Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Estrela Serrano

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Um tema delicado", copyright Diário de Notícias, 25/2/02

"No dia 13 de Janeiro, o DN publicou um extenso dossiê, anunciado na capa com o título Milhares vão abortar a Espanha. São dez páginas de texto e imagem sobre o aborto, centradas em torno do chamado ?julgamento da Maia?, que envolveu 17 mulheres acusadas de ?prática ilícita de interrupção voluntária da gravidez? (IVG). O DN apresenta, nessa edição, uma sondagem em que a maioria dos inquiridos se pronuncia a favor da não condenação, em tribunal, ?de uma mulher acusada de ter praticado aborto? e ao alargamento ?das condições em que, legalmente, é possível realizar a IVG?, além de uma entrevista com a eurodeputada, Ilda Figueiredo. O dossiê inclui, ainda, um conjunto de rubricas – comentário, cronologia, memórias, dados estatísticos, referências a organizações e movimentos pró e contra o aborto, e duas páginas de fotografias de momentos marcantes, a nível internacional, da luta a favor e contra a legalização do aborto.

A leitora Maria da Graça F. Frazão não apreciou o tratamento dado ao tema e dirigiu-se à provedora em termos indignados: ?Como é possível que o DN tenha publicado (…) um dossiê tão faccioso sobre o delicado tema do aborto? Da primeira à última página todo o texto está imbuído do espírito pró-abortista. Enquanto leitora habitual do jornal, cidadã portuguesa, jurista e, sobretudo, enquanto mulher e mãe de filhos pequenos, protesto veementemente contra tal manipulação! O que qualquer mulher, à espera de um filho, pretende é dispor de condições familiares, sociais e económicas para ver nascer e crescer o seu filho; e não de ser apanhada na ?armadilha de matar o próprio filho?!?

Solicitado a pronunciar-se, o editor-adjunto da secção Sociedade, João Pedro Fonseca, afirma compreender que o trabalho possa ter provocado ?alguma irritação de quem é assumidamente contra a prática do aborto?, mas discorda dos termos usados pela leitora – ?faccioso?, ?espírito pró-abortista?, ?manipulação?. ?Sendo um tema (…) polémico, que divide a sociedade portuguesa (…) iria suscitar críticas?, afirma o jornalista, recordando que não se tratava de ?um levantamento nacional? sobre a IVG – como o publicado pelo DN quando passaram três anos sobre o referendo do aborto. O objectivo do DN foi, segundo João Pedro Fonseca, explicar ?o que está em causa? no julgamento da Maia, ?quem são as mulheres, os pormenores do caso?. Mas, segundo o jornalista, o dossiê não ficou por aí: ?Estas mulheres estão sentadas no banco dos réus, mas muitas centenas de mulheres evitam sujeitar-se a esta exposição pública, indo a Espanha. É a realidade?, continua o jornalista. ?Temos de falar nela. Temos de lembrar que o problema da lei só se põe para quem não tem conhecimentos nem dinheiro para ir a Espanha.?

Sobre a entrevista a Ilda Figueiredo, João Pedro Fonseca explica que a eurodeputada ?tem estado envolvida neste processo? e que a publicação de uma entrevista – e apenas uma – ?faz parte do formato dos dossiês de domingo?. Continuando a sua explicação, diz o jornalista: ?O texto inicial, que eu assino, tem opinião, é esse o princípio do dossiê. Lamento que não seja do agrado de muitos leitores. Mas não são assim as opiniões? Agradam a uns desagradam a outros…?

A detalhada explicação do jornalista tem o mérito de proporcionar aos leitores o conhecimento do ?percurso? que levou à publicação do dossiê, desde o ponto de partida, passando pelos desenvolvimentos, pelas escolhas e interrogações, não se ficando pela habitual invocação dos ?critérios jornalísticos? – argumento de autoridade usado para não dar explicações. João Pedro Fonseca prefere falar de ?regras claras de prioridades jornalísticas? que explica, minuciosamente: o ?julgamento da Maia? foi o mote inspirador do dossiê. ?Uma cronologia da discussão das leis sobre a IVG; (…) um texto sobre o que pensam os movimentos do Sim à vida e (…) uma entrevista, foram ítens considerados de interesse. João Pedro Fonseca expõe o raciocínio e os critérios que orientaram as escolhas: ?A quem se vai fazer a entrevista? (…) E quem tem dado a cara? Alguém dos movimentos Pró-Vida? Não. Ninguém tem aparecido a dar a cara. Ilda Figueiredo, Pró IVG, tem aparecido a suscitar o debate e a manifestar apoio às mulheres. Foi a opção que tomámos! Fomos parciais? Não me parece. Não houve intencionalidade, facciosismo ou manipulação. Foram regras claras de prioridades jornalísticas.?

