Saturday, 13 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1296

Fernando Martins

JORNAL DE NOTÍCIAS

"Chapéus há muitos", copyright Jornal de Notícias, 9/3/02

"Há já muitos anos, contaram-me como autêntico um episódio anedótico cujo ridículo, por extrapolação, se ajusta perfeitamente a um sem número de casos do quotidiano.

Dizia-se, pois, que determinada personalidade do Porto achou por bem dar uma festa numa quinta que possuía para os lados de Santo Tirso. A decisão foi, no entanto, muito sobre a data do acontecimento, o que obrigou a umas quantas improvisações _ mormente a nível de pessoal. Estava-se no tempo em que o chapéu era componente quase indispensável da indumentário dos homens, e o dono da casa achou que, para a tarefa simples de recolher os chapéus dos convidados, servia, perfeitamente e na circunstância, um moço de lavoura de boa aparência, a quem recomendou:

?Já sabes, os cavalheiros entram, e têm que entregar-te a ti o chapéu, que vais guardar no jardim de inverno?.

Tinha o movimento das chegadas começado pouco antes, e um burburinho, junto à porta, fez voltar as cabeças. O pobre do moço promovido a guarda-roupa discutia acaloradamente com o embaixador de Espanha, porque o diplomata, que chegara de cabeça descoberta, não tinha chapéu para entregar-lhe. Portanto, em seu entender, não podia entrar.
Também no jornalismo há ?chapéus?.

Todo o jovem jornalista, qualquer que seja a ?cartilha? por que tenha aprendido, sabe dizer que uma notícia tem que dar resposta a seis perguntas: ?o quê, quem, quando, onde, como e porquê?. Todos os manuais o indicam, até aqueles que passam por sobre questões eventualmente tanto ou mais importantes do que as do ?pacote? tradicional. Como, por exemplo: ?para quê?. E com que consequências??

Porém, os mecanismos não podem, em circunstância alguma, retirar aos jornalistas a ponderação que todos os casos exigem.

Um exemplo da exigência de uma análise cuidada é o suscitado pela reclamação de N. Soares, a propósito da reportagem publicada em ?Grande Porto?, faz hoje uma semana, sobre a protecção policial a Rui Rio, na sequência das ameaças de ?mais de meia centena de pessoas? que se juntaram defronte da residência do presidente da Câmara do Porto.

Contesta o leitor a publicação do nome da rua onde mora o autarca e da fotografia da casa _ publicação que, segundo N. Soares, resulta num ?mero incentivo ao desacato e eventualmente à violência, dentro do contexto do que se tem vivido na nossa cidade?.
Paulo Felizes, coordenador do ?Grande Porto?, afirma compreender a preocupação do leitor. No entanto, em sua opinião, ?(…)dadas as circunstâncias dos acontecimentos da noite de 1 de Março/madrugada de 2 de Março, seria incorrecto não referenciar os locais onde as coisas ocorreram. Dir-se-á que era inevitável.? Paulo Felizes acrescenta: ?Devemos lembrar, contudo, que não foi o JN o primeiro a divulgar onde o dr. Rui Rio mora. Dias antes, uma televisão de grande audiência mostrou imagens da casa e do local, acompanhadas por uma pequena entrevista à mulher do presidente da Câmara do Porto, na qual ela dizia que não se intimidava com ameaças.

?De todas as formas, sempre foi preocupação desta secção (e pensamos, também, deste jornal) acompanhar com extremo cuidado as notícias sobre a polémica entre a Câmara do Porto e o seu presidente e o F. C. Porto e os seus adeptos. Basta ver, por exemplo, e em comparação com outros órgãos de comunicação, a forma como foi tratada a manifestação da Associação de Comerciantes do Porto e a contra-manifestação dos Superdragões. Fizemo-lo sempre na perspectiva de, ao contrário de incitar à arruaça, procurar a pacificação e a tranquilidade.?

Não vê o Provedor (que não se ocupa das faltas deontológicas e do pouco senso dos outros ?media?) onde radique a inevitabilidade da divulgação da morada. Morada que, apesar de tudo, nem com a divulgação das imagens citadas a própria emissora de televisão revelou. ?Incorrecto? foi, isso sim, na opinião do Provedor, alimentar a fornalha de uma fogueira que poucos saberão quem, como e com que intenção acendeu. E atiçá-la com um dado importante.

O Conselho de Redacção perfilha a opinião do Provedor, ao considerar:

?1 _ O tratamento de incidentes e conflitos exige sempre dos jornalistas uma ponderação cuidada dos interesses, valores e direitos em jogo, sendo de esperar maior nível de exigência na análise das informações a publicar nos cenários de maior tensão ou quando, directa ou indirectamente, possa estar ou vir a estar em perigo a integridade física de pessoas.

