Friday, 19 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Ivson Alves

EXAME & DEMOCRACIA

"?Perigo! Perigo?", copyright Comunique-se (www.comunique-se.com.br), 07/04/02

"Toda vez que alguém da Família Robinson estava para ser atacado por alguma entidade desconhecida, o Robô do ?Perdidos nos Espaço? começava a agitar os braços de sanfona e berrar ?Perigo! Perigo! Presença alienígena na área! Perigo!?. Pois parecia estar ouvindo a voz supostamente sintetizada do ?lata de sardinhas? enquanto lia o artigo assinado por Adriano Silva publicado na Exame que começou a circular no dia 3 de abril (portanto ainda deve estar nas bancas enquanto você lê estas mal-digitadas). O texto tem o título sugestivo de ?Eleição serve para alguma coisa??. É sugestivo, mas não definidor. Afinal, a resposta à pergunta poderia ser positiva. Não é o que acontece, porém.

Mesmo iniciando o artigo usando daquele artifício retórico de dizer que é favor de algo que se pretende arrebentar, Adriano, diretor de redação da Superinteressante, não disfarça que a sua intenção é mandar a democracia para o paredão do Big Brother e detoná-la sem dó nem piedade. Para começar, reduz democracia a eleições, ?esquecendo? que este sistema não se define apenas por isso (na nossa ditadura pós-64, por exemplo, havia eleições), mas por toda uma série de práticas que, basicamente, têm por fim dar voz ativa aos cidadãos nos destinos das diversas coletividades em que estão inseridos.

Ficaria meio longo citar os exemplos que são usados no texto para desqualificar a democracia – e o único modo de praticá-la, a política. Por isso, escolhi aquele que me pareceu mais definidor. ?(…) E assim os eleitos para gerir os interesses da comunidade acabam sendo, de modo geral, os medianos, os medíocres, quando não simplesmente aquilo que produzimos de pior – os bandidos que se locupletam, os incompetentes que não deram certo em outro lugar, os delinqüentes patológicos etc (…)?.

Parece bem lógico diante do que vemos no dia-a-dia, certo? Pois é. Esse é um dos melhores truques de retórica que existem: pegar a realidade e botá-la como exemplo de tudo que se quer criticar. Ou seja, usando como prova do argumento apresentado aquilo que ser quer provar. Funciona com tudo o que você quiser, da seleção do Felipão às vicissitudes causadas em casa pela visita da sogra. Experimente!

Mas não foi o uso deste expediente técnico que me deixou com várias pulgas comichando atrás das duas orelhas. É que eu já vi textos deste estilo, e com as mesmas intenções, descritos no livro ?1964: A conquista do Estado?, escrito pelo cientista político e historiador René Armand Dreifuss (que da última vez que soube fazia parte da excelente equipe do Departamento de História da UFF). No calhamaço de mais de 800 páginas, Dreifuss demonstra, entre outras coisas, como os mentores do Golpe de 64 (cujo aniversário foi comemorado pelos militares, pela primeira vez em muitos anos, três dias antes de a Exame ir às bancas…) usaram a mídia para conquistar as classes médias para o projeto golpista.

Um dos melhores exemplos dados pelo pesquisador é um position paper (hoje ?posicionamento estratégico? em algo parecido com o português) escrito por Arlindo Lopes Corrêa, pertencente ao Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), de não saudosa memória. Lá pelas tantas, Lopes Corrêa escreve neste paper, segundo Dreifuss, ?felizmente, a classe média não fica totalmente infensa às emoções sócio-políticas, se elas contiverem um elemento de aparente racionalismo?. Um pouco adiante, o ipesiano dava a receita final. ?A conquista da classe média tem de ser feita através de uma atividade de propaganda que mescle argumentos racionais com argumentos emocionais. Dessa forma, a liderança dessa classe será alcançada?.

(Agora pausa para você ir até à banca mais próxima para comprar a Exame e ler o artigo do Adriano Silva…

Foi? Leu? Não? Tudo bem, mas lê depois, viu? Sigamos.)

