Saturday, 20 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Embolados no meio de campo

MÍDIA & ROMÁRIO

Deonísio da Silva (*)

Até o presidente Fernando Henrique Cardoso integrou-se ao coro dos que pedem a convocação de Romário. Mas na mesma semana em que fez o apelo, o escritor e colunista de Veja, Diogo Mainardi, com seu habitual gosto pela polêmica, depois de complexos e contraditórios juízos sobre o jogador, destoou do canto geral: "Romário é o mais cafajeste de todos", "ficou velho", "acabou", "daria vexame contra qualquer zagueiro europeu", "eu sempre torci por Romário", "com um pouco mais de empenho, ele teria sido um dos maiores jogadores da história" etc. E ainda anunciou o apocalipse: "seremos eliminados na primeira fase da Copa do Mundo, com uma derrota para a Costa Rica e empates contra Turquia e China".

Diogo Mainardi é um dos raros escritores brasileiros a ocupar-se de futebol, ainda que em artigo curto. A literatura nacional não dá ao futebol a importância que ele já fez por merecer. Grandes escritores, como foi o caso de Graciliano Ramos, proferiram insólitas bobagens sobre o mais amado dos esportes brasileiros e o que mais glórias deu ao país, bastando lembrar que tivemos Leônidas, Pelé, Garrincha, Didi, Gérson, Tostão, Falcão, Zico, Sócrates e Rivelino, entre outros, titulares em qualquer seleção do mundo no tempo em que essas estrelas brilhavam.

Talvez Diogo Mainardi tenha acertado na mosca, ainda que contrariando a maioria, ao negar a Romário o estatuto de craque indispensável à seleção. Realmente, comparado aos citados, ele seria um modesto reserva de alguns deles. Como foi o grande Amarildo, reserva de Pelé; Mengálvio, reserva de Didi, e o não menos talentoso Pepe, reserva de Zagallo. Ou Castilho, reserva de Gilmar. Exemplos não faltam. Os reservas eram tão bons que era freqüente a dúvida se o melhor seria mesmo o titular. Mas esses grandes nomes aceitavam a reserva com naturalidade. E quando chamados a substituir os craques, mostravam que eram craques também.

Romário, que não tem o brilho dos reservas citados, e que provavelmente não jogaria no time deles, viveu e vive um tempo de escassez de craques. E não é que "em terra de cego, quem um olho é rei", não. Ele mostrou ao que veio nas vezes em que foi chamado, destoando da média geral e fazendo a diferença. Mas na final de 1994 já não desequilibrou e voltamos tetracampeões depois de uma melancólica disputa de pênaltis. Não foi genial naquela decisão contra a Itália. A menos que consideremos genial um atacante cobrar um pênalti e marcar. Genial é o goleiro defender. Então, o herói foi o goleiro Tafarel, auxiliado pelo adversário Baggio que chutou para fora.

Conto antológico

Das duas opiniões contrastantes, a do autor presidente e a do autor jornalista, podem ser extraídas algumas considerações. A primeira é lamentar que o presidente não tenha o hábito de imiscuir-se em polêmicas de outras seleções. Ele certamente sabe que há outras seleções perpetrando exclusões que, no mínimo, seriam trazidas à discussão se o alto dignitário, revestido de seu inegável prestígio intelectual e ungido pelos óleos do cargo que ocupa, se dispusesse a comentá-las vez ou outra. Por exemplo: a seleção dos 40 da Academia Brasileiras de Letras (ABL) não merece nenhum comentário presidencial? E o que dizer das falcatruas que a CPI do futebol apresentou? Os prêmios atribuídos pela Câmara Brasileira do Livro e a relação dos livros que seus ministérios mandam comprar para as escolas são outros exemplos de seleções que ele também poderia comentar.

Da parte dos escritores, um enigma. É verdade que Edilberto Coutinho recebeu o Prêmio Internacional Casa de las Américas com Maracanã adeus, narrativas que tomaram o futebol como tema. Nelson Rodrigues fez algumas de suas crônicas mais notáveis sobre sua crônica paixão pelo futebol. Rubem Fonseca brindou-nos com um conto antológico, Abril, no Rio, em 1970, cujo mote é o cuspe branco de Gérson. Mas é regra geral que os escritores não dêem ao tema a devida importância. Quem sabe, esse esporte seja para nós o que o camelo é para os muçulmanos. Se acreditarmos em Jorge Luis Borges, de tão óbvio o animal não aparece no Alcorão uma única vez.

(*) Escritor e professor da Universidade Federal de São Carlos, doutor em Letras pela USP; livros mais recentes: De Onde Vêm as Palavras, Orelhas de Aluguel, Os Guerreiros do Campo.