Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Estrela Serrano

DIÁRIO DE NOTÍCIAS

"Uma explicação infeliz", copyright Diário de Notícias, 11/4/02

"A edição do DN de 28 de Janeiro passado, tem o seguinte ?destaque? na primeira página: Comunistas preferem ?morrer sozinhos?, que remete para uma notícia na página seis, cujo título é Carvalhas diz ?não? ao PS. No subtítulo não há qualquer referência à expressão da primeira página, o mesmo acontecendo na abertura da notícia. A frase surge no terceiro dos sete parágrafos da notícia e diz, textualmente: ?As palmas que Carvalhas obteve nestes dois trechos do seu discurso atestaram que a maioria do partido continua fiel ao combate isolado da CDU, mesmo que ?morram de pé?, como disse, pouco antes, Jerónimo de Sousa, membro da Comissão Política do PCP?. Os trechos do discurso merecedores das palmas referidas pela jornalista versavam sobre o ?não à coligação com os socialistas? e o apelo ao voto na CDU. Não existe, no texto da jornalista Paula Sá, autora da notícia, qualquer outra referência à citada frase.

?Nada de mais às avessas do que foi produzido por Jerónimo de Sousa na sua intervenção no Encontro Nacional do Partido Comunista Português?, protesta, indignado, o leitor António Gamito. ?Jerónimo de Sousa referiu uma conversa com um camarada seu que lhe terá dito ?aquilo? de que ele se apressou imediatamente a discordar?, esclarece o leitor. Para A. Gamito, ?não há nada no que a jornalista relata na pág. 6 que possa fundamentar tal destaque, limitando-se a afirmar (…) na sua síntese ?noticiosa?, o que Jerónimo de Sousa (…) trouxe ao seu discurso para, de uma forma bastante enfática, rejeitar?. Para este leitor, ?desta vez, não se trata de discrepância entre títulos e factos noticiados. Do que se trata, na verdade, é de uma clara deturpação do que foi dito?. E, acrescenta A Gamito, ?se de erro se tratar há, no mínimo, lugar a um pedido de desculpas?.

Quatro dias depois da publicação desta notícia, o DN publicou uma carta de Jerónimo de Sousa com o título Não ?morrer de pé?, mas sim viver de pé!, onde o citado dirigente do PCP afirma que ?para além de anotar que a passagem em causa, aliás, como outras da referida peça, se esmera em deduções arbitrárias e sem fundamento?, esclarece que, na sua intervenção, manifestou ?um desacordo frontal e radical com qualquer idéia de ?morrer de pé??, tendo afirmado ?explícita e textualmente que ?queremos e haveremos de viver de pé??.

A carta de Jerónimo de Sousa era acompanhada de uma nota da redacção assinada por Paula Sá, onde a jornalista escreve: ?A palavra ?disse? reporta-se ao verbo ?dizer? e não ?anuir? ou ?concordar?. Na ex-FIL, durante o encontro nacional do PCP sobre as legislativas, Jerónimo de Sousa disse a expressão ?morrer de pé?. O restante teor da sua comunicação ficou pela sua própria conta.?

A resposta da jornalista indignou o leitor J. A. Ferreira, que considera que esta nota da redacção ?envergonha um jornal como o DN?.

A provedora não dispõe de qualquer explicação adicional sobre a utilização da frase que provocou a polémica, para além da nota da redacção publicada no DN, possivelmente por nada mais haver a acrescentar. O director, Mário Resendes afirmou, explicitamente, não ter comentários a fazer.

Numa leitura assumidamente subjectiva, a provedora interpreta a ausência de comentário por parte do director (e da autora do texto) como traduzindo um certo mal-estar provocado por esta notícia na própria direcção que é, como se sabe, sempre, a primeira responsável pelo conteúdo do jornal, qualquer que seja o seu membro mais directamente envolvido na edição de cada dia. Mas essa ausência ? excepcional no director ? constitui, por si só, uma elucidativa resposta.

A provedora não pode deixar de considerar que os reparos feitos por ambos os leitores têm razão de ser. De facto, não apenas a citação da frase ?morrer de pé? se encontra impropriamente referenciada ? quer do ponto de vista técnico, quer pela ausência de contextualização ? como, também, a resposta contida na nota da redacção constitui uma explicação infeliz, nada convincente, denotando algum desprezo pela inteligência dos leitores.

