Monday, 20 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

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“Neste ano de 1999, o Instituto Goethe e o Sesc realizaram, em São Paulo, o ‘Encontro Latino-Americano sobre TV de Qualidade’. E o jornalista Gabriel Priolli, na ‘Gazeta Mercantil’, comentou uma intervenção, uma espécie de desafio que, no encontro, foi lançado pelo professor Arlindo Machado, da USP e da PUC-SP: ‘Sempre que falamos de televisão, falamos de má televisão. Por que não viramos a câmera para o outro lado, o da boa televisão, que sempre existiu?’.

Reconhecendo que na televisão aparecem, lado a lado, o bom e o péssimo, Gabriel Priolli lembra, porém, que ‘fora da televisão, as coisas não são muito diferentes, dado que há excelência e mediocridade em qualquer segmento da cultura, e que a depauperação dos padrões culturais é problema universal’.

Como autor de teatro, estou a cavaleiro para subscrever as palavras de Arlindo Machado e Gabriel Priolli: porque na venerável arte praticada por gênios como Sófocles, Molière ou Calderón de la Barca, a excelência e a mediocridade também sempre viveram de braços dados, no Brasil e lá fora; e agora mais do que nunca, porque no mundo contemporâneo, fortalecidos pela quantidade, o mau gosto e a vulgaridade alcançaram uma amplitude sem precedente na história humana. Mas, chamando nossa atenção para que, ao lado do ruim e do péssimo, a televisão, como qualquer outro meio de expressão, pode mostrar (e mostra) excelente arte, Gabriel Priolli recorda que ‘uma coletânea de grandes obras brasileiras de TV deveria incluir, por exemplo, inúmeras minisséries produzidas a partir dos anos 80, sobretudo pela TV Globo. (…) Deveria listar quase toda a produção do Teatro 2 da TV Cultura nos anos 70. (…) Deveria considerar os diversos teleteatros (ou ‘casos especiais’) dirigidos por Ziembinski na Globo. E (…) inúmeros documentários, produzidos por diversas emissoras, que revelaram com sensibilidade os mais variados aspectos da realidade nacional’.

Entretanto, o que me pareceu mais importante no artigo de Gabriel Priolli foi o texto sobre o papel que tem a televisão na busca de uma identidade nacional. Identidade que não se confunde com qualquer indesejável uniformidade e que sempre vi, pelo contrário, como uma bela e fecunda unidade de contrastes. O que, por outro lado, não implica a aceitação do mau gosto e da vulgaridade da arte americana de massas que nos querem impingir como expressão do ‘universal’ (contraposto, por seus entusiastas, ao que seria o nosso ‘estreito nacionalismo’). Diz Priolli: ‘É imperioso reconhecer que é a existência de uma televisão nacional forte, cobrindo todo o território, que serve de anteparo aos efeitos perversos da globalização, à imposição universal de padrões culturais norte-americanos que tanto debilita outros países. (…) É preciso enfrentar a globalização de uma perspectiva altiva, apresentando-se ao intercâmbio cultural com a consciência de que temos tanto de bom a receber quanto a oferecer’.

Por tudo isso, mando daqui meu abraço a Arlindo Machado e Gabriel Priolli, cujas palavras aplaudo e subscrevo.”

“Televisão e identidade nacional”, copyright Folha de S.Paulo, 19/1099

 

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