Sunday, 03 de March de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1277

Globotomídia, uma experiência transgênica

Eduardo Martinez

 

Lobotomia, segundo o Aurélio, significa intervenção artificial nos lóbulos que causa profunda alteração nos sentidos. O prefixo e o sufixo – globo e mídia – criam um palavróide: uma palavra andróide que define com precisão observatoriana a lobotomia global através da mídia.

O pensamento único tem dois lados óbvios que ululam entre efeitos especiais tipo Guerra nas Estrelas, Raposas no Deserto ou Vale do Rio Amargo – antes Doce, antes fosse – e complicam nosso volver à esquerda – o lado do coração. O escancarado nos diverte enquanto nos come literalmente pelas beiradas, aparentemente nus e crus em argumentos alternativos. O segundo lado é a unidade de valor impessoal transgênica: o dólar. Diga-se de viagem que o último lado é o dado viciado da moeda.

No último 17 de maio, o Ministério da Acricultura e do Desabastecimento concedeu o registro que autoriza a Monsanto (nem tanto) a produzir e comercializar no país cinco variedades de soja geneticamente modificada. O secretário de Agricultura do Rio Grande do Sul achou absurda a iniciativa altamente suspeita do ministro caTurra (aquele pássaro que vive repetindo o que o dono dita).

Muito se diz e pouco se fala sobre transgênicos. Independentemente do direito de patente sobre a biodiversidade, ou seja, o direito de botar a biodiversidade na privada e dar descarga, o que os midiotas não dizem é que, como a cultura, a economia, a tecnologia, a agricultura deve ter princípios naturais. Por exemplo: o desenvolvimento de sementes deve ter em mente a produção de alimentos saudáveis e nutritivos em grande quantidade e que cheguem à mesa do Dines, do Bonner, do joão, da maria, do josé baratos. Quando a semente é desenvolvida para ser resistente ao herbicida do laboratório que a modificou geneticamente, a natureza é morta sem arte e enterrada viva nos pratos esvaziados pela economia transgênica.

Não é novidade a manipulação em laboratório da cultura ocidental. O famigerado Documento de Santa Fé 1 – proposta de política externa do então candidato à presidência da terra do tio Samuel, o ator-presidente ou presidente-ator Ronald Reagan – sugeria investimentos maciços no folclore da América Latina, em vias de redemocratização (transgênica!), e ações que esvaziassem as manifestações culturais – que fazem o povo pensar e, como dizia José Martí, conhecer é resolver.

O que aconteceu? Grandes redes de comunicação e manipulação de massa, enlatados supostamente artísticos, máfias do dendê, a Xuxa ensinando nossas crianças a procriar sem a necessidade de um estábulo e um carpinteiro a caminho de Nazaré, um presidente da República que fala do próprio governo como se fosse alguém distante, quase outro, em quem deposita seus defeitos, um país inteiro oscilando nas bolsas de inversão de valores.

Do jeito que as cesarianas tomaram o lugar do parto normal, a amamentação perdeu o seio materno para a Playboy, o amor é sufocado pela camisinha, o país é governado por um analfabeto intelectual infectado pelo vírus a ser eterno, será que não somos transgênicos sem saber?

 

Alexandre Dines

 

Temos um brasileiro que é campeão mundial. Ele não fez mil gols, não pilota bólidos de milhões de dólares, nem é um filhinho da mamãe, jovem, que com raquetadas poderosas avança no ranking semi-pedante das partidas de tênis. Muito menos tem um pai campeão de hipismo, que lhe possibilite apoio direto do nosso Rupert Murdoch, o jornalista Roberto Marinho.

Ele não se chama Pelé, nem Romário – muito menos Ronaldinho. Não é um Senna ou Rubinho, nem é o bonitinho Guga. Pelo menos se ele tivesse o sobrenome Pessoa, já seria a glória: afinal, sabe-se que montar cavalos é o esporte preferido do poderoso clã que controla a mídia brasileira.

O nome dele é Ronaldo. Simplesmente Ronaldo; vá lá, um ou outro cidadão brasileiro lembrará que seu nome inteiro é Ronaldo Costa. Pois bem: o negro baixinho que só apareceu na mídia dando cambalhotas e piruetas ou dando gargalhadas humildes de puro orgulho é o recordista mundial do esporte que é a síntese do ideal olímpico, a dificílima prova da Maratona.