O texto de Adriano é uma excelente utilização das recomendações de Arlindo Lopes Corrêa – com uma roupagem nova, claro, afinal Lopes Corrêa escreveu no início dos anos 60. E ainda ganha um relevo especial por dois motivos: o cargo do redator e o ve?culo em que escreveu. O primeiro é meio óbvio: como diretor de redação de uma revista da Abril, Adriano Silva é homem dos donos da empresa e, portanto, jamais escreveria algo que fosse diferente do que eles pensam. Se demonstra tal desprezo pela democracia, e pelo exercício da política inerente a este sistema de governo, é de ser presumir que os donos da empresa que edita a Superinteressante e a Exame pensam da mesma forma.

O segundo ponto é mais sutil e tem a ver com marketing. A Exame é uma revista e revistas, mais do que os outros veículos, têm uma espécie de ?compromisso de lealdade? com seu leitor. Elas existem não só para mantê-los informados, mas para confirmar a visão que eles têm do mundo. Por exemplo: é impossível que Caras escreva que aqueles dançarinos de grupo de axé sofrem de sérios problemas nos joelhos com pouco tempo de palco, pois isso iria contra a idéia de glamour que o público que compra a revista quer ler.

Assim, o texto de Adriano, usando daquele ?racionalismo? pregado por Arlindo Lopes Corrêa, pega o preconceito existente contra os políticos nas classes média e alta que lêem a revista e o leva a contaminar o processo político democrático como um todo (ele chega a ironizar até eleição de síndico). Numa tacada, reforça o preconceito e o eleva a um novo patamar, mais amplo que o primeiro. Nas entrelinhas (mas sem muita sutileza), insinua que o sistema democrático é o ideal, mas infelizmente não funciona, e, diante deste fato inelutável (?Não sei porque é assim. Mas é assim. (…)?) seria bom partir para um outro não tão bom talvez, mas mais factível, racional… Um doce para quem adivinhar qual seria a alternativa…

Pois é. Depois de tanto tempo, descobrimos que o Dr. Smith continua vivo e em boa forma. É bom a Família Robinson se cuidar.

Picadinho

No clima – Mais uma matéria com o clima de desmoralização da política justo nas vésperas de uma eleição que deve ser muito disputada saiu na capa do caderno Internet do JB da semana passada. A pauta é legal e o ataque à política não é tão hard, mas que está lá, está. E, aliás, o tal candidato virtual da matéria, quando meio de perfil, parece à beça com o Collor…

Devagar – Tá certo que neguinho vai aproveitar pra tentar marcar pontos com a casa neste combate que se avizinha, mas a matéria que saiu no Segundo Caderno do Globo de sábado sobre a candidata trotkista à Presidência da França (tem 10% nas intenções de voto) chega a ser desrespeitosa e quase insultante com o ser humano retratado. Menos, rapaziada…Menos…

Reprovada – Em artiguete também no sábado, O Globo diz que Benedita da Silva terá seu governo julgado pelos índices de crimes no Rio. Se baixar muito, está aprovada; se não, leva bomba (sem e com trocadilho, como você queira). Então, nem precisa esperar: ela já está reprovada. É impossível se implementar um política que baixe substancialmente em nove meses um quadro de insegurança que começou a ser montado há 40 anos (datação pessoal: pra mim a partição da cidade que levou ao estado de coisas em que vivemos começou com a remoção, a ferro e fogo, dos moradores de favelas da Zona Sul para fins de mundo sem qualquer infra-estrutura urbana, social e econômica, lá pelo início dos anos 60).

Sadismo – Tá bom, é sádico. Mas é muito divertido ver alguns (não todos) dos melhores colunistas do Globo se virando para dar estocadas no Big Brother, mas sem poder ir no ponto, já que trabalham numa empresa cuja estrela-guia realiza todo o esforço para estupidificar cada vez mais os brasileiros."