Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Fernanda Dannemann

RETIRO DOS ARTISTAS

"A verdadeira Casa dos Artistas é aqui", copyright Folha de S. Paulo, 3/03/02

"Fundada em 1918, a instituição conhecida como ?Casa dos Artistas?, em Jacarepaguá (zona oeste do Rio), e que oficialmente chama-se Retiro dos Artistas, não tem o glamour do ?reality show? da TV, mas muitas dificuldades. Funcionários estão com salários atrasados, dívidas ameaçam o fornecimento de luz, água e telefone, ratos transitam pelo ambulatório. À frente da ?Casa? há dois anos, o ator Stephan Nercessian vem fazendo campanhas na Rede Globo e promovendo eventos para angariar fundos e melhorar a vida dos 41 idosos residentes, muitos deles ex-atores. ?Quando assumi, as dívidas chegavam a R$ 2 milhões, contraídas em 20 anos?, diz ele. ?Tem sido difícil, mas, por incrível que pareça, a situação está melhor.?

Não há médico em período integral, o que, segundo a Secretaria Municipal de Saúde do Rio, é ilegal. Nem psicólogo, assistente social ou nutricionista em jornadas regulares. No ambulatório, faltam remédios e equipamentos. Se algum dos idosos passar mal, é preciso correr para um hospital na ambulância doada pela primeira-dama do Rio, Rosinha Matheus. Foi ela, através da ONG Vida Obra Social, quem viabilizou a reforma da pequena vila de 35 casinhas de dois quartos -abafadíssimas-,do refeitório e do teatro com 300 lugares, onde Altair Farias da Silva, 84 anos, pretende voltar a trabalhar como o palhaço Cocada. Ao som do ?hilariê? de Xuxa em sua velha vitrola, ele relembra os tempos do circo e diz que ainda anima festas infantis. É também no teatro da ?Casa dos Artistas? que Sylvia Guimarães, belíssima aos 80, pretende voltar ao palco. ?Vou estrear uma peça que levei no Cacilda Becker, chamada ?Deus e a Mãe?, escrita por mim. Mas eu espero mesmo é por um convite da Globo?, diz ela, que não gosta do ?reality show? do SBT: ?O Retiro dá de dez nesse programa do Silvio?. Apesar dos planos de Altair e Sylvia, os residentes da ?Casa? da vida real não costumam sonhar mais. A atriz Iolanda Cardoso, por exemplo, que já trabalhou em diversas novelas da Globo, está cega aos mais de 70 anos e apóia-se numa bengala enquanto afirma que está bem. Recentemente internada num hospital público, Iolanda foi levada ao Retiro pelos amigos Paulo Goulart e Nicete Bruno. Outro morador conhecido é José Carlos Kurt, que foi o antagonista louro e mal-humorado de ?Os Trapalhões? durante anos. Desde 1996, ele vive lá com a mulher e a filha. Aos 69, e esquecido pelo público, Kurt tem mal de Alzheimer.

Piscinas

Mas há quem drible as dificuldades para manter-se ativo. O argentino Julio Natale, elegantíssimo em sua idade não revelada, cuida dos 25 mil livros e 17 mil discos doados ao Retiro, mantendo o acervo a salvo das goteiras e limpando tudo para evitar traças e mofo. Na biblioteca, cujas estantes ele mesmo construiu, o calor é insuportável. E, por falar em calor, as duas piscinas do lugar são impecavelmente limpas graças também a Julio, que gasta com a manutenção parte de seu tempo e de sua aposentadoria.

Mas, como não há um salva-vidas -exigência do Corpo de Bombeiros-, os residentes não podem se refrescar nas piscinas. A dançarina húngara Elisabeth Cserba, 80, campeã de natação na juventude, recorre à sombra das árvores do jardim. A sala de ginástica, um quartinho com alguns aparelhos, também não pode ser usada, pois falta instrutor.

Parece difícil ser feliz nesta ?Casa dos Artistas?, onde predominam o ócio, o saudosismo e as carências. Falta também coragem para assumir as queixas. Temendo represálias, dois residentes pediram anonimato ao reclamarem da falta de qualificação dos funcionários e da qualidade da comida.

Em meio a tantas diferenças entre a ?Casa dos Artistas? real e a da TV, Sylvia Guimarães diz que adora viver ali. ?Não me falta nada e sou bem tratada, por incrível que pareça?, diz. Rosa da Cunha, 67, atriz portuguesa que veio para o Brasil em 1958, tem os olhos tristes e lamenta a falta de horizontes. ?Na TV não há papel para artistas velhos?, afirma. Coraci Pereira da Silva, o palhaço Tuska, com passagens pelos programas da Xuxa e dos Trapalhões, diz que quando aparece trabalho, as agências ficam com parte do cachê. Enquanto isso, Noêmia dos Santos, também dançarina, troca de roupa pela terceira vez no dia, passa um batonzinho e sai para comprar água e refrigerante a fim de abastecer a geladeira. E arremata: ?Vai uma Coca-Cola aí??"

