Tuesday, 23 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Fernando Martins

JORNAL DE NOTÍCIAS

"Quem tem medo da verdade?", copyright Jornal de Notícias, 17/3/02

"A assunção, pelo padre espanhol José Mantero, da sua homossexualidade, abalou a bimilenar igreja católica, e reacendeu na opinião pública a polémica do celibato dos sacerdotes ? no fundo, apenas uma ponta do intrincado novelo de problemas que a hierarquia do clero não consegue resolver, no caminho de uma mais rápida aproximação à realidade social dos nossos dias.

O sol mostra mais claramente todos os buracos das paredes rústicas quando se fecham portas e janelas ao exterior. O mesmo acontece quando se prefere o silêncio ao diálogo, ao debate. Um debate que o padre de Valverde del Camiño quis impulsionar, e com uma oportunidade que notícias mais recentes de comportamentos desviantes no clero, nomeadamente na hierarquia norte-americana, vieram comprovar.

Os ?media? projectaram e aprofundaram o caso do sacerdote da diocese de Huelva. Como acharam que se impunha. E a proximidade justificou o relevo particular que lhe deu a comunicação social de Espanha.

O Jornal de Notícias não ignorou, também, a importância da corajosa confissão pública de José Mantero, e fez do caso o ?Tema da semana?, em reportagem que ocupou as páginas 2 e 3 da edição de 17 de Fevereiro.

Reagiram quatro leitores. Com desagrado. José Vitorino Sousa, de Vila Nova de Gaia, e Mário Esteves, do Lindoso, não estão contra a escolha do assunto. Diz o primeiro:

?Abordem o tema (a censura já lá vai), mas façam-no com dignidade, rigor e ética. Espremido o limão, não deu sumo, como diz o povo…?.

E Mário Esteves completa a ideia:

?(…)A homossexualidade existe em todo o sítio. A atitude do sacerdote espanhol foi corajosa. Anda por aí muita gente a fingir. Muitos homossexuais até casaram e têm filhos, porque esta sociedade não está preparada para os entender?.

No entanto, o leitor do Lindoso protesta porque. em sua opinião, ?do ponto de vista jornalístico, o trabalho é fraquíssimo, sem rigor, elementar e boçal.?

Unidos com os anteriores na contestação, ainda que por motivos bem diferentes, estão Ester Monteiro, de Águas Santas, Maia; e Carlos Pessanha, de Grijó, Gaia. Na opinião de ambos, o JN não devia ter pegado no assunto.

?A minha opinião é a de que coisas deste género são chocantes, e não é oportuno trazê-las para a ribalta. Em todo o lado há homossexualidade e há-de existir sempre?, contesta Ester Monteiro. Para esta leitora de Águas Santas foi dado ao caso relevo exagerado, tão-somente porque se tratava de um padre. Em sua opinião houve ?uma invasão e devassa da vida privada, que se condena em jornalismo… ? opinião que Carlos Pessanha partilha, ao afirmar que ?a orientação sexual de cada um é com a própria pessoa, e dar publicidade a tal é, para mim, um atentado à vida privada?.

A jornalista autora da reportagem contesta as críticas ? algumas das quais não entende, sequer: ?A abordagem do tema é considerada uma ?devassa? e um ?atentado? à vida privada. Sobre este aspecto, sublinho pura e simplesmente que é o próprio sacerdote a justificar a opção de divulgar uma questão à partida privada num meio de comunicação social de tiragem nacional, em Espanha, e a repetir declarações e entrevistas às principais rádios e televisões daquele país. Considera que o altar é o lugar indicado para ?acabar com a culpabilidade do silêncio que a homossexualidade provoca na Igreja?.

?Defender, como um dos leitores, que ?coisas deste género são chocantes e não é oportuno trazê-las para a ribalta? só prova isso mesmo ? que é necessário discutir com naturalidade aquilo que deveria ser natural.

?O caso é obviamente notícia. Pelo peso que o próprio padre Mantero quis dar (assumidamente) à questão, pelas reacções que provocou, pelas questões profundas que levanta no seio da Igreja Católica (não só a forma como encara a homossexualidade, mas também o celibato).

?Confesso alguma dificuldade em perceber a que se referem as acusações de falta de rigor e de ética. Tentou fazer-se o enquadramento da questão, explicando a condução do processo pelas estruturas regionais da Igreja.

Ouviram-se associações de diferentes quadrantes. Enquadrou-se a questão do celibato. E ouviram-se as reacções de quem melhor conhecia o padre Mantero: a população de Valverde del Camiño. As pessoas manifestaram apoio. ?Parece-me, sinceramente, uma abordagem positiva da questão.?