Por outro lado, enquanto no texto da jornalista (página interior) a frase é ?a maioria (…) continua fiel ao combate isolado da CDU mesmo que morram de pé?, na primeira página a frase muda para Comunistas preferem morrer sozinhos. Essa transformação transcende a responsabilidade da autora da notícia, como, também, não é sua a decisão de a trazer para a primeira página, decisão que recai, inteiramente, na direcção.

Uma notícia não é um exercício de decifração de frases ambíguas. Se se afirma que alguém ?disse?, o leitor acredita que o que foi dito possui, como autor, esse alguém. Como não é legítimo pensar que o DN pretendeu confundir os leitores, ou fornecer uma informação falsa, é lógico pensar que se tratou de um erro de compreensão das palavras de Jerónimo de Sousa, ou de um apontamento tirado á pressa, pela jornalista, na cobertura do evento onde as palavras foram produzidas.

Seria, então, apropriado, como refere o leitor, assumir o erro e pedir desculpa.
Por outro lado, a tentação de reservar para o jornal a última palavra é uma atitude de desvalorização do direito que assiste aos leitores (sejam, ou não, fonte das notícias) de reclamar sobre o que foi escrito. Essa atitude denota falta de cortesia por todos os leitores e não apenas pelos actores envolvidos nas notícias em causa.

Bloco-notas

Errar ? O jornalismo é, talvez, das profissões em que a probabilidade de errar é maior. Não são, apenas, erros formais, mas, também, erros decorrentes de simplificações excessivas, enfatização de pormenores pouco significativos, frases retiradas de contexto, citações incorrectas, informações obtidas de fontes pouco credíveis, enfim, não faltam ocasiões para um jornalista errar. Não é agradável assumir, publicamente, que se errou, corrigir o erro e pedir desculpa aos leitores e às pessoas afectadas. Mas é dever do jornalista não deixar um erro sem correcção, mesmo que nenhum leitor dê por isso. O erro maior é, contudo, um jornal persistir em considerar-se infalível.

Erros ? Vejamos alguns erros assinalados pelo leitor Carlos Mendes: na notícia Alcalinidade supera escala em Montargil e Maranhão, sobre as barragens do Alentejo (5/2), refere-se que ?pelo menos em Junho, o pH (…) atingiu os 10,9 quando o máximo recomendado é 0,9 (…). Mal estaríamos nós se o máximo recomendado fosse 0,9! O que se passa é que (…) o pH é medido de 0 a 14, na escala de Sorensen. Entre 0 e 7, diz-se que o pH é ácido. Entre 7 e 14, é alcalino. (…) Quanto mais baixo (mais próximo de zero) for o pH, mais baixa será a substância. Quanta mais alto (mais próximo de 14) for o pH, mais alcalina será. Dizer que ?o máximo recomendado é 0,9? significa que a água só estaria em ?boas? condições na estreita gama de valores de pH entre 0 e 0,9, o que corresponde a um pH extremamente ácido, do género ácido sulfúrico concentrado, certamente incompatível com os usos pretendidos para a água. (…) É a partir destes ?pequenos? erros que muitas vezes nascem alarmismos desnecessários?. Na mesma edição: ?A foto escolhida para ilustrar o artigo Assaltos e furtos diários assustam Carregado era da cidade de Vila Franca de Xira, que pertence a outro concelho.? Na edição de 7/2: ?No artigo Barragem de Alqueva combate desertificação diz-se que a barragem ?vai criar uma albufeira com uma área de cerca de 250 quilómetros cúbicos?. É área ou volume? Se for área, terá de ser expressa em quilómetros quadrados e não cúbicos?.

Estilo ? O estilo de um jornal nota-se em pequenos sinais: capacidade de assumir, com humildade, os erros cometidos, observação de regras de cortesia para com os leitores, prontidão na resposta aos leitores que pretendem contactar directamente um jornalista, enfim, regras simples, mas indispensáveis. A maioria dos ?livros de estilo? manda corrigir os erros. O novo Stylo do Le Monde diz que os erros são sempre corrigidos. E quanto às correcções recebidas pela redacção, o Stylo determina que sejam transmitidas à direcção no mais curto espaço de tempo possível, sendo que a publicação de uma correcção não é acompanhada de nenhum comentário da redacção. O DN prepara a actualização do seu livro de estilo. Os leitores têm razões para estar optimistas, porque ele constituirá, seguramente, uma referência para jornalistas e leitores."