Sunday, 21 de July de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1297

Joaquim Ferreira dos Santos

MULHER & MÍDIA

"Até tu, Malu?", copyright No. (www.no.com.br), 7/03/02

"Até tu, Regina Duarte? Vinte anos depois de revolucionar os costumes como a Malu Mulher do seriado da Globo, a atriz foi vista esta semana num acesso de fúria e ciúme rasgando a tesouradas a camisa do marido em Desejos de Mulher. A protomártir das questões femininas na televisão, primeira a sentir atração por outra mulher, primeira a se masturbar na frente das câmeras, virou apenas uma Malu Mulherzinha.

Vinte anos depois, em pleno Dia Internacional da Mulher, os feitos de Malu parecem história do tipo acredite se quiser, matéria nostálgica de quem viu também os milagres de Madre Paulina. A cada santa o seu altar. A diferença é que ninguém acende mais uma vela em respeito àquela que se martirizou pelo profano. Pelo contrário. Esta semana o Vaticano beatificou Paulina. A televisão esculachou o espírito de Malu.

Duas mulheres da vida real se beijaram na boca no Casa dos Artistas e outras tantas conversaram no Big Brother Brasil se era mais prazerosa a masturbação com a mão esquerda ou com o chuveirinho. Pode parecer que essas feiticeiras e tiazinhas se ajoelhavam diante do altar de Malu e oravam pela continuação de seu catecismo. Blasfemavam apenas. O que era causa virou vazio. O que pode parecer um avanço não passa de vulgaridade.

Vinte anos depois os milagres de Malu Mulher servem apenas ao exibicionismo de suas freiras sapecas. Malu ofereceu as mãos crispadas no lençol como logotipo do primeiro orgasmo via satélite do país. Não era um gesto. Era a televisão condensando ao seu jeito centenas de discursos feministas. Semana passada, Estela alisou os seios de Leka na banheira de espuma do Big Brother Brasil e, como não havia texto, como era apenas uma forma de manter o ibope em pé, o gesto reduziu as mulheres ao seu velho formato de encantadoras de serpentes.

O problema não é só delas. Os jovens também estão sem uma boa causa, os negros avançam nas conquistas sociais e deixam os cantores de rap apenas com o ridículo de suas caras zangadas não-se-sabe-muito-bem-por-quê. Falta um tabu, um vilão. O mais contundente discurso feminista dos últimos dias foi a aparição pública de Patrícia Pillar, uma deusa da beleza, que exibiu a careca como um manifesto radical e cru pela prevenção do câncer de mama.

Vanessa, a modelo negra de BBB, também não faz feio. Enquanto Marina Kupfer anuncia na casa do SBT que os hormônios do tesão lhe buliversam o corpo de 30 em 30 minutos, enquanto Syang garante a cada capítulo que se não estivesse ali trancafiada estaria na rotina habitual de três rodadas diárias de sexo radical – enquanto a vulgarização da aeróbica do orgasmo parece ser a única incontinência verbal dessas novas mulheres televisivas, Vanessa professa o contrário.

Discreta, elegante e calada, troca alguns beijos com o namorado. E só. Não oferece nenhuma outra intimidade que, flagrada pelas 42 câmeras ao redor, sirva para alimentar o voyeurismo doente aqui fora. Não relata se gosta o frango assim ou o frango assado. E se, como aconteceu na terça-feira, as colegas da casa reúnem embaixo do edredon os homens que conheceram há 25 dias para pagar uma peitola – mostrar os seios na linguagem dos reality shows – ela não discursa contra nem ri solidária. Mas, sorry, está fora da baixaria. ?Minha avó está vendo?, ensinou outro dia.

Malu garantiu ganho do gozo no ponto G e, na época, isso não era brinquedo não. Hoje, suas seguidoras conseguiram avançar apenas duas casas no abecedário. Interromperam a incursão no ponto I, de Ibope – e por lá se mantêm, insaciáveis e, como ensinaria a Carla Perez, ?istéricas?. São a cara – e no caso do demorado close ensaboado que Ellen Roche ganhou esta semana, o glúteo – de uma televisão irresponsável, nem aí para construir um país melhor. A audiência desqualifica-se e, sem senso crítico, sem cultura, sem outros exemplos que não os dos baixos instintos, reclama apenas que a produção não coloque câmeras também por baixo do edredon. Que Madre Paulina e Santa Malu, neste Dia Internacional da Mulher, zelem por nós. Não é possível que o Boninho só tenha pai. Deve ter avó também."

 

"Mulher define novos rumos na sociedade da informação", copyright Folha de S. Paulo, 10/03/02

"A presença das mulheres na produção de ciência e tecnologia é motivo de atenção e debate crescentes. No Dia Internacional da Mulher, celebrado na sexta-feira, o IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) deu ao tema um tratamento VIP.

Não era para menos. Criado há mais de cem anos, ligado à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, com cerca de 400 pesquisadores e um orçamento anual da ordem de R$ 100 milhões, o IPT nunca teve uma mulher na alta direção. Agora tem: Ros Mari Zenha, especialista em tecnologia habitacional.

Outro ?feito? no sistema de ciência e tecnologia estadual celebrado na última sexta-feira é o da primeira mulher que chegou à posição de professora titular na Escola Politécnica da USP, Maria Cândida Reginato Facciotti, engenheira química.

O evento marcou também o anúncio da associação entre a Cidade do Conhecimento, projeto do Instituto de Estudos Avançados da USP, e a Cátedra Regional Unesco sobre Mulher, Ciência e Tecnologia na América Latina.

Coordenada por Regina Festa, da Escola de Comunicações e Artes, a agenda de gênero da Cidade (www.cidade.usp.br) inclui um programa de atualização sobre ciência e gênero para professores do ensino médio e uma nova rede, ?Meninas Cientistas?, em que serão promovidos encontros virtuais entre alunas do ensino médio, graduação e pós, pesquisadoras e cientistas.

Há de fato um notório esquecimento da mulher ao longo da história ocidental da ciência e da tecnologia. A lembrança resulta agora não apenas da mobilização das próprias mulheres mas da constatação de que a sociedade organizada em redes é potencialmente mais feminina. O alerta foi feito pelo diretor-superintendente do IPT, Guilherme Ary Plonski.

As redes mundiais representam novos desafios para a formação de identidades culturais. A questão de gênero destaca-se nessa busca, que, para muitos especialistas, associa-se a uma busca do feminino.

Estruturas verticais de comando, organizações fortemente hierarquizadas e códigos de conduta rígidos são formas nitidamente masculinas. A flexibilidade e a organização que se movimenta menos porque segue regras e mais porque se abre à intuição e à sensibilidade são formas femininas.

A associação definitiva entre ciência da informação e genética é outra fonte de inspiração para os que identificam um viés feminino nas tendências mundiais em ciência e tecnologia.

No passado imperavam os modelos científicos de corte mecanicista, as visões deterministas da natureza. As novas fronteiras da ciência são feitas de informação e vida. A própria rede tem sido vista cada vez menos como um emaranhado de cabos e equipamentos e cada vez mais como uma formação orgânica, vitalista, que pode não ser obviamente feminina, mas que definitivamente não tem nada a ver com os padrões das engenharias supostamente objetivas, frias e calculistas desenvolvidas pelos homens.

Talvez seja mais exato dizer que as redes mundiais conduzem não só a modelos de organização social menos masculinos, mas a espaços em que a própria questão de gênero perde sentido.

Se é verdade que a mulher define novos rumos na sociedade da informação, isso é possível também porque a própria vida na rede mundial cresce e se transforma por meio de formas inéditas de criação e reprodução. Que parto!"