Tuesday, 05 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Frenesi da cura do câncer

Paulo Lotufo, de Boston

 

Há seis meses, o New York Times apresentou uma reportagem onde mostrava que em menos de dois anos seria alcançada a cura do câncer. Tal notícia referia-se às pesquisas de Judah Folkman, do Children’s Hospital de Boston, que teriam sido referendadas pelo Prêmio Nobel James Watson (descobridor do DNA, juntamente com Crick) As TVs entraram em frenesi, as ações da empresa Entremed, produtora da droga, subiram e, dois jornalistas (a autora da reportagem e redator da revista de divulgação científica Newsday) receberam propostas milionárias para escrever livros sobre Folkman. O assunto foi manchete no mundo inteiro e, todas as revistas semanais deram capa para o assunto. O assunto foi abordado no OBSERVATÓRIO número 45 (20/5/98; ver remissão abaixo).

 

Eis o balanço do episódio após meio-ano:

1. O Instituto Nacional do Câncer, pressionado pela onda sensacionalista, resolve “caronear” outros projetos, e passa a priorizar o estudo da angiostatina e endostatina. Nesta semana divulgaram que não estão conseguindo reproduzir os experimentos da equipe de Folkman.

2. A primeira tentativa de estudo experimental em humanos fracassou porque ninguém quis ser alocado no grupo que tomará placebo.

3. Outras descobertas “sensacionais” também foram divulgadas. Todas cumprem uma rotina. Em um primeiro momento salvarão a humanidade, em segundo momento, “não é bem assim”, e finalmente são esquecidas. Outro denominador comum é o fato de que sempre há uma excepcional valorização nas ações de uma empresa da área – grande ou pequena – que pode persistir, ou cair, como foi o caso da Entremed.

4. Gina Kolata, a principal jornalista da área de ciências do New York Times, autora da reportagem, passou a ser investigada pelo órgãos de media criticism com acusações de double standard em relação à indústria farmacêutica e de equipamentos médicos.

Estes fatos permitem alguns comentários, como:

  1. Se, em um primeiro momento, as pesquisas de J. Folkmann foram superavaliadas, agora de forma injusta estão sendo desprezadas. Impossível para um laboratório reproduzir em menos de seis meses uma técnica que foi aperfeiçoada durante mais de uma década. Aliás, esta era a crítica que se fazia à reportagem, o fato de apresentar um prazo curto (até dois anos) para o uso clínico. As bases teóricas e os primeiros dados experimentais desta e outras linhas semelhantes são bastante animadoras para que se aceite qualquer juízo negativo, como já está sendo divulgado.
  2. A recusa dos pacientes em participar deste estudo é absolutamente aceitável. Se a eficácia da droga foi apresentada como 100% porque alguém se submeteria ao fracasso certo do placebo?
  3. As editorias de ciência e as chefias de redação ainda não compreenderam o jogo de inocentes úteis que desempenham insuflando o balão das ações de empresas interessadas na área farmacêutica e médica. Outros órgãos são “úteis”, porém sem qualquer vestígio de inocência. Qual a lógica do Wall Street Journal noticiar que uma determinada droga teve bons resultados que serão apresentados daqui a um mês em um Congresso, a não ser encher o balão da empresa produtora? (Não cito o nome da droga, da doença e da empresa para não valorizá-las em excesso.)
  4. O New York Times e sua principal repórter devem ter uma avaliação do episódio. Seria interessante que soubéssemos dos pormenores.

Daqui a seis meses, apresentaremos o seguimento de um ano do frenesi. Esperamos que com melhores notícias para quem se encontra com câncer.

 

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