 

CENSURA OU CONTROLE

"A falsa liberdade de expressão", copyright Jornal do Brasil, 02/03/02

"Somos diariamente bombardeados por más notícias. São seqüestros, assassinatos, epidemia, violências várias, assaltos, corrupção. A lista continua. Ao mesmo tempo, nos vemos ameaçados pelo desânimo ou por uma atitude passiva, esperando unicamente do governo a solução. Pouco se fala no recurso aos indivíduos ou à própria comunidade para corrigir ou aliviar essa situação. Pensemos no problema da dengue.

Hoje, desejo recordar algumas passagens de São Paulo, na primeira e na segunda carta aos tessalonicenses. O Apóstolo procura ajudar a Igreja de Tessalônica, que se encontrava em dificuldades assemelhadas às que nos afligem. Eis alguns tópicos da primeira epístola: ?Esta, a vontade de Deus: A vossa santificação, que vos aparteis da luxúria (…) sem vos deixar levar pelas paixões (…). Quem desprezar estas instruções, não despreza um homem, mas Deus. (…) Admoestai os indisciplinados; reconfortai os pusilânimes, sustentai os fracos.? E, da segunda carta: ?Justo é que Deus pague com tribulações os que vos oprimem e que a vós, os oprimidos, vos dê o repouso, juntamente conosco (…).? Refere-se ?aos castigos? a quem não obedece ao Evangelho de Nosso Senhor Jesus (…). Portanto, irmãos, ficai firmes; guardai as tradições que vos ensinamos oralmente ou por escrito?. Para superar os problemas é preciso ser fiel a Jesus Cristo.

Estas e outras passagens nas duas epístolas paulinas são motivadas pelo zelo do apóstolo diante dos problemas enfrentados pela comunidade cristã nascente. Diante da multiplicidade de obstáculos à paz e à concórdia que surgem a cada passo, em nosso caminho, parece-me útil convidar a refletir sobre a realidade atual.

Os males são conhecidos, pois nos fazem sofrer e desafiam nossa capacidade de erradicá-los. Eles vão da miséria física à decadência moral, simbolizadas pela nudez que campeia, desaparecimento dos valores autênticos na vida pública e particular, mortes por balas perdidas, a qualquer hora do dia e da noite. Os tiroteios entre grupos de bandidos ou deles com a polícia se assemelham a uma guerra civil. Há um profundo mal-estar e, no entanto, não se assume com eficiência a parcela de responsabilidade que cabe a cada um. Nem se vai à raiz dos problemas. Exatamente é sob esse aspecto que desejo, respeitosamente, chamar a atenção. Na época de São Paulo a prática da vida cristã sofria violência. Sem dúvida, hoje, repetimos a situação da época, através de uma falsa liberdade de expressão que, na verdade, é um incentivo e um ensinamento prático de tudo o que corrói as bases da sociedade. Falar em censura é ofensivo, mas esquecem que deve ser livre a manifestação de idéias políticas e outras sobre legítima organização social, não as que destroem a inocência da criança, abrem as portas para as drogas, exterminam os valores morais, protegem pequenos grupos que, louvando desvios de conduta, empolgam multidões. O enfraquecimento ou a supressão dos princípios éticos afeta os alicerces, sustentáculos das relações sociais, e promove a destruição da família. Isso ocorre também quando se aceita como sociedade doméstica algo que é o contrário de um lar. Refiro-me à união entre homossexuais. Uma coisa é a prática da caridade, acolher as pessoas com desvios de comportamento sexual e outra, bem diversa, acontece quando se exalta essa condição contrária à natureza do contrato matrimonial.

Para essa perturbação do bem-estar público, contribuem alguns servidores da Justiça que interpretam, às vezes, segundo critérios subjetivos, promovendo assim, a deteriorização da sociedade. Outro setor que também responde ocasionalmente pelo descalabro reinante é o Legislativo, ao aprovar leis que possibilitam a destruição dos princípios éticos. Certamente, grande responsabilidade cabe aos formadores da opinião pública. Os que militam na mídia, desde os proprietários aos escalões menores, respondem diante de Deus. Receberão a coroa da vitória se serviram ao bem público promovendo a observância da lei natural e divina. E o castigo, se utilizaram o poder que têm nas mãos para a destruição de valores que asseguram a estabilidade dos indivíduos e da sociedade. Um programa televisivo que promove a falta de caráter e outras deficiências, na verdade é uma escola do mal, desde a corrupção administrativa, até a destruição dos lares, à violência e à difusão da droga.

A culpa não é só dos personagens que encenam os fatores que corroem a vida digna, mas também, em grau diverso, dos que colaboram com esses programas. Aí se incluem os eleitores de candidatos favoráveis ao aborto, à exaltação da homossexualidade, os que dificultam o ensino confessional nas escolas, os corruptos e tantos outros. Acrescem aqueles que adquirem produtos e utilizam o estímulo dos instintos sexuais para aumentar o lucro com a venda dos mesmos.

Por que escrevo ainda sobre matéria tantas vezes abordada por mim? Ao ler, mais uma vez, aqueles conselhos de São Paulo, lembrei-me de pedir que fossem seguidos. Cada um obedecendo ao que, no início, a Igreja e o Apóstolo haviam ensinado, terá tranqüilidade, ao comparecer diante do justo Juiz. (Dom Eugenio de Araujo Sales, cardeal, é arcebispo emérito da Arquidiocese do Rio de Janeiro)"