?2 _ A publicação de pormenores relativos a pessoas e/ou instituições que possa contribuir para fornecer a uma das partes em conflito, ou a incertos, elementos susceptíveis de expor as fragilidades da outra deve ser ponderada em função do seu eventual interesse público.

?3 _ A publicação de pormenores como a localização da residência de pessoas objecto de perseguições ou ameaçadas de agressão nada acrescenta, geralmente, ao interesse noticioso do assunto e, por vezes, pode contribuir para colocar em risco a integridade física das pessoas.?

De facto (e o Provedor tem-no lembrado a propósito da identificação de algumas pessoas acusadas de certos crimes ? esteja o processo em fase de julgamento ou não), são muitos e frequentes os casos em que o acréscimo de credibilidade que advém da identificação de uma pessoa não compensar os riscos para a honorabilidade dessa mesma pessoa, com os consequentes reflexos no seu agregado familiar. E se até a identidade é, algumas vezes, protegida pelo bom senso, que dizer de outros pormenores, como por exemplo a morada?

No confronto que tem extremado posições no Porto, com reflexos ainda não determináveis na vida nacional, um dos protagonistas é, como todos sabem, o presidente da Câmara do Porto, sobejamente identificado pelo cargo que desempenha. Muitos dos outros elementos sobre o dr. Rui Rio, ainda que eventualmente apetecidos pela curiosidade de alguns, fazem parte do foro privado do cidadão e nada têm a ver com a sua qualidade de autarca.

A Direcção do JN não partilha a mesma posição e, através do director adjunto Alfredo Leite, diz, nomeadamente:

?Inquieta-se o leitor com a publicação, como informação complementar da notícia em questão, do nome da rua onde habita Rio. Mais adiante, questiona o intuito da publicação de uma foto factual, captada pouco depois de Rio ter abandonado a dita artéria num carro-patrulha da PSP.

?Agora, vamos a alguns factos que, eventualmente, possam não estar na posse do leitor: foi Rui Rio quem, ainda na ?ressaca? de uma vitória improvável, se passeou junto a casa, na frente de várias câmaras de televisão. Sem ocultar nada nem ninguém. Foi a mulher de Rui Rio quem, já durante a actual ?crise?, falou aos media, à porta de sua casa, após uma suposta ?ameaça de bomba?. Até aos acontecimentos que motivaram a notícia agora em análise, qualquer cidadão poderia saber o nome da rua, o número da porta, o andar e, consequentemente, um dos números de telefone do cidadão e deputado Rui Fernando da Silva Rio (o nome completo também é público), agora presidente da Câmara.

?Ou seja, não só o nome da rua (que o JN publicou como nota informativa) como o número da porta, o andar e os telefones de Rio eram dados públicos, disponíveis a qualquer pessoa, por exemplo através dos serviços informativos 118 da Portugal Telecom. E só por saber isto o JN revelou o nome da rua. Se Rio tivesse feito antes o que fez na semana passada _ cancelar os referidos telefones, requisitar um número confidencial e, assim, garantir a sua privacidade, por certo o JN não teria dado a estampa os dados que tanto parecem indignar o leitor. Como não referiu _ por não ser público _ qualquer dado relativo à casa de Viana do Castelo onde o mesmo Rio permaneceu durante o fim de semana e onde foi entrevistado pelo JN.?

Não diz a Direcção que o número de Rui Rio não vem na lista telefónica, impressa muito antes de ele ter sido eleito (o que não será por acaso)… Mas, obviamente, não está (nunca esteve) em causa a legalidade da divulgação da morada. A questão tem a ver com o senso, o mesmo senso que também nos diz que, como é evidente, os incidentes recentes constituem uma meta que permite determinar que a divulgação da rua onde mora o autarca, para além de gratuita, só depois das primeiras manifestações de franca hostilidade poderá enformar um convite (ainda que claramente involuntário) a novas ameaças. Ou mesmo a desacatos.
O argumento das imagens televisivas, já utilizado pelo coordenador do ?Grande Porto? também não colhe. Pergunta-se quantas das pessoas que viram as reportagens televisivas foram capazes de identificar a rua. Só mesmo os que vivem lá, ou na vizinhança mais próxima. E para esses não constituía novidade a residência de Rui Rio.

E, repete-se, a reportagem não foi enriquecida com a morada, como a entrevista feita em Viana não saiu empobrecida com a falta da localização da casa do dr. Rui Rio naquela cidade."