Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Eu dei primeiro

CASO ENRON

Bethany McLean, da Fortune, é tida como a primeira repórter a escrever sobre as finanças duvidosas da Enron, um ano atrás. Com o reconhecimento, as propostas: um cargo de consultora da NBC News e a oferta de US$ 1,4 milhão para co-escrever um livro sobre o escândalo.

Mas outra equipe briga pelas honras: repórteres e editores do Wall Street Journal alegam que seu trabalho foi injustamente ignorado. "A Enron não desmoronou por seu próprio peso", diz o editor Jonathan Friedland. "Sem nossa reportagem, nada disso teria acontecido."

Seth Mnookin [New York Magazine, 11/3/02] estabelece uma cronologia dos fatos: em setembro de 2000, Jonathan Weil escreveu longa reportagem para a edição texana do Journal (que não mais existe) sobre a estranha contabilidade de várias companhias de energia, dedicando quatro parágrafos à Enron. Quase seis meses depois, em março de 2001, Bethany McLean assinou a matéria Is Enron overpriced?, que não teve muita repercussão. Em outubro, o Journal publicou série de três matérias, de Rebecca Smith e John Emshwiller, detalhando as parcerias não-ortodoxas da companhia. Muitos acham que Weil merece o crédito de ter sido o primeiro a abordar o caso, mas defendem que Smith e Emshwiller concorram ao Pulitzer deste ano.

"A matéria da Fortune basicamente disse que esta é uma companhia que ninguém entende. Mas não mostra o que há de errado. Foi preciso que Becky e John fizessem isso", diz o vice-editor do Journal, Daniel Hertzberg. Howard Kurtz, crítico de mídia do Washington Post, acha que os rivais estão sendo maus perdedores: "Uma repórter de 31 anos os superou e ao resto do mundo por uma margem considerável."

A MÍDIA & A BOLSA

"Meu objetivo é mostrar às pessoas como Wall Street funciona de verdade. Ela me deixou com um gosto amargo." A afirmação é de Nicholas Maier, que está lançando o livro Trading with the enemy (negociando com o inimigo), no qual conta como o famoso comentarista de TV e operador de investimentos James Cramer, para quem trabalhou por cinco anos, ganhou muito dinheiro espalhando boatos sobre ações de sua carteira.

"Jim (apelido de James) fazia o contrário do que falava na televisão", afirma o autor, que acusa os apresentadores Maria Bartiromo e David Faber, da rede CNBC, de serem cúmplices dos golpes. Certa vez, conta Maier, Faber ligou para Cramer, que imediatamente ordenou a compra de 100 mil ações da MCI. "Vamos ter notícias!", disse o funcionário encarregado da compra, ao telefone com a corretora Goldman Sachs, que também investiu nas mesmas ações. Menos de uma hora depois, Faber foi ao ar anunciando que a MCI seria alvo de um possível processo de aquisição, o que faria suas ações subirem.

"Nossa estratégia era fazer lucros imediatos. Na TV, Jim recomendava ações que tínhamos. Assim que subissem, nós as vendíamos." A sujeira não pára por aí. Cramer também tinha bom relacionamento com os bancos de investimentos. Uma vez, o comentarista, numa mesa de jogo, soube de um amigo do Banco Salomon Smith Barney, no dia seguinte, que a empresa mudaria a indicação de compra de uma certa ação. Quando a alteração foi feita, qualificando a ação como "altamente recomendável", Cramer já adquirira lote de 50 mil, do qual se livrou rapidamente, fazendo bom lucro. Dicas quentes como essas, segundo Maier, são comuns, pois as corretoras ganham comissão sobre as transações. "Analistas em todas as principais corretoras faziam isso."

Segundo o sítio Forbes.com [1/3/02], a CNBC divulgou comunicado no qual defende a idoneidade de seus apresentadores e diz ter sido informada por Cramer, que não quis comentar o livro, de que Maier seria um ex-funcionário frustrado, demitido por má performance.