É certo que o conteúdo e o enquadramento do dossiê, resultam de opções feitas pela equipa que o preparou, não sendo as únicas possíveis e estando, naturalmente, sujeitas a crítica. Mas a provedora não crê que possa falar-se de manipulação. Foram escolhidos, como sempre acontece, determinados ângulos de abordagem. Mas o trabalho jornalístico pressupõe, precisamente, a capacidade de escolha e selecção entre ?factos? concorrentes, isto é, cabe ao jornalista decidir o que é, em cada momento, mais importante para publicar. Para isso, o jornalista possui, apenas, o seu próprio julgamento (e o da hierarquia da Redacção), que deverá ?objectivar? através de processos que tornem válidas e credíveis as escolhas feitas.

O dossiê apresentado pelo DN, não esgotou, certamente, o tema. Possui, mesmo, a marca do momento histórico em que surgiu – o ?julgamento da Maia?. A essa luz, os leitores terão compreendido, certamente, melhor, as opções jornalísticas efectuadas.

Bloco-Notas

Ao contrário do que acontece com os provedores dos leitores dos jornais norte-americanos, os leitores do DN, não questionam, geralmente, a provedora sobre aspectos ortográficos. Aliás, o DN possui uma secção especializada nessa matéria. Mas, como se verá, algumas das observações enviadas à provedora, apesar de datarem de há uns meses atrás, continuam a revestir-se de interesse e actualidade:

Anglicismo

Ventura Cunha, articulista e revisor do Jornal do Exército, chama a atenção para o uso da expressão ?os media?. Diz que ?(…) com o aparecimento da informática, a língua anglo-saxónica, que já registava o latinismo ?media?, aumentou os significados como, por exemplo, ?meios de comunicação?, passando ?media? a anglicismo para a língua portuguesa. Apesar de o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa registar a palavra ?media? como ?Meios de comunicação de massa? (…),? o leitor considera que ??media? não deveria ser registado num dicionário de língua portuguesa, por ser contrário às regras da gramática portuguesa?.

À Inglesa

Outro leitor, André Simões, afirma que ?é comum ouvir pronunciar à inglesa palavras e expressões latinas e gregas (ex.: media, multimedia, cyber, status, matrix, etc., etc.), que já eram usadas, ainda que com sentidos ligeiramente diferentes, há mais de dois mil anos?. O leitor leu na edição de 18 de Outubro de 2001 que o DN ?passaria a usar a designação inglesa (sic) anthrax para o antraz?. Mas, segundo diz, ?anthrax é uma palavra grega, vinda por via latina, e não inglesa?, afirmando que ?talvez a confusão do DN resida no facto de o nome científico completo do antraz ser bacillus anthracis (…), que quer dizer, literalmente, ?bacilo do antraz?, sendo anthracis e anthrax formas diferentes da mesmíssima palavra, que não é, nunca foi nem nunca será, inglesa. Tal como não são, nunca foram nem nunca serão, inglesas palavras como media, multimedia, cyber, status, icon, item. (…).?

Em Evolução

O leitor Mário Marques chama a atenção para uma ?incorrecção que tem sido largamente difundida (…)?. Diz que apesar de ?a língua estar em evolução? (…), ainda não é correcto, gramaticalmente falando, e com as devidas excepções, dizer-se ?mais bem?!? E pergunta: ?Por que será que é frequente ver-se no V/ jornal este erro gramatical? Não seria pedagógico tratar-se um pouco este assunto (…)??

?Corrector Humano?

Diz a leitora Maria da Conceição Gonçalves: ?Os jornais desempenham um importante papel na divulgação da língua escrita, tal como a televisão a da língua falada. Acho que escrever ?buses?, como aconteceu no artigo do DN sobre a meia maratona 30 de Outubro de 2001) durante 90 minutos, 200 buses da Carris (…), é um erro, grave, que não gosto de ver no DN. Além do mais, todos sabemos que nestas eras informatizadas basta utilizar um ?corrector electrónico?, mas é importante que o ?corrector? humano esteja por trás a ler!?"