Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Eugênio Bucci

REALITY SHOWS

"O melodrama e a gente", copyright Folha de S. Paulo, 24/02/02

"Às vezes ainda se ouve por aí alguém dizendo que sexo sem amor não dá. Soa um tanto ingênua a alegação, meio fora de tempo, como um simca chambord atrasando o tráfego. Amor, o que é isso? Coisa mais anos 50…

Pobre palavra essa, amor. Palavra vã. O que se quer dizer, quase sempre, não é que sexo precisa de amor, mas que sexo precisa de narrativa. O amor entrou aí porque é uma narrativa. É a narrativa mais convencional de todas, com a vantagem de ser do tipo ?dois em um?: funciona como um salvo-conduto contra a repressão interior (autoriza o ato em si) e funciona como historinha com começo, meio e final feliz (alma gêmea, príncipe, sapo etc.); dá um sentido ao desejo sem razão. Se visto como o que é, uma narrativa, o amor não passa de uma perversão sexual como qualquer outra. Um pouco repetitiva demais, talvez, mas não importa. O amor segue sendo bastante popular.

Sua popularidade se encontra na raiz do secular sucesso do melodrama. Fez a glória dos folhetins nos jornais do século 19 e, depois, das radionovelas e telenovelas. Isso sem falar nos filmes, nas canções gementes, nos romances (os bons, inclusive) e nos poemas fáceis (alguns deles até bonitos). O melodrama, do mais requintado ao mais elementar, cumpre uma missão sagrada, que é a de nos dar a narrativa nossa de cada dia. A narrativa dentro da qual a gente vive imaginariamente. A comunicação amorosa seria impraticável sem a consolidação linguística realizada pelo melodrama de massa. É ele quem dita a entonação e sequência das palavras, bem como os trejeitos e os gestos que se aplicam à corte adotada no acasalamento entre os humanos.

O encanto das novelas está precisamente nisso. Não está nos lábios molhados e, vá lá, arfantes da mocinha, nem nas piruetas a dois sob lençóis de cetim. Nada disso. O encanto da novela está onde sempre esteve, na sua narrativa e no uso imaginário a que ela se presta. Ela fornece fórmulas para as muitas soluções que o desejo nos pede no cotidiano: desrepressão, sublimação, denegação, o que se queira. E isso de um modo tal que a(o) outra(o) nos entende. As novelas são o que são porque dão a narrativa da vida íntima do brasileiro.

E daí? Qual a razão de tantas considerações acerca de tanto amor? Já me explico. Tudo isso até aqui foi escrito a propósito dos ?reality shows? que agora nos cercam, latindo, por todos os lados, por todos os canais e por todos os canis. Tudo isso foi dito como preâmbulo de duas, e apenas duas, observações.

A primeira: que esses ?reality shows? vêm para esbanjar algo que o melodrama não consegue proporcionar, a saber, os corpos supostamente reais, no limiar do desgoverno, a carne-verdade. Prometem escancarar, com sua fidedignidade documental, o instante exato em que a fraqueza se torna a mais massacrante das forças e o sujeito sucumbe ao pecado. O convite para ver tal espetáculo, convenhamos, é tentador. Daí que a gente vê, fica vendo, e depois vai ver de novo, outros excessos virão, até que, você pode apostar, virá o cansaço. Lentamente, ele virá. Tanta oferta de carne tenderá à saturação, exatamente como as tabelas de preços são saturadas de números e as listas telefônicas são saturadas de nomes próprios.

Donde chegamos à segunda observação: os ?reality shows? vão se saturar porque a eles sobra gente ?real? dentro da jaula, mas a eles falta narrativa. Eles têm os corpos, mas não têm sentido narrativo, sentido nenhum a não ser aquelas gincanas ridículas. Não têm sentido dramático, ou melhor, melodramático. Aí alguém vai dizer, de novo: sexo sem amor não dá. Será lacônico.

Na vida real, real mesmo, no duro, a gente até gosta de pornografia, mas não vive sem melodrama. Político, religioso, amoroso. Algo que nos diga que a gente faz algum sentido neste mundo-cão. É uma miséria medonha, mas é o que é."

