Preta ? que divulgava "pérolas" como "se você continuar se comportando mal, meu filho, te obrigo a ver TV" ?, mesmo assim você decidiu ir à luta em busca de emprego em telejornalismo. Ou seja, você também está em busca de um "televidão". Com muita vontade e um pouco de sorte, você vai aparecer na TV, ficar famoso, ganhar muito dinheiro, viajar o mundo inteiro, se tornar correspondente internacional ou, quem sabe, candidato a cargo eleitoral. Nem mais nem menos e, aqui entre nós, nada mal.

Já temos o caminho e o destino. O problema é que você não sabe por onde começar. Então, vamos lá. Qual seria a melhor maneira para se tornar um jornalista de televisão, de preferência bem-sucedido? Antes de tudo, não perca o seu tempo estudando muito. Em televisão, todos garantem que o importante é ter boa aparência, ser simpático, comunicativo, não criar muitos problemas para os seus entrevistados e, obviamente, menos ainda para os seus patrões poderosos.

Procure se vestir bem, esteja sempre por dentro de tudo para ter a conversa atualizada mas não muito aprofundada. Evite entediar as pessoas. Isso nos leva a uma das principais recomendações para o sucesso na TV: nunca, jamais, em tempo algum seja chato ou aborreça as pessoas falando de coisas sérias. Em televisão esse parece ser considerado um crime "hediondo" inimaginável, inclusive em jornalismo. Perde pontos, audiência e compromete o seu futuro.

Procure contar todas as suas histórias em no máximo 1 minuto e 30 segundos. Demonstre ouvir a todos atentamente por no máximo… 10 segundos. Depois, interrompa invariavelmente com alguma gracinha ou comentário mais irônico que revele a sua atenção, mas que deixe bem claro quem é que manda aqui!

Para isso, use sempre a sua arma. Essa eu ouvi, com enorme surpresa, de uma estrela da televisão: "A arma do repórter é o seu microfone". Então, mantenha essa sua "arma" sempre bem carregada e, em caso de dúvida, contrarie a regra: atire primeiro, e faça as perguntas depois. Não tem como errar. Qualquer pergunta é sempre melhor do que ficar calado, com cara de bobo. A última coisa que repórter de televisão costuma fazer mesmo é ouvir o que o entrevistado tem a dizer. Ele é uma máquina de fazer perguntas, principalmente durante as coletivas. Pergunte sempre, mesmo que o entrevistado já tenha respondido. Perguntar faz você e a empresa aparecerem e ouvir, cansa.

Inimiga da perfeição

Entrevistado em televisão, como já sabemos muito bem, é cúmplice, coadjuvante ou vítima. É só escolher. Dessa escolha vai depender o seu futuro profissional. Dificilmente o entrevistado é considerado "fonte de informação". Isso também explica porque grande parte dos jornalistas de televisão respeita tanto o poder. Eles parecem mais interessados em fazer perguntas para "levantar a bola" do entrevistado. Com isso, quem sabe, garantam uma aposentadoria precoce e bem remunerada como assessor de imprensa de político ou empresário poderoso. Então, não se esqueça: nunca faça perguntas embaraçosas. Exceção aberta se a vítima, quero dizer, se o entrevistado for gente comum, ingênua e indefesa. Nesse grupo devemos incluir pobres, trabalhadores, eleitores, tietes e demais grupos sociais que podem até informar o jornalista, mas que certamente servem mais para entreter o público durante o que costumamos chamar de "povo fala".

É muito importante aprender a fazer um bom "povo fala". Quase todas as matérias de jornalismo na TV sucumbem à eterna tentação de convocar "a voz do povo", também conhecida como a "voz de Deus". Tudo para dar um resquício de credibilidade à recorrente desculpa de falta de tempo e de apuração jornalística. Escolha sempre gente diferente para que pareça um "universo de pesquisa" verdadeiro, amplo, diversificado e politicamente correto. Gente que fale somente frases desconexas mas sempre, de preferência, muito engraçada. Ninguém está mesmo interessado no que o povo tem a dizer. O importante é confirmar o que a pauta, o editor e o chefe de reportagem acham que seja a verdade.

Seja sempre rápido no que faz e venere de forma inequívoca a palavra deadline ? em inglês, para você ser considerado cool. O negócio não é estar certo mas ser o primeiro a dar a notícia. Mesmo que você se arrisque a cometer uma "barriga" ? um pequeno erro que pode acidentalmente comprometer a vida de pessoas indefesas ?, nunca se arrisque a perder uma entrada no telejornal ou, pior ainda, ser batido pela concorrência. Mesmo que essa competição não exista mais e que o seu telejornal, apesar dos pesares, ainda seja líder solitário de audiência há muitos anos. A pressa, sabemos, é inimiga da perfeição mas faz muito sucesso em televisão. No fundo, ninguém se importa mesmo e ainda não existe um monitoramento ético ou funcional da nossa profissão.

Depois é só correr para a torcida, quero dizer, para gravar a sua "passagem", preparar o seu "ao vivo" e aguardar o aplauso ou o ibope.

