Monday, 20 de May de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1288

Faroeste no Ceará

A equipe deixa Hidrolândia em direção a Canindé, onde prestaria depoimento.

 

Copyright O Povo, 23/2/00

“Lamentamos o fato em nome dos prefeitos do Ceará. Os atos de tortura e espancamento contra a equipe do jornal O Povo, promovidos pelo prefeito de Hidrolândia, não condizem com o comportamento de um dirigente municipal, que representa toda uma comunidade. Luís Antônio Farias não é associado da Aprece”, José Irineu, presidente da Associação dos Prefeitos do Estado do Ceará (Aprece)

“Eu estou profundamente indignado. É a volta do coronelismo. É um ato de selvageria que não é possível imaginar que aconteça às vésperas do terceiro milênio. É de uma brutalidade e prepotência inomináveis. Se ele faz isso com a imprensa, isso dá uma mostra do que ele faz lá no município com quem lhe faz oposição. Eu espero que a polícia cumpra a lei. Nisso entenda-se, efetuar a prisão desse prefeito e abrir um inquérito policial para apurar o caso. Também que a Câmara tome uma atitude e afaste esse prefeito. Ele deu provas de que não tem a menor condição de administrar uma cidade”, João Alfredo (PT), deputado estadual, da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Assembléia Legislativa

“Não é a primeira vez que acontece isso. Já aconteceu não só com repórteres, mas também com adversários políticos de lá que tentaram fiscalizar as obras da prefeitura. O que acontece na Hidrolândia hoje é uma questão suprapartidária, é que o atual prefeito entende que, por ter sido eleito, é o dono da cidade. Ele chega ao ponto de, ao saber que alguém é adversário político – basta que ele apenas saiba – chegar a agredir fisicamente. Basta criticá-lo. O que acontece hoje na Hidrolândia, independente de questão partidária, merece meu repúdio e eu espero que a SSP tome providências no sentido de acabar com esse tipo de autoritarismo e quero em meu nome manifestar a minha solidariedade à equipe do O Povo que foi agredida”, Nelson Martins (PT), vereador de Fortaleza, natural de Hidrolândia

“Esse prefeito dá uma mostra de que além de covarde é um bandido. O Sindicato dos Jornalistas exige uma posição da Assembléia Legislativa e do Governo do Estado para que se faça justiça. Nós não podemos admitir cárcere privado e agressão física a profissionais que estavam no exercício de sua função. Esse é um verdadeiro ato de gangster. E pode ter a certeza de que essa denúncia vai chegar em todos os recantos do País”, Paulo Mamede, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Ceará

“É um fato profundamente lamentável, que contraria frontalmente os direitos humanos e fere todo o exercício constitucional no que diz respeito ao trabalho da Imprensa. Eu espero que as autoridades da Segurança Pública tomem as providências necessárias. Essa atitude extrapola qualquer convívio social que se possa dizer razoável. Não se pode mais calcular o que seja essa atitude. Sem dúvida não é hábito digno de quem dirige uma comunidade”, Paulo Quezado, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seccional do Ceará (OAB-CE)

“Eu já recebi denúncias de que ele utiliza a unidade policial lá para fazer o que bem entende, é truculento. Ele faz isso rotineiramente, vai à delegacia e manda prender e soltar na hora que quer. Não fui surpreendido por essa truculência. Já recebemos denúncias que ele faz isso costumeiramente. A gente espera que o Ministério Público tome as providências e abra um inquérito contra esse prefeito”, Deodato Ramalho, advogado e presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-CE

“Estou solidário. Vou apresentar voto de repúdio na Câmara. Isso é horrível, não pode acontecer. Prestamos total solidariedade ao pessoal que estava lá e ao jornal”, José Maria Couto (PMDB), presidente da Câmara Municipal de Fortaleza

“O meu sentimento ao saber deste ocorrido é de indignação. É inadmissível, num Estado de direito, que não se permita o trabalho da Imprensa, que prega os valores éticos e quer a divulgação dos erros cometidos pelos governantes”, José Pimentel, deputado federal (PT)

“Tão logo tivemos a notícia, acionamos o superintendente da Polícia Civil (José Alberto Oliveira) e a Polícia Militar. O delegado regional de Canindé (Hilton Freitas) foi para a cidade de Hidrolândia. Lá, os policiais constataram a agressão à equipe do O Povo e que o grupo do prefeito havia se apossado de material. Mandamos segurança para evitar possíveis tumultos de partidários do prefeito. O IML fará todos os procedimentos médicos necessários”, general Cândido Vargas de Freire, secretário da Segurança Pública e Defesa da Cidadania do Ceará

 

Brasília, 23/2/2000 – A Associação Nacional de Jornais – ANJ emitiu hoje (23) Nota de Protesto contra agressão praticada pelo prefeito Luís Antônio Farias, de Hidrolândia, município a 240 quilômetros da capital do estado do Ceará, contra o jornalista Erick Guimarães, o repórter- fotográfico Marcos Studart e o motorista Valdir Gomes Soares, do jornal O Povo, de Fortaleza.

O presidente da ANJ, Paulo Cabral, e o vice-presidente Renato Simões, responsável pelo Comitê de Liberdade de Expressão, manifestaram solidariedade aos profissionais agredidos e à direção do jornal O Povo, nesse episódio que considerou grave. Os dirigentes conclamaram as autoridades a tomar as providências cabíveis e punir os culpados, reafirmando que “num regime democrático, é necessário compreender e respeitar o trabalho jornalístico e a liberdade de imprensa, garantida pela Constituição Federal de 1988”.

A equipe do jornal O Povo foi enviada ao município de Hidrolândia para apurar denúncias contra o prefeito Luís Antônio Farias (PFL), acusado de cometer uma série de agressões físicas contra opositores, de corrupção na entrega de cestas básicas e de restringir o atendimento nos postos de saúde a seus aliados. As agressões contra a equipe de reportagem começaram enquanto o jornalista Erick Guimarães entrevistava o secretário de Educação, juntamente com o repórter fotográfico Marcos Studart. O fotógrafo ouviu gritos do lado de fora da sala e ao sair viu o motorista Valdir Gomes Soares sendo agredido pelo prefeito Luís Antônio Farias. Studart tentou socorrer o motorista e também foi agredido.

Segundo relataram, Marcos Studart e Valdir ficaram detidos no prédio municipal e passaram por uma sessão de tortura comandada pelo prefeito, que insistia em saber quem tinha enviado a equipe. O motorista Valdir recebeu tapas nas orelhas, na nuca, no rosto e nos membros superiores, que resultaram em diversos cortes, inclusive na orelha.

Em uma semana, o Programa ANJ de Defesa da Liberdade de Imprensa registrou duas agressões contra profissionais da imprensa que estavam no exercício da profissão. No dia 17 de fevereiro, o repórter-fotográfico Juarez Rodrigues, do Estado de Minas (Belo Horizonte) foi agredido por policiais militares. Vera Pinheiro, assessora de Imprensa da ANJ