 

"A depuração da estupidez", copyright Folha de S. Paulo, 21/02/02

"Da Holanda costumavam sair melhores naus. Daquelas terras tomadas do mar partiu de volta à Inglaterra, em 1689, John Locke. Era o fim de um exílio de mais de cinco anos para escapar da perseguição política de que ele e seu grupo protoliberal foram vítimas. Três patrimônios da civilização devem ser tributados, em alguma medida, a esse retorno e ao abrigo que os holandeses proporcionaram ao filósofo: a idéia de que todo governo tem limites, a tolerância religiosa e a liberdade de imprensa.

Saudosos tempos. Pois parece que vai aportar no Brasil mais um resíduo cultural concebido em terras baixas. Trata-se de ?Love Boat?, um enlatado holandês importado pela TV Globo da série, que parece interminável, dos ?reality shows?. A patente é do grupo de mídia Edemol, o mesmo que detém os direitos autorais sobre o formato de ?Big Brother Brasil?. A ?idéia? é confinar, num barco, uma porção de ?marmanjos sarados? e outra, equivalente, de ?garotas preparadas? para o livre fluxo, pormenorizadamente monitorado, de hormônios e neurônios.

A febre reumática de criatividade não pára por aí. Enquanto a ?Casa dos Artistas?, de Silvio Santos, já está na segunda edição, uns planejam acompanhar o dia-a-dia de gordinhos em situação de grave restrição alimentar, outros pretendem testar a resistência física de gente comum. Para ?quem gosta de olhar?, é um prato cheio. E, vá lá, há algo a observar também.

Talvez nunca na história se tenha produzido tão farta documentação sobre o que seria a psicologia do ser humano em estado de natureza, já que falamos da tradição de pensamento de Locke. Em programas como ?BBB?, as regras do jogo agem justamente para liberar o potencial conflitivo dos participantes, que é geralmente contido pela ação do Estado a bem da civilização. Para alcançar o butim, o participante está obrigado a eliminar todos os seus concorrentes. Até a morte -ou o ostracismo ou o banimento- é encenada no ritual periódico de expulsão dos mais fracos.

Pode-se contra-argumentar que, desse ponto de vista, não há diferença relevante entre as regras dos ?reality shows? e as de qualquer outra gincana. O detalhe, nada banal, é que nos programas do tipo ?BBB? há uma inédita abundância de elementos comportamentais que se transformam em imagens que, por sua vez, são oferecidas -precariamente editadas, mas ainda assim editadas- a milhões de pessoas de forma simultânea.

Para finalizar, seria possível até dizer que estamos diante de espetáculos catárticos. Não digo no sentido em que Aristóteles descreveu a tragédia, na qual os elementos poéticos agem para apresentar ao espectador uma versão purificada, impossível de ser encontrada na ?realidade?, de sentimentos como o terror e o perdão.

O que as antinarrativas de ?BBB? e congêneres nos mostram é a estupidez humana em sua forma pura. Se essa hipótese for aceita, estará negado, na essência, o termo ?reality show?.

É descabido esperar que o grande público seja capaz de compreender a ?lição filosófica? nos shows de realidade, como se esses programas pudessem traduzir para multidões a melhor literatura sobre tipos humanos. Não podem. É plausível imaginar que a pedagogia de ?BBB? atue justo no sentido contrário, unilateral e destruidora."

 

"Anunciantes boicotam ?Big Brother México?", copyright Folha de S. Paulo, 23/02/02

"Após enfrentar críticas da Igreja Católica e de ONGs que defendem a qualidade da programação da TV, agora a Televisa entrou em atrito com o mercado publicitário em razão da estréia de ?Big Brother?. Cerca de 30 empresas estão se recusando a fazer anúncios nos intervalos comerciais do ?reality show?, que começa a ser exibido pela emissora no dia 3 de março. Notícia divulgada pelo site ?Blue Bus? afirma que os anunciantes mexicanos, entre eles a Pepsi e a Colgate, acreditam que o programa seja uma afronta à ?dignidade humana?."