O Conselho de Redacção é, também, claro sobre o assunto:

?1 ? Numa sociedade aberta que escrutina livremente os temas e problemas do seu tempo, nenhum assunto deve ser arredado da agenda dos media, devendo ser respeitadas a liberdade e a coragem daqueles que entendem útil ao debate dar o seu testemunho pessoal, como é o caso das pessoas que se tornam objecto de notícia a propósito ou como pretexto para a discussão.

?2 ? O Jornal de Notícias não pode nem deve ignorar temas na ordem do dia como o que suscita as críticas dos leitores, devendo esforçar-se por dar-lhes um enquadramento o mais profundo e diversificado possível, de modo a habilitar os leitores com a maior gama possível de informações, pontos de vista e ângulos de abordagem.?

Tal como a jornalista autora da reportagem, também o Provedor tem dificuldade em vislumbrar as acusações não concretizadas de ?falta de dignidade, rigor e ética? feitas por José Vitorino Sousa. Não encontra, ainda, vestígios da ?boçalidade? apontada por Mário Esteves. Mesmo percorrendo os caminhos da subjectividade que alguns desses conceitos encerram.

Quanto à devassa da privacidade, em que confluem as opiniões de Ester Monteiro e Carlos Pessanha, decerto os leitores não se aperceberam de quem, deliberadamente, escancarou as portas da sua intimidade (a privacidade na sua forma mais profunda) foi o padre José Montero. Fê-lo, deliberada e calculadamente, com um único objectivo: forçar um diálogo que a hierarquia católica vem recusando obstinadamente, chamando a si outras vozes, em reforço da sua. E a verdade é que o tem conseguido, ao ponto de mais de 70 padres, também católicos, da Diocese de Girona (ainda em Espanha) se terem assumido num abaixo-assinado que luta pela abertura do sacerdócio às mulheres, e que defende o celibato como opção voluntária.

Aliás, um dos subscritores desse documento (que reclama, igualmente, que a igreja abandone os seus sinais de ostentação), recomendava, em declarações a jornalistas do seu país:

?Para entrar na igreja, tira-se o chapéu, mas não se deve tirar a cabeça?.

A homossexualidade existe também na igreja católica. Às claras, a partir do momento em que o padre José Mantero se assumiu, e desde que, mais recentemente, um arcebispo norte-americano pediu perdão aos sacerdotes e seminaristas que molestara sexualmente.

Há sempre tempo para ouvir a outra parte!

Na ?Última Página? da edição de 1 deste mês, dava-se notícia de que o comandante-geral da GNR mandara distribuir por todos os postos daquela força militar espalhados pelo país a sua fotografia, emoldurada, — o que representara um gasto de 25 mil euros (cinco mil contos). O facto, dito ?inédito?, era contado num texto a que foi dado o título ?GNR desperdiça em fotografias?.

Cinco dias depois, na página 25, publicava o JN, ao abrigo da Lei de Imprensa, um desmentido: nem a iniciativa era inédita, porque no antecedente se fazia o mesmo, nem os gastos foram de 25 mil euros, mas sim de menos de mil, já que não foi dispendido dinheiro nas molduras, pois estas já existiam nos aquartelamentos.

Lamentava o comandante-geral da GNR, na sua resposta, que não tivesse sido preservado ?o rigor jornalístico, dando as duas versões dos facto?. Uma acusação incumprimento do Código Deontológico, que levou à intervenção do Provedor.

Sobre o assunto, o coordenador de ?Sociedade?, Paulo Silva, informou que, na altura da publicação da notícia, ?(…)ficou então esclarecido, junto da hierarquia, que a audição da parte visada não foi possível em tempo útil, visto a informação ter sido obtida em cima do fecho da edição?.

Por seu turno, o Conselho de Redacção, interpelado sobre o caso pelo Provedor, lembra:

?1 ? Um dos deveres deontológicos essenciais dos jornalistas é o comprovar os factos, ?ouvindo as partes com interesses atendíveis no caso? (n.? 1 do Código Deontológico?).

?2 ? A não ser que, pelo seu manifesto interesse público imediato, não possa ser adiada a publicação de trabalhos sem o cruzamento completo de fontes, é aconselhável aguardar a obtenção dos elementos indispensáveis às garantias de audição das partes antes da edição dos materiais em que sejam visadas?.

Não há qualquer justificação para a publicação da notícia, antes da sua confirmação. O seu interesse público não justificava o risco de erro que se correu, com as consequências que se conhecem.

O interesse na verdade também não se comprovou, já que essa verdade apenas foi reposta por exigência da lei e não por qualquer diligência JN.

É pena e não está nas tradições do jornal. Como não o está a infracção à legislação em que se incorreu ao não publicar a resposta na mesma págima e com o mesmo destaque da notícia que lhe deu causa.

Esta é a verdade. Quem a teme?"