O brasileiro baixinho derrotou os supertreinados americanos, os anabolizados russos e alemães, os esforçados ingleses e até seus quase-patrícios do Quênia. Seu feito não é pouco: Ronaldo Costa é o homem do século 20 que completou os 42 quilômetros e pouco da maratona com o melhor tempo da história.

Quanto tempo seu recorde vai durar é coisa difícil de prever. O importante é que na sua vitória está o arquétipo da própria Olimpíada grega, a vontade de ganhar empurrando braços e pernas a níveis inalcançáveis em condições normais. Ronaldo venceu pois tinha a palavra vencer tatuada na mente – quiçá, no inconsciente.

E o que a mídia brasileira deu?

Umas poucas chamadas no pé das primeira páginas das segundas-feiras ou algumas entrevistas em telejornais em que o ingênuo Ronaldo demonstrou mais seu histriônico talento de acrobata do que falou sobre sua magnífica conquista.

Ronaldo Costa foi, viu e venceu. Ave, Ronaldo! Ele está por aí treinando pelo mundo, com sua gostosa gargalhada que simboliza uma clássica expressão brasileira: “o que vier é lucro”. O patrocínio deve ser mínimo e ele só estrelou uma desastrada campanha da Telerj (atual Telemar), que aliás ninguém entendeu. (Outro colosso do atletismo, a triatleta Fernanda Keller, participou da mesma campanha, cuja mensagem era algo assim: “ninguém consegue instalar tantos cabos telefônicos como a Telerj”.)

Quantos prodígios como Ronaldo Costa o Brasil deve ter? Ninguém sabe, ninguém tem interesse. Para os jornais do país só importa se Rubinho vai finalmente decolar à la Senna, ou se Ronaldinho e Guga vão finalmente atingir o equilíbrio psicológico. É verdade que Suzana Werner terminou com Ronaldinho? E as bravatas de Romário? Isso sem falar no animal Edmundo, que matou, bêbado, três pessoas num acidente de trânsito. Alguém se lembra que Edmundo deixou de comparecer a uma audiência do processo e mandou um bilhete cheio de erros de português ao juiz justificando a falta “por estar em fase de treinos para a Copa”?.

Pois é. E o nosso Ronaldo vaga por aí, sem eira nem beira, com o título de homem mais rápido do mundo na prova mais difícil de todo o atletismo. Não importa. O que vai dar Ibope, todos os editores de jornais sabem, é a vida amorosa de Ronaldinho e Suzana Werner. Enquanto isso Ronaldo Costa roda o mundo, correndo milhares de quilômetros, com seu belo sorriso humilde e as piruetas que ele sabe dar como ninguém.

Em tempo: no dia em que escrevo, 31 de maio, está sendo sepultado um dos maiores atletas brasileiros de todos os tempos, João Carlos de Oliveira, o João do Pulo. Quando ele atingiu seus inacreditáveis – para a época – 17 metros e 89 centímetros no salto triplo, cravou um marco que demorou quase dez anos para ser superado.

João quebrou um recorde mundial durante os Jogos Pan-Americanos do México, em 1975, o que lhe garantiu notoriedade, pelo menos para os minguados resultados até então obtidos por atletas brasileiros.Ele viveu o auge da fama e tombou do galho mais alto direto para o chão, num choque dramático com a realidade. Triste sina, pobre João.

 

José Afonso Queiroz

 

A entrevista com Olívio Dutra, nas páginas amarelas da Veja, expõe um comportamento dos repórteres muito parecido com o de uma CPI: não se pretende informar aos leitores o que pensa e faz Olívio Dutra, mas o quanto as suas posições são diferentes dos princípios e da ideologia dos repórteres, como se eles fossem donos da verdade ou fiscalizassem a observância da lei – uma verdadeira Comissão Jornalística de Inquérito. Não fiquei sabendo o que está fazendo ou pensando Olívio Dutra como administrador de um grande estado do país, mas descobri precisamente como sua ideologia é diferente da dos entrevistadores.

Demonstraram falta de honestidade e de habilidade jornalística, pois forçaram Olívio a se comportar o tempo todo como um político enfrentando a oposição.

Aproveito a oportunidade para falar sobre Dora Kramer. Como contribuinte e eleitor, quero que esses procuradores da República investiguem tudo o que possa parecer suspeito – eu lhes pago para isso –, e quem não deve não tem o que temer: pessoas honestas não têm documentos comprometedores em casa ou contas indevidas em bancos – e os procuradores fazem o que fazem apoiados nas fracas leis que votamos, não exercem um poder ditatorial.