Estatísticas aborrecidas

Faça sempre questão de usar o cabelo certo e a indumentária apropriada. Se estiver no meio de um incêndio ou de um tiroteio portando a sua "arma", procure sempre vestir um terno e gravata ou o blazerzinho básico da moda. Não se importe de se sentir às vezes um pouco ridículo, considerando o teor da matéria e o local. Considere, sim, o padrão de qualidade da emissora. Não se preocupe nem se arrisque a olhar em volta e ver que ninguém está vestido igual a você. Jornalista de televisão tem que estar sempre elegante, manter a aparência e, se possível, cultivar uma certa distância do seu alvo ou objeto ? o público. Tem que ser "diferente" e quase sempre "indiferente". Não pega bem se emocionar. Mas fazer alguém chorar no meio da sua matéria, ao contrário, marca ponto.

Procure levar a vida achando que tem sempre uma câmera dirigida para você. Quem sabe, várias. Você pode não ter sido selecionado para o Big Brother Brasil, Casa dos Artistas ou No Limite, mas bem que merecia. Se nunca participar pode sempre apresentar. Não importa. Uma vez jornalista de televisão, a notoriedade é um estado de espírito. Tanto faz que ninguém ainda o reconheça na rua ou peça autógrafos em todos os cantos. Bem sabemos que é só uma questão de tempo.

Chegue sempre atrasado às coletivas para valorizar a sua presença e a importância do seu meio. Não se preocupe. O entrevistado vai esperar porque se não aparecer na televisão, não é notícia. Os colegas, é claro, vão morrer de ódio e recebê-lo com o maior desprezo. Mas um dia eles também vão acabar seduzidos pelo meio, assim como tantos outros que antes também falavam tão mal da televisão e, hoje, estão lá na telinha fazendo o maior sucesso. São os novos artistas ou emergentes do jornalismo de TV.

Para começar na profissão você precisa fazer muitas coisas e deixar de fazer outras tantas. Fazer curso de jornalismo, por incrível que pareça, ainda pode ser útil. Afinal a gente nunca sabe quando a obrigatoriedade do diploma pode voltar. No Brasil, tudo é possível. De todo o modo, a maioria dos cursos de comunicação não reprova ninguém mesmo, tem uma vida social intensa e não exige muito estudo. Além disso, quase todos os seus colegas de faculdade possuem pelo menos uma coisa em comum: odeiam física, química e principalmente matemática. Ou seja, tudo aquilo que possa ao menos parecer "preciso" ou "exato". Aqueles números, estatísticas e dados aborrecidos estão definitivamente afastados da sua vida e estarão distantes da apuração dos fatos. Televisão não é informação, é emoção. Muitos números ou dados podem confundir e entediar o telespectador.

Não custa sonhar

Para diversos analistas, uma boa história no meio televisivo é hoje mais importante do que apurar a verdade. Afinal, o telejornalismo moderno conseguiu o que parecia impossível: colocar os fatos em segundo plano. Eles interferem com a fluidez e o ritmo necessários para um bom "show de entretenimento". Partiu-se para a seleção prioritária de assuntos mais leves, com maior conteúdo humano ou mesmo animal ? exótico, é claro. Tudo para jamais aborrecer o telespectador e dar muita audiência. Nesse novo jornalismo de mercado, notícia ruim tira audiência e afasta o "cliente", fazendo com que este debande para competidores que oferecem os novos programas, os reality shows ou, pior ainda, as novelas mexicanas. Esses são programas menores que insistem em competir com a "realidade de verdade" dos nossos telejornais.

Para se tornar jornalista de TV também é preciso freqüentar os lugares da moda, os shows e as festas com artistas em evidência porque seguramente é lá que os jornalistas neófitos vão encontrar e ter a oportunidade de conversar com os seus ídolos, os seus futuros colegas. Nessas ocasiões, pedir estágio, autógrafos, emprego ou dicas para entrar no meio está fora de cogitação ? não pega bem, é coisa para os ingênuos. Você, que quer ser jornalista de TV, ao contrário, deve buscar, improvisar, batalhar de forma original o seu próprio caminho. O meio não admite nem aprova uma organização clara das regras de ingresso. É tudo sempre muito estranho e nebuloso.

As provas de seleção para o "televidão" dificilmente são anunciadas de forma clara e realizadas de maneira transparente. Em algumas emissoras, essa "seleção" é quase um ritual secreto para poucos iniciados. Não tem regras definidas nem divulgação objetiva dos resultados. A única certeza é de que alguns privilegiados pelo berço, pelo poder ou pela posse de contatos (que você obviamente não tem) encontrarão o caminho para o emprego em telejornalismo com mais facilidade. E não adianta culpar o pistolão, o Q.I. (quem indicou) ou a existência de uma "panelinha". Um meio que adora investigar e exigir a transparência dos outros obviamente não pratica o que professa. É um típico caso de "faça o que eu falo mas não faça o que eu faço". Talvez o jornalismo de televisão seja realmente "hereditário" ou destinado somente a poucos iluminados. Quem sabe a ciência ou o próprio jornalismo investigativo um dia expliquem o inexplicável. Por enquanto, só existem muitas dúvidas.

Você ainda que ser jornalista de televisão? Não desistiu? Quer mesmo enfrentar essa "fogueira das vaidades", em busca de um "televidão"? Parabéns. Quem sabe você seja mesmo diferente e ajude a fazer um jornalismo de TV melhor. Não custa sonhar. Então, mãos à obra. Pare de ver tanta TV, comece a lutar pelo seu espaço e confirme esse sábio conselho do velho Noel Coward: "Televisão é para se aparecer, não para se assistir".

(*) Jornalista, coordenador do laboratório de televisão, professor de telejornalismo da UERJ e doutorando em Ciência da Informação pelo convênio IBICT/UFRJ